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Os princípios da autonomia da vontade e da igualdade estão presentes no primeiro artigo do Estatuto da Pessoa com Deficiência, que diz:

Art. 1º É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania (BRASIL, [2019a]).

O fim de igualdade às demais pessoas está de maneira expressa. Quanto à autonomia da vontade, esta se dá em razão da possibilidade de exercício dos direitos e liberdades fundamentais por pessoas com deficiência.

Com isso, se mostra necessário um estudo acerca destes dois princípios, para que o tema seja melhor elucidado e seja possível a constatação acerca do alcance dos objetivos da Lei.

4.1.1 Princípio da igualdade

A Constituição Federal prevê o direito à igualdade no caput do seu artigo 5º, que trata dos direitos individuais e coletivos, considerados fundamentais, dispondo que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...]” (BRASIL, [2018c]).

Logo no inciso I, do mesmo dispositivo, a Constituição Federal afirma que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição” (BRASIL, [2018c]).

Denota-se, que tais previsões tratam a respeito da igualdade formal, que diz que todos devem ser tratados de maneira igualitária, a fim de impossibilitar a diferenciação de tratamento de forma arbitrária (VERUCCI apud MORAES, 2017, p.207).

A igualdade formal limita que o Estado atribua tratamento diferenciado a determinado grupo, a fim de conceder algum tipo de privilégio em detrimento dos demais.

Por sua vez, a igualdade material busca promover um tratamento igualitário real dos indivíduos ou, ao menos, a redução das desigualdades (BARCELLOS, 2018, p. 147), isto acontece quando há um tratamento diferenciado entre pessoas que estejam em situações diferentes, com o objetivo de igualar as condições entre elas.

Igualdade material ou “dar tratamento isonômico às partes significa tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata medida de suas desigualdades (NERY JUNIOR apud ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS ANALISTAS JUDICIÁRIOS DA UNIÃO, 2011)”.

Mello estabelece critérios para identificação do desrespeito ao princípio da igualdade: o primeiro diz respeito ao elemento que foi tomado como fator gerador de desigualdade; o segundo sobre a correlação lógica entre o fator que gerou a discriminação e as medidas tomadas; e o terceiro trata da correlação das medidas aos interesses absorvidos pela Constituição Federal (p. 16).

Com relação ao primeiro critério, o fator gerador não pode surgir a partir de um traço tão específico que singularize o indivíduo a ser beneficiado com o tratamento diferenciado e que os elementos devem existir na pessoa discriminada (MELLO, p. 18)

Sobre o segundo critério, deve ser investigado o que é exigido como elemento discriminatório e, de outro lado, se há justificativa para atribuir tratamento diferenciado em razão da desigualdade afirmada (MELLO, p. 32).

Por fim, o terceiro critério, que prevê que não é qualquer fundamento lógico que autoriza o tratamento desigual, mas apenas aqueles que se orientam na linha de interesses prestigiados na Constituição Federal (MELLO, p. 37).

Por mais que possam existir elementos que as tornem diferentes, a Lei nº 13.146/2015 prevê expressamente que as pessoas com deficiência devem ser tratadas da mesma forma que as demais:

Art. 4º Toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação.

§ 1º Considera-se discriminação em razão da deficiência toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas.

§ 2º A pessoa com deficiência não está obrigada à fruição de benefícios decorrentes de ação afirmativa (BRASIL, [2019a]).

Destaca-se do dispositivo que fere o princípio da igualdade qualquer discriminação, seja por ação ou omissão, incluindo-se a recusa de adaptações consideradas razoáveis e de fornecimento de tecnologias de assistência, a fim de que as pessoas com deficiência possam ficar no mesmo patamar que as demais, o que autoriza o tratamento diferenciado, com base nos critérios anteriormente citados.

Com isso, verifica-se que esta garantia constitucional foi considerada pelo legislador ao não vincular qualquer espécie de deficiência à incapacidade da pessoa em praticar negócios jurídicos, prezando pela igualdade da pessoa com deficiência e a autonomia de sua vontade, objeto de estudo do tópico seguinte.

4.1.2 Princípio da autonomia da vontade

Estabelece o inciso II, do artigo 5º, da Constituição Federal que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (BRASIL, [2018a]), o que caracteriza o princípio da legalidade e, por consequência, acaba garantindo, de certa forma, o direito à liberdade. O princípio da autonomia da vontade também decorre deste mesmo dispositivo, tendo em vista que a atuação somente deverá ceder aos limites impostos pela lei (incluindo-se aquilo que a Constituição considera equiparável à lei) (BARCELLOS, 2018, p. 144), não havendo disposição em contrário, a parte possui liberdade de manifestar sua vontade.

Extrai-se da apelação cível n. 0306848-87.2016.8.24.0045, julgada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina, que o princípio da autonomia da vontade consiste “na liberdade das partes de estipular livremente a disciplina de seus interesses” (SANTA CATARINA, 2018b) o que, com base no disposto no parágrafo anterior, deve respeitar os limites estabelecidos em lei.

A autonomia da vontade também é respeitada e considerada pela Lei 13.146/2015, visto que busca proteger a pessoa com deficiência de eventuais limitações arbitrárias.

A referida Lei é clara quanto à abrangência das limitações da pessoa com deficiência:

Art. 6º A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para: I - casar-se e constituir união estável;

II - exercer direitos sexuais e reprodutivos;

III - exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar;

IV - conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória; V - exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária; e

VI - exercer o direito à guarda, à tutela, à curatela e à adoção, como adotante ou adotando, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas (BRASIL, [2019a]).

E mais:

Art. 85. A curatela afetará tão somente os atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e negocial.

§ 1º A definição da curatela não alcança o direito ao próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, à educação, à saúde, ao trabalho e ao voto.

§ 2º A curatela constitui medida extraordinária, devendo constar da sentença as razões e motivações de sua definição, preservados os interesses do curatelado. § 3º No caso de pessoa em situação de institucionalização, ao nomear curador, o juiz deve dar preferência a pessoa que tenha vínculo de natureza familiar, afetiva ou comunitária com o curatelado (BRASIL, [2019a]).

Portanto, a vontade da pessoa com deficiência deve prevalecer quando se tratar do exercício de direitos relativos à forma de gerir a própria vida, através da vontade de constituir família, ter filhos e, inclusive, adotar.

Assim, observa-se que o princípio da autonomia da vontade também é de suma relevância para a Lei nº 13.146/2015, considerando que as limitações que possam decorrer da deficiência só abrangem os direitos patrimoniais e, consequentemente a prática de negócios jurídicos, por exemplo.

4.2 OS EFEITOS DA ALTERAÇÃO DA INCAPACIDADE CIVIL E A EFETIVA

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