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Princípios constitucionais no Processo Penal

3 DOS DIREITOS DO PRESO EM FLAGRANTE

3.1 DOS DIREITOS FUNDAMENTAISNO ESTADO DE DIREITO

3.1.1 Princípios Constitucionais

3.1.1.2 Princípios constitucionais no Processo Penal

No universo dos princípios constitucionais, convém estudar aqueles que são alicerces do processo penal. Na formação das normas do processo penal foram utilizados inúmeros direitos, garantias e princípios constitucionais. Assim, irá se abordar aqueles que mais se relacionam ao presente estudo.

Essa exposição é fundamental, pois se percebe a atuação dos princípios constitucionais em toda a persecução processual seja na fase inquisitorial, ou judicial a fim de que se concretize na melhor medida a utilização dos direitos e garantias necessários ao processo.

3.1.1.2.1 Devido Processo Legal

O princípio do devido processo legal estabelece que ninguém pode ser privado de liberdade ou de seus bens se não no transcurso do processo legal. Está

contido na Constituição Federal no art. 5°, inciso LIV, que "ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal".

O Direito Processual Penal reúne as garantias fundamentais para que o Estado reprima, de forma justa, os delitos ocorridos. Assim, o devido processo legal chama para si todos os elementos estruturais do processo penal democrático (CANCI JUNIOR, 2017, p.54).

3.1.1.2.2 Presunção da Inocência

O princípio da presunção da inocência está disposto no art. 5º, LVII, da Constituição Federal: ―ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória‖.

No âmbito internacional o principio da presunção da inocência se fundiu ao direito pátrio por meio do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, promulgado no Brasil pelo Decreto nº 592, de 6 de julho de 1992, dispõe, em seu Art. 14, item 2, que ―toda pessoa acusada de um delito terá direito a que se presuma sua inocência enquanto não for legalmente comprovada sua culpa”. Ou seja, é um componente dosdireitos humanos, no âmbito jurídico internacional, e direito fundamental, no plano constitucional.

Nesta toada fica evidente que o Estado deve apurar os fatos criminais do individuo e caso haja dúvida no caso concreto deve absolver o réu. A inocência é a regra, a culpa é a exceção. Eis porque é ônus do Estado a busca pelo estado excepcional (CANCI JUNIOR, 2017, p.55).

Para o caso da prisão em flagrante e a aplicação do principio em estudo é importante a interpretação dada por Garcia (2018, int.), norteando o agente da lei da seguinte forma:

Reconhece-se que a literalidade do mencionado preceito constitucional não prevê que ninguém será ―preso‖ até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, mas sim que ninguém será ―considerado culpado‖ até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

Esta importante observação não impede que o agente efetue a prisão em flagrante que é prevista em lei como medida cautelar. Todavia, conduzir pessoa à

prisão, sem o transito em julgado ou medida cautelar, contraria totalmente a garantia fundamental em estudo.

3.1.1.2.3 Ampla Defesa e do Contraditório

Defender-se legalmente é o direito que o indivíduo possui perante qualquer tipo de acusação no processo judicial. O princípio do contraditório e da ampla defesa estão expostos no inciso LV do art. 5º da Constituição, que define ―aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o

contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes‖ (grifo nosso).

A defesa constitui um direito natural da pessoa humana, que lhe confere dignidade estando assim presente na Constituição. Assim, passando ao plano processual, a defesa compõe a garantia do acusado e do processo. Logo o princípio da ampla defesa corresponde ao direito de o envolvido se valer de todos os meios a seu dispor para alcançar seu direito, seja através de provas ou de recursos.

Já o contraditório exprime o direito de resposta do acusado a tudo que lhe é apontado, utilizando-se para tal, todos os meios de defesa admitidos em direito, é a oposição a fatos. O autor imputa ao réu a prática de um crime, cabendo a este, no exercício do contraditório, negá-lo na integridade ou parcialmente, bem como oferecer versão diferenciada dos fatos (CANCI JUNIOR, 2017, p.61).

É, em suma, a opinião contrária daquela manifestada pela parte oposta.

Canci Junior (2017, p. 58), correlaciona defesa e contraditório da seguinte maneira:

Defesa e contraditório estão intimamente relacionados e ambos são manifestações da garantia do devido processo legal. É necessário equilíbrio de forças entre acusação e defesa, no processo, especialmente no penal. Tanto é assim que o juiz, verificando que o réu não teve condições de se opor ao órgão acusador, pode declarar o acusado indefeso, proporcionando-lhe condições para ser melhor defendido.

Os princípios do contraditório e ampla defesa estão interligados, até se misturam. São aplicados a todas as fases e atos do processo e sua negligencia pode gerar a decretação da nulidade do ato processual realizado em desconformidade com o modelo legal, que somente pode ser feita por declaração judicial (CAMPOS, 2013, int.).

Importante frisar que, no caso da prisão em flagrante o preso não tem direito ao contraditório e à ampla defesa. Por conta de o APF ser um procedimento inquisitório e não acusatório resta à autoridade policial, no momento da lavratura, dar o direito ao preso ter defensor, entretanto se o preso se recusar, o APF pode ser lavrado sem defensor.

3.1.1.2.4 Vedação das Provas Ilícitas

A prova é o meio de demonstrar concretamente um fato. Na seara das garantias do processo legal tem-se o direito à prova. É fundamental tanto para o autor quanto para o réu ter a oportunidade de comprovar e dar força às suas alegações. Entretanto, não é toda prova que pode ser utilizada ou produzida no processo.

Há que se saber que no processo deve existir o princípio da liberdade das provas, todavia não é absoluto como leciona Gomes (2009, int.):

Princípio da liberdade de provas: do princípio da verdade processual (ou real, como se dizia antigamente) deriva o princípio da liberdade de provas, que não é (de forma alguma) absoluto. As partes contam com liberdade para a obtenção, apresentação e produção da prova (dentro do processo), mas essa liberdade tem limites. Nem tudo que possa ser útil para a descoberta da verdade está amparado pelo direito vigente. O direito à prova não pode (nem deve) ser exercido a qualquer preço. O que vale então no processo penal, por conseguinte, é a verdade processual, que significa a verdade que pode ser (jurídica e validamente) comprovada e a que fica (efetivamente) demonstrada nos autos.

O princípio da vedação da prova ilícita aparece na Constituição Pátria no art. 5º, LVI, em que ―são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos‖. Trata-se de um princípio de vedação das provas maculadas pelo vício de origem, vez que são extraídas por mecanismos inidôneos e até criminosos (CANCI JUNIOR, 2017, p.62).

A fim de se obter uma melhor compreensão acerca de tal princípio é importante que se diferencie a prova obtida por meio ilícito e da prova ilegítima, ambas inadmissíveis.

Gomes (2009, int.) esclarece que, a prova ilícita como sendo:

Provas ilícitas, por força da nova redação dada ao art. 157 do CPP, são as obtidas em violação a normas constitucionais ou legais. Em outras palavras: prova ilícita é a que viola regra de direito material, seja constitucional ou legal, no momento da

sua obtenção (confissão mediante tortura, v.g.). Impõe-se observar que a noção de prova ilícita está diretamente vinculada com o momento da obtenção da prova (não com o momento da sua produção, dentro do processo).

De modo claro, o doutrinador nos trás o conceito de prova ilegítima:

Prova ilegítima é a que viola regra de direito processual no momento de sua produção em juízo (ou seja: no momento em que é produzida no processo). Exemplo: oitiva de pessoas que não podem depor, como é o caso do advogado que não pode nada informar sobre o que soube no exercício da sua profissão (art. 207, do CPP). Outro exemplo: interrogatório sem a presença de advogado; colheita de um depoimento sem advogado etc. A prova ilegíma, como se vê, é sempre intraprocessual (ou endoprocessual) (GOMES, 2009, int.).

Ainda, sobre a diferença entre a prova ilícita e prova ilegítima, Gomes (2009, int.) conclui que:

A prova ilícita viola regra de direito material; a prova ilegítima ofende regra de direito processual. [...] Outro fator muito importante diz respeito ao momento da ilegalidade : a prova ilícita está atrelada ao momento da obtenção (antecede a fase processual); a prova ilegítima acontece no momento da produção da prova (dentro do processo). Ou seja: a prova ilícita é extra-processual; a prova ilegítima é intra-processual. Outra diferença importante: a prova ilícita é inadmissível (não pode ser juntada aos autos; se juntada deve ser desentranhada; não pode ser renovada); a prova ilegítima é nula (assim é declarada pelo juiz e deve ser refeita, renovada, consoante o disposto no art. 573 do CPP).

Conclui-se, portanto, que o princípio da vedação da prova ilícita considera admissível a prova se nenhuma lei a excluir. A prova ilícita deve ser desentranhada dos autos. A verdade dos fatos não pode ser obtida a qualquer custo. Nem o Estado nem o particular podem buscar provas violando regras do direito constitucional ou legal. Isso feriria diretamente o processo democrático e justo dentro do direito.

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