REVISÃO DA LITERATURA
2.2 ASPECTOS RELEVANTES DA CONTABILIDADE AMBIENTAL
2.2.1 Princípios Contábeis e a Contabilidade Ambiental
Toda ciência sem os seus princípios perde as suas características. Assim também ocorre com a contabilidade e suas especializações. Qualquer ramo da contabilidade deverá ter por base os princípios contábeis, inclusive a contabilidade ambiental.
Para Ferigolo e Possati (2010, p. 3) deve ser assegurado que:
[...] os custos, os ativos e passivos ambientais estejam contabilizados de acordo com os princípios fundamentais da contabilidade ou, na sua ausência, com as práticas contábeis geralmente aceitas e que o desempenho ambiental tenha ampla transparência de que os usuários da informação contábil necessitam.
A seguir, serão relacionados os princípios contábeis com a contabilidade ambiental, na visão de Ferreira (2006) e de acordo com a Resolução CFC nº 750/93, que dispõe sobre os Princípios Fundamentais de Contabilidade.
- Princípio da Entidade - reconhece o Patrimônio como objeto da Contabilidade e afirma a autonomia patrimonial, a necessidade da diferenciação de um Patrimônio particular no universo dos patrimônios existentes, independentemente de pertencer a uma pessoa, um conjunto de pessoas, uma sociedade ou instituição de qualquer natureza ou finalidade, com ou sem fins lucrativos. Nessa acepção, o patrimônio não se confunde com aqueles dos seus sócios ou proprietários, no caso de sociedade ou instituição. De acordo com esse princípio, impactos ambientais causados por determinada entidade, que tragam efeitos econômicos, não podem ser reconhecidos por outra entidade. Tal princípio também é aderente ao Princípio do Poluidor Pagador, ou seja, quem polui deve pagar pela poluição que causa;
- Princípio da Continuidade - a continuidade ou não da entidade, bem como sua vida definida ou provável, deve ser considerada quando da classificação e avaliação das mutações patrimoniais, quantitativas e qualitativas. Esse princípio influencia o valor econômico dos ativos e, em muitos casos, o valor de vencimento dos passivos, especialmente quando a extinção da entidade tem prazo determinado, previsto ou previsível. Do ponto de vista da Contabilidade Ambiental, este princípio deveria, obrigatoriamente, estar ligado ao uso limitado dos fatores de produção nos casos em que houvesse a possibilidade de seu esgotamento;
- Princípio da Oportunidade - refere-se, simultaneamente, à tempestividade e à integridade do registro do patrimônio e das sua mutações, determinando que este seja feito de imediato e com a extensão correta, independentemente das causas que as originaram. Com base nesse princípio, as informações ambientais devem ser registradas e disponibilizadas no tempo oportuno para permitir ação ambiental de preservação do meio ambiente, refletindo a integridade do patrimônio da entidade e suas mutações relativas aos impactos ambientais;
- Princípio do Registro pelo Valor Original - os componentes do patrimônio devem ser registrados pelos valores originais das transações com o mundo exterior, expressos a valor presente na moeda do país, que serão mantidos na avaliação das variações patrimoniais posteriores, inclusive quando configurarem agregações ou decomposições no interior da Entidade. Na contabilidade ambiental os impactos ambientais devem ser registrados pelos valores originais das transações, expressos a valor presente na moeda do país, conforme preconiza este princípio. Os princípios da atualização monetária e do registro pelo valor original são compatíveis entre si e complementares, dado que o primeiro apenas atualiza e mantém atualizado o valor de entrada;
- Princípio da Atualização Monetária - os efeitos da alteração do poder aquisitivo da moeda nacional devem ser reconhecidos nos registros contábeis através do ajustamento da expressão formal dos valores dos componentes patrimoniais. O reconhecimento da alteração do poder aquisitivo da moeda nacional é fundamental quando se trata de registro de eventos econômicos que afetem o meio ambiente; isso porque as questões ambientais são, na maioria das vezes, questões que envolvem vários exercícios;
- Princípio da Competência - as receitas e as despesas devem ser incluídas na apuração do resultado do período em que ocorrerem, independente de recebimento ou pagamento. Os fatos geradores relacionados ao meio ambiente que resultarem em receitas ou despesas também devem ser incluídos na apuração dos resultados no período em que ocorrerem;
- Princípio da Prudência - determina a adoção do menor valor para os componentes do Ativo e do maior para os do Passivo, sempre que existir dúvida sobre o valor. Este princípio deve ser considerado como a condição para o reconhecimento dos riscos relativos ao meio ambiente que colocam em risco o patrimônio da entidade.
É importante ressaltar que o princípio de precaução, que tem como objetivo evitar que o dano ambiental ocorra, deve ser também considerado na contabiliade ambiental, pois ele possibilita que o passivo ambiental apareça na contabilidade a partir do financiamento de ativo ambiental e não por que a entidade causou danos ao meio ambiente. O surgimento desse princípio se deu em 1987 na Declaração Ministerial da Segunda Conferência Internaconal sobre a Proteção do Mar do Norte e passou a fazer parte do direito francês através da “lei Barnier” de 2 de fevereiro de 1995. (LÉVÊQUE, 1999).
Para Lévêque (1999, p. 211) “...as autoridades responsáveis pela gestão ambiental devem adotar medidas preventivas quando há risco de danos graves e irrervesíveis para os seres humanos e, por extensão, para os recursos e para o meio ambiente, mesmo na ausência de certezas”.
É necessário que a contabilidade ambiental gere informações, que dê suporte aos gestores tomadas de decisões, que leve em consideração este princípio, para que os recursos sejam preservados para futuras gerações e também promovam a continuidade da existência da entidade.