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PRINCÍPIOS APLICÁVEIS AO DIREITO DO TRABALHO

Princípios jurídicos são, de acordo com o dicionário compacto do direito:

[...] 3. Opção valorativa implicada como fundamento da norma. 4. Prescrição jurídica consistente numa opção valorativa fundamental. 5. Prescrição jurídica com alto grau de abstração, correspondente a opções valorativas, que fundamenta ou estrutura o ordenamento, cujas normas inspira e às quais dá sentido. (CUNHA, 2007, p. 220).

Ou seja, um conjunto de condutas que norteiam as relações jurídicas e orientam o operador do direito no que tange a hermenêutica e aplicação das leis.

O ordenamento jurídico pátrio se funda em princípios basilares. O direito do trabalho não foge à regra, assim, nessa esfera, temos como princípios fundamentais, conforme leciona Martins (2004, p. 96-99): o princípio da proteção, o princípio da irrenunciabilidade dos direitos trabalhistas, o princípio da continuidade da relação de emprego e o princípio da primazia da realidade.

Diante da importância dos princípios no sistema jurídico, é que se faz imperiosa a conceituação destes.

3.1.1 Princípio da Proteção

O princípio da proteção visa equilibrar as relações entre empregador e empregado, haja vista a superioridade, principalmente hierárquica e econômica, do empregador. Assim disciplina Rodriguez (apud Nascimento, 2009, p. 126):

[...] no direito do trabalho há um princípio maior coerente com as suas finalidades, o princípio protetor do trabalhador, por ser um direito destinado, desde as suas origens, a uma função: a tutela do trabalhador, forma de compensar a inferioridade em que se encontra no contrato de trabalho, pela sua posição de dependência ao

empregador, [...]; daí por que, sob essa perspectiva, cumpre promover o equilíbrio que falta na relação jurídica diante do desnivelamento entre os seus dois sujeitos [...].

Evidentemente, como acima apresentado, o empregado encontra-se em situação desfavorável diante do empregador, seja pela condição financeira superior, seja por sua posição hierárquica, motivo pelo qual o princípio em análise constitui-se num dos mais relevantes em matéria trabalhista.

Este princípio, almejando o alcance que lhe é proposto, subdivide-se, conforme ensina Basile (2011, p. 18), em in dubio pro operario, aplicação da norma mais benéfica e preferência da condição mais favorável.

O subprincípio do in dúbio pro operario “não deve ser traduzido somente como ‘na dúvida, para o operário’ e sim ‘na dúvida, em favor do vínculo empregatício’”. (BASILE, 2011, p. 18). Isto significa dizer que em caso de dúvida quanto à análise da norma trabalhista aplica-se aquela que for mais favorável ao trabalhador.

Já a aplicação da norma mais benéfica, ou favorável, como prefere Martins (2004, p. 97), consiste na prevalência da norma que se tornar mais benéfica ao trabalhador, no caso de existência de dois ou mais dispositivos aplicáveis ao caso. Assim leciona Nascimento (2009, p. 126): “[...] é princípio de hierarquia para solucionar o problema da aplicação das normas jurídicas trabalhistas, quando duas ou mais operantes no caso concreto dispuserem sobre a mesma matéria, caso em que será precedente a que favorecer o trabalhador.”.

Este subprincípio admite a existência de duas teorias, conforme se extrai do ensinamento de Basile (2011, p.19):

A teoria da acumulação, através da qual, em suma, é “possível a seleção de preceitos e institutos jurídicos mais benéficos ao trabalhador, admitindo-os como incondicionalmente válidos, mesmo fora do contexto normativo ou do sistema para o qual foram criados” (BASILE, 2011, p. 19). O que significa que de cada norma aplicável, se extrai o preceito mais benéfico ao trabalhador. Neste caso, uma relação trabalhista seria normatizada por mais de uma legislação, considerando, para tal, somente aquilo que for mais conveniente ao trabalhador.

A segunda teoria é a do conglobamento, na qual, diferentemente da teoria acima exposta, não há possibilidade de fracionamento do sistema normativo. O que remete, consoante o entendimento de Barros (2008, p. 180) à necessidade de utilizar-se, por inteiro, o dispositivo normativo mais benéfico ao trabalhador.

Esta é a teoria acolhida pela jurisprudência pátria e trata-se, inclusive, de matéria sumulada, nos moldes da súmula 51, II do Tribunal Superior do Trabalho:

51. Norma regulamentar. Vantagens e opção pelo novo regulamento. Art. 468 da CLT

[...]

II – Havendo a coexistência de dois regulamentos da empresa, a opção do empregado por um deles tem efeito jurídico de renúncia às regras do sistema do outro. (BRASIL, 2012).

Por fim, a preferência da condição mais favorável, decorre, segundo Basile (2011, p. 20), do art. 620 da CLT: “as condições estabelecidas em Convenção, quando mais favoráveis, prevalecerão sobre as estipuladas em Acordo”.

A não observância deste subprincípio infringe o dispositivo normativo constante do art. 468 da CLT, in verbis:

Art. 468 - Nos contratos individuais de trabalho só é lícita a alteração das respectivas condições por mútuo consentimento, e ainda assim desde que não resultem, direta ou indiretamente, prejuízos ao empregado, sob pena de nulidade da cláusula infringente desta garantia. (BRASIL, 1943).

Ou seja, o subprincípio em análise discorre acerca da garantia concedida ao trabalhador de que direitos adquiridos lhe serão mantidos, portanto, para que sejam promovidas alterações contratuais, faz-se imprescindível a análise das vantagens outorgadas ao trabalhador, preservando-as, sob pena de nulidade.

3.1.2 Princípio da irrenunciabilidade dos direitos trabalhistas

A Consolidação das Leis Trabalhistas, assim como a Constituição da República Federativa do Brasil concedem aos trabalhadores diversos direitos.

Considerando que os direitos trabalhistas possuem cunho alimentar, são, portanto indisponíveis e, consequentemente, irrenunciáveis, ainda que por ato unilateral do trabalhador.

Pelo exposto, com vistas a frustrar eventual acordo neste sentido, é que se formulou o princípio em tela, o qual consta do art. 9º da CLT: “Art. 9º - Serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação.”. (BRASIL, 1943).

Acerca da irrenunciabilidade dos direitos trabalhistas, assim ensina Barros (2008, p. 185-186):

[...] está vinculado à idéia de imperatividade, isto é, de indisponibilidade de direitos. Seu objetivo é limitar a autonomia de vontade das partes, pois não seria viável que o ordenamento jurídico, impregnado de normas de tutela do trabalhador, permitisse que o empregado se despojasse desses direitos, presumivelmente pressionado pelo temor reverencial.

Em outras palavras, este princípio, assim como o anterior, visa tutelar o trabalhador, além de trazer limitações à autonomia de vontade das partes, até porque seria bastante oportuno ao empregador coagir o empregado a aceitar a renúncia a determinados direitos que lhe seriam onerosos, como, por exemplo, férias, 13º salário, encargos previdenciários, entre outros.

3.1.3 Princípio da continuidade da relação de emprego

Os contratos de trabalho, salvo disposição em contrário, presumem-se por prazo indeterminado. Tal assertiva funda-se na proteção ao empregado que busca crescimento e estabilidade profissional. Não somente o empregado é beneficiado pela manutenção do emprego, mas também, o empregador que, deste modo, mantem a mão de obra qualificada e experiente, através da qual promove a majoração de lucros. (BASILE, 2011, p. 23).

Assim sendo, com vistas a evitar despedidas arbitrárias é que se formou o princípio da continuidade da relação de emprego, cuja essência trata-se de matéria sumulada pelo TST, sob nº 212: “o ônus de provar o término do contrato de trabalho, quando negados a prestação de serviço e o despedimento, é do empregador, pois o princípio da continuidade da relação de emprego constitui presunção favorável ao empregado” (BRASIL, 2012), ou seja, a proteção ao trabalhador é tão evidente, que no caso de ocorrência de demissões sem justa causa, compete ao empregador apresentar as razões do término do contrato. A isso se dá o nome de inversão do ônus da prova.

Pelo princípio em análise, segundo leciona Martins (2004, p. 99) tem-se por bem tutelado a proteção ao trabalhador em seu contrato de trabalho, coibindo a realização de contratos sucessivos que visam forjar uma relação de trabalho por prazo determinado.

3.1.4 Princípio da primazia da realidade

Em determinadas esferas do direito a prova documental é mais relevante que o fato em si. Esta proeminência documental não se aplica ao direito do trabalho, que concede maior importância aos fatos. Nesse sentido leciona Nascimento (2009, p. 126-127):

O princípio da realidade dá prioridade à verdade real diante d verdade formal. Na interpretação dos fatos revelados pela documentação trabalhista, o intérprete deve agir com o cuidado de verificar se o conteúdo do documento coincide com os fatos, tal como na verdade ocorreram, e estes, não aquele, prevalecem.

Pelo acima exposto, tem-se como evidente que as provas documentais também são utilizadas, porém, devem ser confrontadas com os fatos, a fim de se averiguar se a documentação é condizente com a realidade e, no caso de discrepância entre ambos, de acordo com o princípio da primazia da realidade, prevalecerão os fatos.

Todos esses princípios são aplicáveis ao direito laboral que também distingue atividade e trabalho, nos moldes a seguir.

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