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2.2 A FAMÍLIA À LUZ DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

2.2.1 Princípios Constitucionais do Direito de Família

A Constituição Federal trouxe em seus princípios, uma nova visão acerca do Direito de Família, deixando de lado a ideia de que tais normas apenas continham uma força subsidiária, para de fato ganharem eficácia. Além disso, com a mudança do Código Civil de 2002, também houve mudanças necessárias para que as condutas fossem adaptadas às incessantes mudanças sociais, principalmente sob o tocante dos valores culturais da família.

Os institutos do Direito de Família, precisaram amoldar-se aos princípios constitucionais que predominam sob a organização jurídica, já que o Direito Civil em si, deve se nortear pela legalidade constitucional, por terem um valor jurídico mais meritório. Desta forma, os princípios constitucionais são basilares na interpretação da norma jurídica no âmbito familiar, e além disso, são a base pelas quais se tece um sistema jurídico.

5 DIAS, 2007, p. 30-31.

Em posição hierárquica superior das regras legais, estão posicionados princípios, onde os valores éticos estão em conjunto do suporte axiológico, o que lhes averigua uma estrutura que esteja de acordo com todo o sistema jurídico, não levando em conta o grau de importância entre uma regra e um princípio.

2.2.1.1 Princípio da dignidade da pessoa humana

A Carta Magna inseriu o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana como sendo a base de todo o ordenamento jurídico, como ensina Maria Berenice Dias, “O princípio da dignidade humana é o mais universal de todos os princípios. É um macroprincípio do qual se irradiam todos os demais: liberdade, autonomia privada, cidadania, igualdade, uma coleção de princípios éticos”6. Este princípio é visto como o mais importante do nosso ordenamento jurídico, devendo assim servir de norte para todas as relações jurídicas firmadas.

Madaleno apresenta a ideia de que “A dignidade humana é princípio fundamental e, portanto, recebe integral proteção do Estado Democrático de Direito, prevalecendo sobre os demais princípios”7 ou seja, que exista a garantia de uma vida digna, além do direito a vida.

É ainda, a partir deste princípio que é possível o desenvolvimento dos integrantes de uma entidade familiar conforme o que Carlos Roberto Gonçalves apresenta:

O princípio do respeito à dignidade da pessoa humana constitui, assim, base da comunidade familiar, garantindo o pleno desenvolvimento e a realização de todos os seus membros, principalmente da criança e do adolescente (CF, art. 227)8.

Desta forma, tal princípio é de suma importância, já que permite um bom funcionamento do núcleo familiar, num sentido de que se respeitado permite que haja amadurecimento de seus membros.

A título exemplificativo, o caput do artigo 227 da Constituição Federal estabelece que:

Art. 227 É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança,

6 DIAS, 2011. p. 62.

7 MADALENO, Rolf, Curso de Direito de Família. Rio de Janeiro: Forense, 2009. p. 29

8 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 27

ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão9.

Entretanto, apesar de haver a previsão legal, é muito comum que os genitores, a título de negligência, firam este princípio ao descumprirem com seus deveres paternos, que vão além de garantir a subsistência de seus filhos.

2.2.1.2 Princípio da afetividade

A afetividade, é um princípio que decorre diretamente do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, e é também considerado de suma importância para a relação da família moderna.

Apesar do termo “afeto” não se encontrar evidentemente no texto constitucional, é dele que deriva qualquer possibilidade de relação entre os indivíduos que compõe uma esfera familiar e ainda, existem diversas passagens no próprio texto constitucional em que este princípio está presente, como é o caso do § 6º, o qual dispõe que “Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação”10.

Nos ensinamentos de Paulo Lobo:

O princípio da afetividade está estampado na Constituição Federal de 1988, mais precisamente em seus artigos 226 §4º, caput, §5º c/c §6º, os quais preveem, respectivamente, o reconhecimento da comunidade composta pelos pais e seus ascendentes, incluindo-se aí os filhos adotivos, como sendo uma entidade familiar constitucionalmente protegida, da mesma forma que a família matrimonializada; o direito à convivência familiar como prioridade absoluta da criança e do adolescente; o instituto jurídico da adoção, como escolha afetiva, vedando qualquer tipo de discriminação a essa espécie de filiação; e a igualdade absoluta de direitos entre os filhos, independentemente de sua origem11.

Atualmente, a família é compreendida como um espaço de promoção da

9 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 05 out. 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 05 out. 2021

10 Ibidem.

11 LÔBO, Paulo Luiz Netto. Código Civil Comentado: Direito de Família. Relações de Parentesco.

Direito Patrimonial. São Paulo: Atlas S.A., 2003. p. 43.

personalidade e desenvolvimento de seus membros, fundada no afeto e na solidariedade, ou seja, a entidade familiar atual deve ser entendida como grupo social fundado essencialmente em laços de afetividade12.

O afeto, deve ser um elemento incontestável nas relações familiares entre pais e filhos, tanto na sua intensidade quanto em cada particularidade que se apresentar nos casos concretos. É elemento essencial até para as relações interpessoais que tem como base o sentimento e o amor, para dar sentido e dignidade à existência de um ser humano. Nesse sentido, Teixeira:

O princípio da afetividade funciona como um vetor que reestrutura a tutela jurídica do Direito de Família, que passa a se ocupar mais da qualidade dos laços travados nos núcleos familiares do que com a forma através da qual as entidades familiares se apresentam em sociedade, superando o formalismo das codificações liberais e o patrimonialismo que delas herdamos13.

Princípio este, que também justifica a não existência de uma distinção num sentido discriminatório entre filhos de um casal, pois na visão do princípio da afetividade, a entidade familiar precisa ser vista como uma comunidade afetiva, solidária.

Tem-se atualmente, o entendimento que o reconhecimento da filiação não se resume apenas nos laços consanguíneos, mas sim na relação de afeto que é construída, e cabe aos genitores, sendo eles biológicos ou socioafetivos, promover um convívio digno no que diz respeito ao afeto.

Quanto ao laços socioafetivos, eles se fundam quando alguém, que não seja o genitor biológico, traz para si as condutas necessárias para criar e educar menores, com o propósito de construir sua personalidade, e que independente de qualquer relação consanguínea, abraçam a obrigação legal de promover afeto aos menores.

2.2.1.3 Princípio da solidariedade

Este princípio, possui ligação com o Princípio da Afetividade, no sentido de que para que exista amparo àqueles que necessitem, é necessário que haja entre eles

12 ROSENVALD, Nelson; FARIAS, Cristiano Chaves. Direito das Famílias. 2 ed. Rio de Janeiro: Lumen Iures, 2010. p. 53

13 TEIXEIRA, Ana Carolina Brochado; RODRIGUES, Renata de Lima. Multiparentalidade como efeito da socioafetivdade nas famílias recompostas. In: Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões. 10 ed. jun./ jul., Porto Alegre: Magister, 2009.

ligação mútua, trazendo desta forma cooperação mútua entre os integrantes de uma entidade familiar, seja para sustento de caráter alimentar e até mesmo assistência como amparo, cuidado.

Amparado pela Constituição Federal, o princípio da solidariedade se baseia na relação de respeito e valores éticos entre as famílias, portanto como leciona Valéria Silvia Galdino Cardin:

Em qualquer entidade familiar deve prevalecer o princípio da dignidade da pessoa humana e o dever de solidariedade tanto nas relações matrimoniais, quanto nas relações paterno filiais. A partir do momento em que não forem respeitados estes princípios e outros como os do melhor interesse da criança, da afetividade, surge a necessidade de responsabilizar os entes familiares que praticarem condutas incompatíveis com os princípios da solidariedade, dentre outros14.

Neste viés, o artigo 229 do texto constitucional dispõe que “Os pais têm o dever de assistir, criar, e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”, ilustrando assim o princípio da solidariedade.

2.2.1.4 Princípio da proteção integral da criança e do adolescente

O princípio assegura a proteção das crianças e dos adolescentes, amparados pela Constituição Federal, em seu artigo 227, e ainda pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90) em seus artigos 3º, 4º e 5º, dispostos da seguinte maneira:

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

Art. 4º. É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:

a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;

b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;

14 CARDIN, Valéria Silva; VIEIRA, Tereza Rodrigues; BRUNINI, Bárbara Cissettin Costa. Famílias, Psicologia e Direito. Brasília: Miraluz, 2017. p. 12.

d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais15.

A partir deste princípio, a criança e o adolescente passaram a ser sujeitos de direitos, tornando-os dignos de receber um tratamento especial por parte de seus genitores e sua família. O ordenamento jurídico reconheceu a importância da proteção das crianças e dos adolescentes, pois são mais vulneráveis e precisam de mais atenção em seus cuidados.

Portanto, este princípio serve como base para a conduta dos genitores para com sua prole, visto que os mesmos são a base da sociedade, e devem estar aparados e protegidos.

Sobre este princípio, Dias leciona que:

A maior atenção as pessoas até os 18 anos de idade ensejou uma sensível mudança de paradigma, tornando-se o grande marco para o reconhecimento dos direitos humanos de crianças e adolescentes. Visando a dar efetividade ao comando constitucional, o ECA é todo voltado ao melhor interesse de crianças e jovens, reconhecendo-os como sujeitos de direito e atentando mais às suas necessidades pessoais, sociais e familiares, de forma a assegurar seu pleno desenvolvimento16.

Assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tornou-se um grande marco para a proteção das crianças e adolescentes jutamente com todas as mudanças no mesmo sentido que foram trazidas pela Carta Magna no ano de 1988, assegurando assim seus direitos e deveres no âmbito familiar principalmente.

15 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 05 out. 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 05 out. 2021

16 DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. 5 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009. p. 546- 547.

3 CONSIDERAÇÕES SOBRE A RESPONSABILIDADE CIVIL NO ÂMBITO