CAPÍTULO 3 EDUCAÇÃO SUPERIOR EMERGENTE: NOVAS EXIGÊNCIAS SOBRE A
4.5 Princípios da Avaliação Educacional de IES
Os princípios da Avaliação de Instituição, na perspectiva que optamos, assumem um papel de orientadores para a construção de práticas avaliativas. É fundamental um conjunto de pressupostos, de referências e de princípios para que as IES tomem como base na construção de sua dinâmica avaliativa.
Para nosso trabalho definimos princípios estruturante e procedimentais. Enquanto o primeiro diz respeito à natureza da avaliação, a sua constituição epistemológica e política; os segundos referem-se à materialização dos processos avaliativos.
4.5.1 Princípios Estruturantes
O princípio fundante da Avaliação Educacional de qualquer natureza ou modalidade é a busca da qualidade social dos processos avaliativos. Sua intencionalidade é o aperfeiçoamento qualitativo das identidades pessoais e coletivas e das culturas institucionais das IES. Por conseguinte, de suas produções em vista das demandas sociais da comunidade acadêmica e da sociedade como um todo.
Nessa ótica, a avaliação também é meio que contribui para a elaboração participativa e fundamentada do projeto político-pedagógico das IES no caminho de resistência aos imperativos das forças neoliberais. Torna-se um dispositivo importante para a consolidação da natureza pública das IES sejam privadas ou estatais quando assume o papel “de ser um instrumento para o aprimoramento da gestão acadêmica e administrativa, tanto das instituições quanto dos sistemas educacionais, com vista à melhoria da qualidade e da sua relevância social” (BELLONI, 2000, p. 40).
O segundo princípio é a avaliação de instituição como orientação para a construção e a consolidação da comunidade acadêmica nas IES ao subsidiar, em seus seios, debates a partir das informações coletadas e tratadas.
Ser impulsionadora da comunidade encarnada das IES é um imperativo de qualquer processo avaliativo de instituição, fundado numa perspectiva crítica. Nesta dinâmica, a avaliação favorece a consolidação de redes de informações, de valores, de crenças, de hábitos, de atitudes e de produções de sentido para afirmar os sujeitos na sua individualidade e na sua intersubjetividade institucional. Nesse prisma, as práticas avaliativas vão se tornando um dos mais importantes dispositivos de consolidação e de reconstrução da cultura acadêmica a partir da desconstrução e da reelaboração das culturas pessoais e coletivas.
Por isso que a avaliação de instituição tem como outro princípio ser “patrimônio cultural e prática inalienável da comunidade acadêmica e das instituições públicas da área a quem cabe definir essencialmente os princípios, métodos, objetivos e critérios” (DIAS SOBRINHO, 2000c, p. 78). Assim, contribui para a garantia da titularidade das IES na elaboração e na implementação dos processos avaliativos, principalmente sendo estas instituições produtoras de conhecimento e de valores, cabe a elas também a pesquisa e a produção de saberes sobre as concepções e as práticas avaliativas de instituição, tornando-se sujeito e objeto de sua ação investigativa e avaliativa.
As práticas avaliativas respeitam critérios como qualidade científica, relevância social, eqüidade e pertinência (DIAS SOBRINHO, 1999). Intencionar a titularidade das IES nos processos de avaliação de instituição exige uma postura que dialogue com esses critérios para que se garanta a validade acadêmica e social tanto das dinâmicas avaliativas como das funções que as IES assumem.
4.5.2 Princípios Procedimentais
Baseando-nos em estudos de Ristoff (1999, 2000) sobre a Avaliação Educacional de IES, em particular, acerca do Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (Paiub), destacamos os seguintes princípios: globalidade; comparabilidade; respeito à identidade institucional; não premiação ou punição; legitimidade e continuidade.
O princípio da globalidade parte da premissa que “é necessário avaliarmos a instituição não só a partir de uma de suas atividades” (RISTOFF, 1999, p. 52). Segundo Cronbach (1982), avalia-se para compreender o objeto avaliado na intenção de tomar decisões mais pertinentes para se alcançar à qualidade esperada. Nessa perspectiva, justifica-se a necessidade de uma avaliação processual, diversificada e multidimensional que se insira na globalidade das IES.
Ristoff (1999) afirma que a globalidade enquanto princípio consolida o caráter institucional da avaliação, mas o mesmo autor chama a atenção para duas questões. Primeiro, que é preciso começar a avaliação por alguns aspectos da instituição, não contemplando uma globalização virtual sem dar início ao processo avaliativo. O importante é ter um projeto avaliativo socialmente discutido que vise e priorize processualmente a globalidade. Segundo é que não se pode negar a existência de avaliações de alguns setores das IES, o desafio é incorporá-las a um projeto institucional avaliativo mais amplo.
Este princípio nos impede de absolutizar resultados de avaliações pontuais, fragmentadas e isoladas que se processam no seio das IES. Tais avaliações tendem a obscurecer em vez de esclarecer os sentidos que permeiam as práticas acadêmicas. Elas estão na maioria das vezes em função do atendimento dos interesses externos e alienígenas da Educação Superior.
O princípio da comparabilidade tem um caráter qualitativo-interpretativo ao frisar a necessidade de se desenvolver um “linguajar comum dentro da universidade [e outras IES] e entre as universidades” (RISTOFF, 1999, p. 53). Este princípio visa a garantia de uma aproximação do entendimento dos conceitos básicos constitutivos das IES (pesquisa, extensão, ensino, aprendizagem, produção acadêmica, evasão, entre outros) e dos estruturantes e dos procedimentos da avaliação nas IES e entre elas.
O objetivo não é a homogeneização dos processos avaliativos e nem o ranqueamento das IES, a comparabilidade qualitativa interpretativa visa o sentido tanto dos processos como dos resultados avaliativos. Sentido este que possa ser uma referência de comparação para se compreender as dinâmicas acadêmicas e tecer ações globais e locais de melhoria da qualidade institucional.
Por isso, um dos princípios é a não punição ou premiação. Haja vista que a Avaliação Educacional de IES tem entre suas dimensões, a pedagógica. Por isso os resultados da avaliação não são utilizados para procedimentos excludentes que, em vez de incluir os sujeitos pessoais e institucionais, marginalizam-no.
Esse princípio leva para além da lógica do autoritarismo pedagógico e político, aproximando-nos de um processo avaliativo que conduza à auto-crítica, ao debate interno nas comunidades acadêmicas, possibilitando uma maior adesão pessoal e institucional das IES às políticas de avaliação sistêmicas. E quanto maior for o grau de adesão maior a legitimidade dos processos avaliativos e melhor será a utilização dos seus resultados. Esse fato terá mais chance de ocorrer, por um lado, se a avaliação de instituição não estiver atrelada às dinâmicas de culpabilidade, aos sentimentos depreciativos, a lógica do castigo, à execração pública como ocorreu com a lista dos improdutivos do Goldemberg; por outro, se os processos avaliativos estiverem filiados à lógica da responsabilização e do compromisso, do comprometimento da comunidade acadêmica com a busca e a efetivação da qualidade social das funções que a Educação Superior assume enquanto espaço público, seja privado ou estatal.
O princípio da adesão voluntária parte do entendimento que as IES precisam compreender a avaliação como uma necessidade institucional para o aperfeiçoamento de seus
papéis e de sua cultura institucional. Por isso, as políticas de avaliação têm um caráter maior de convencimento do que de imposição.
De acordo com Ristoff, o princípio da legitimidade tem duas dimensões: política e técnica. Política devido ao processo de adesão voluntária às dinâmicas de convencimento, tendo como referência a não punição ou a premiação. Enquanto a técnica se expressa
(1) numa metodologia capaz de garantir a construção de indicadores adequados, acompanhados de uma abordagem analítico-interpretativa capaz de dar significado às informações; e (2) na construção de informações fidedignas, em espaço de tempo capaz de ser absorvido pela comunidade universitária (1999, p. 61).
O mesmo autor coloca a necessidade de discutirmos a questão técnica considerando os riscos do quantitativismo, do utilitarismo e do imediatismo. A questão técnica é importante, mas está em função da ética. Os índices que podem ser produzidos nos processos avaliativos têm um significado qualitativo, interpretados a luz do projeto político-pedagógico institucional e das demandas sociais emergentes no dado momento e espaço histórico.
Na perspectiva da superação do que está posto, as IES não restringem sua avaliação ao imediatismo e ao utilitarismo, à lógica dos resultados, às pressões redutoras do mercado se referendando em um prisma meramente empresarial. A técnica é eficiente sim, mas para alimentar a reflexão sobre as questões fundamentais para aprimorar os processos construtores da cultura institucional e dos serviços prestados à comunidade.
O princípio da continuidade visa consolidar a avaliação como uma prática institucionalizada das IES, superando as ações avaliativas eventuais e fragmentadas. A avaliação ao ser processual permite que haja comparação da evolução ou não das informações de um determinado tempo-espaço com outros e quais os sentidos das possíveis mudanças Em outras palavras, a continuidade é um elemento importante para a construção de uma cultura avaliativa e para a compreensão e a conservação-transformação das culturas institucionais e pessoais das IES.