Inicialmente, convém ressaltar que os princípios são considerados a base do ordenamento jurídico brasileiro, a origem, o eixo central de todos regramentos e diretrizes previstos na legislação.
Assim, constata-se que no âmbito jurídico diversos são os princípios basilares do Estado Democrático de Direito, contudo, cumpre ressaltar três princípios específicos ligados a prova testemunhal amparados no respeito à dignidade da pessoa humana, sendo eles: princípio da busca pela verdade real, princípio do devido processo legal e direito fundamental a um processo justo.
Nesse contexto, ressalta-se que durante toda instrução probatória a direção a ser seguida pelo ordenamento jurídico brasileiro pautar-se-á no desvendar dos eventos ocorridos, norteando toda investigação processual a reconstituir os fatos com a máxima precisão que ocorreram no passado. Assim, na fase de instrução, o juiz deverá viabilizar meios necessários para que se torne possível reconstituir as cenas dos crimes ocorridos e, consequentemente, aferir a
veracidade e a fidedignidade dos relatos, buscando por meio do conjunto probatório chegar o mais próximo possível do episódio ocorrido. (MOUGENOT, 2019, p. 104).
Em decorrência ao exposto, surge na seara processual penal o princípio da busca pela verdade real, ou melhor dizendo, a ferramenta normativa utilizada pela esfera jurídica para alcançar com a máxima exatidão a verdade dos fatos ocorridos e relatados, propiciando ao acusado um julgamento pautado nos preceitos éticos, morais e constitucionais. (NUCCI, 2020). A luz do exposto, evidencia-se os ensinamentos de Avena (2020, p. 14) expondo que:
O princípio da verdade real, também conhecido princípio da verdade material ou da verdade substancial (terminologia empregada no art. 566 do CPP), significa que, no processo penal, devem ser realizadas as diligências necessárias e adotadas todas as providências cabíveis para tentar descobrir como os fatos realmente se passaram, de forma que o jus puniendi seja exercido com efetividade em relação àquele que praticou ou concorreu para a infração penal. Não se ignora, diante das regras legais e
constitucionais que informam o processo penal brasileiro, que
a verdade absoluta sobre o fato e suas circunstâncias dificilmente será alcançada. Muitos referem, inclusive, ser ela inatingível. Assim, a afirmação de que a verdade real é a meta do processo criminal significa dizer que o juiz deve impulsioná-lo com o objetivo de aproximar-se ao máximo da verdade plena, apurando os fatos até onde for possível elucidá-los, para que, ao final, possa proferir sentença que se sustente em elementos concretos, e não em ficções ou presunções.
Nesse ótica, nota-se que durante toda fase instrutória, o juiz deverá direcionar-se inesgotavelmente a atingir a finalidade do processo, ou melhor dizendo, a verdade real. Outrossim, observa-se que o conjunto probatório previsto nos regramentos constitucionais e nas normativas processuais penais deveram estar consubstanciados na obtenção desse grande propósito: alcançar a verdade com a exatidão necessária para que, ao final se obtenha um desfecho correto, justo e eficaz da lide penal. (MAGNO, 2013, p. 437).
Contudo, convém elucidar que inúmeras são as críticas por parte da doutrina à respeito do princípio da busca pela verdade real, uma vez que o posicionamento parcial doutrinário a acerca deste tema, contextualiza-se, sob o fundamento de que a verdade real é considerada uma utopia, algo inalcançável, incognoscível, tendo em vista que o homem é um ser falho, portanto, incapaz de reestabelecer em sua memória os eventos ocorridos com a precisão necessária para o desenlace processual, principalmente, em decorrência do decurso do tempo entre os fatos ocorridos e a reprodução da prova perante o judiciário, não atingindo ao final a verdade real e sim, a verdade processual. (MACHADO, 2014, p. 80).
Ora, face as alegações supracitadas, cumpre evidenciar que a busca pela verdade real ou verdade material, é a verdade em si, ou melhor dizendo, é a exata ocorrência dos fatos vivenciados ou presenciados pela testemunha e/ou vítima, todavia, a verdade formal ou verdade processual é a verdade obtida mediante a análise de todo conjunto probatório presentes nos
autos, devendo esta, ser o mais limítrofe possível dos eventos criminosos ocorridos, possibilitando ao juiz, a aplicação de uma sentença justa e consequentemente, a perfectibilização da justiça criminal. (PACELLI, 2020, p. 252).
Em conformidade com as alegações ventiladas até o presente momento, Magno (2013, p. 437) enfatiza que “o sentimento de justiça em dado caso concreto somente se aflora quando a verdade processual (ou formal) corresponder à verdade real (ou material). Quando houver essa correspondência, pode-se concluir que o processo atingiu seu grau máximo de eficácia.”
Assim, conclui-se que independentemente da terminologia aderida no processo penal para aferir a verdade dos fatos ocorridos em uma infração penal, o fundamento basilar de todo sistema probatória deverá pautar-se em averiguar a veracidade, a fidedignidade e a confiabilidade das alegações trazidas ao juízo mediante a análise das todas as provas produzidas, possibilitando que se extraia em sede de cognição exauriente a prolação de uma sentença justa.
Nos dizeres de Sarlet, Marinoni e Mitidiero (2013, p. 699) “a Constituição assevera que ‘ninguém será privado de sua liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal’ (artigo 5º, LIV). Com isso, institui o direito fundamental a um processo justo no direito brasileiro”.
Destarte, em consonância com as alegações supramencionadas, observa-se que dentro da perspectiva dos direitos fundamentais constitucionais derivados do Estado Democrático de Direito, sobreleva-se o direito fundamental a um processo justo. (COSTA, 2015, p. 178).
Nesse norte, roborando ao exposto, cumpre ressaltar que no decorrer do processo o magistrado deverá observar os regramentos constitucionais do princípio do devido processo legal, propiciando ao final, a promulgação de uma sentença equânime, posto que “a tramitação regular e legal de um processo é a garantia dada ao cidadão de que seus direitos serão respeitados, não sendo admissível nenhuma restrição aos mesmos que não prevista em lei.” (RANGEL, 2020, p, 03).
Assim, face as alegações evidenciadas, ressalta-se que o princípio constitucional do devido processo legal e o direito fundamental a um processo justo estão indubitavelmente ligados, uma vez que o fundamento constitucional norteador de todo processo penal baseia-se na concepção de que ninguém será condenado sem a instauração de um processo, observando- se os regramentos legais, respeitando os direitos fundamentais como o direito à vida, a liberdade, bem como, a dignidade da pessoa humana, assegurando aos indivíduos o direito a produção de provas, ao contraditório e a ampla defesa, visando mediante a instrução probatória averiguar a verossimilhança e a fidedignidade dos relatos trazidos a juízo com o fato
verdadeiramente ocorrido, acarretando ao final a promulgação de uma sentença justa. (SARLET; MANRINONI; MITIDIERO, 2013).
A luz do exposto, constata-se a ligação entre essas duas garantias constitucionais, uma vez que respeitando a dignidade da pessoa humana, o ordenamento jurídico propiciará meios pelos quais o acusado consiga expor sua visão dos fatos, defendendo-se, ante ao princípio do contraditório e da ampla defesa, produzindo na fase instrutória, todo e qualquer meio de prova licita para corroborar com suas alegações e, consequentemente, a aplicação da principiologia auxiliará o magistrado para que, produza ao final do processo uma sentença absolutória ou condenatória, que esteja alicerçada na verdade real e no direito fundamental a um julgamento justo, tendo em vista que no decorrer do processo foram respeitadas todas as garantias constitucionais.
4.4 CONTRIBUIÇÃO DA PSICOLOGIA DO TESTEMUNHO PARA O RESPEITO À