2. A CONSTITUIÇÃO
3.3. INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL
3.3.1. Princípios da interpretação constitucional
A interpretação tem princípios próprios, segundo Celso Ribeiro Bastos94, que não se aplicam às outras áreas do direito, dada a singularidade das normas constitucionais, porque se distinguem: a) pelo caráter de inicialidade (que as outras normas não têm), em grau de superioridade hierárquica, portanto; sobre ela não há nenhuma norma superior. Ressalva se faz ao jusnaturalismo que indica o direito supra-positivo, que são valores e não normas – daí não se chamar mais de Direito Natural, porque não é cogente, mas um plexo de valores que devem ser considerados na interpretação e nas decisões; e para o juspositivismo, a norma hipotética fundamental.A Constituição é quem positiva os valores sociais e aqueles ainda não positivados são considerados no âmbito da norma; b) conteúdo marcantemente político, no sentido de administração e exercício do poder, não de classe política, no sentido grego, visto ser a Constituição instrumento do exercício político, para gerir e regular o poder de uma sociedade; c) a linguagem da Constituição caracteriza-se pela síntese e coloquialidade – a Constituição procura – às vezes não consegue – se utilizar da linguagem coloquial, para ser inteligível à sociedade; d) predominância das normas de estrutura em que, tendo por destinatário habitual o próprio legislador; normas de caráter organizatório de estruturas, que atribuem competências (por exemplo, diz o que é família, o que compreende cidadania).
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Constituição Federal
Artigo 103 - Podem propor a ação direta de inconstitucionalidade e a ação declaratória de constitucionalidade: I - o Presidente da República;
II - a Mesa do Senado Federal; III - a Mesa da Câmara dos Deputados;
IV - a Mesa de Assembléia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal V - o Governador de Estado ou do Distrito Federal;
VI - o Procurador-Geral da República;
VII - o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; VIII - partido político com representação no Congresso Nacional; IX - confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.
§ 1º - O Procurador-Geral da República deverá ser previamente ouvido nas ações de inconstitucionalidade e em todos os processos de competência do Supremo Tribunal Federal.
§ 2º - Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e, em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta dias.
§ 3º - Quando o Supremo Tribunal Federal apreciar a inconstitucionalidade, em tese, de norma legal ou ato normativo, citará, previamente, o Advogado-Geral da União, que defenderá o ato ou texto impugnado.
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BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de direito constitucional. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 103- 106.
Celso Ribeiro Bastos95, em complementação ao anteriormente exposto, indica quatro princípios de interpretação, de utilização obrigatória para a interpretação constitucional: I - Princípio da unidade da Constituição – é necessário que o intérprete procure as recíprocas interpretações de preceitos e princípios até chegar a um conceito unitário, evitando contradições, antagonismos e antinomias. Por exemplo: Artigo 5°, XXIII, Constituição Federal de 1988 – é garantida a propriedade e, em seguida, a propriedade deve cumprir sua função social – são, em tese, posições antagonistas, porém significa que devem ser interpretadas conjuntamente, pois devem ser entendidas harmonicamente. A simples letra da lei é superada por se tratar de cedência recíproca, mútua cedência. Tira-se um pouco da força de uma e de outra, para promover a harmonia do sistema. Não podem ser, portanto, interpretados de maneira absoluta. Prevalecerão apenas até o ponto em que deverão ceder a um outro dispositivo em princípio antagônico.
II - Princípio da efetividade das normas constitucionais – Não se admite na Constituição a não existência de normas não jurídicas na Constituição. Todas as normas devem produzir algum efeito. Por exemplo, as normas programáticas96. Nesse sentido, as normas programáticas não tem mais aquele sentido de que o Estado deve cumprir imediatamente tais normas e não quando, a qualquer tempo, desejar.
III - Princípio da abrangência e densidade semântica (explícito / implícito) - interpretação de acordo com o que explicitamente os dispositivos postulam, mas também com o que implicitamente encerram ou contém. Por exemplo, o caso da licença gestante, que contempla também a mãe adotiva. As normas constitucionais devem ser tomadas como regras da constituição atual e não de uma constituição futura, destituída de eficácia imediata. Como exemplo, o artigo 7°, XVIII e artigo 37 (nepotismo) ambos da Constituição Federal de 1988. IV - Princípio dos conceitos exógenos – provenientes de outras áreas do Direito (casamento – Direito Civil; esporte – Direito Desportivo etc.) ou do campo extrajurídico, desde que apreendidos em disposições constitucionais, devem ser interpretados no sentido que adquirem por força desta nova inserção sistemática. Os conceitos exógenos devem ser interpretados, portanto, no sentido que adquiriram no patamar constitucional. Passam a um novo patamar sistemático. Assim o conceito de família do artigo 206 presente na Constituição é a mesma família do Código Civil, mas na Constituição Federal de 1988 indica-se a proteção maior e é
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CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional. 6 ed. revista. Coimbra: Almedina, 1993, p. 1133.
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Surgiram na Segunda Guerra Mundial com forma de previsão de programas de atuação do Estado para se atingir uma situação de igualdade. Ex: artigo 205 da Consituiçao Federal - a educação é direito de todos e dever do Estado, sociedade e família. O termo demanda recursos materiais e humanos para que todos estejam na escola (qualquer ser humano tem direito à educação, não somente crianças). É norma de eficácia plena e aplicabilidade imediata.
nesse sentido maior que deve ser interpretada a cada dispositivo do Código Civil. Por exemplo, artigo 5°, LXXIII, Constituição Federal de 1988 - ação popular - qualquer (questão de generalização de gênero) cidadão (titular de todos os direitos previstos na constituição) é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público, ao de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas e de ônus da sucumbência. Na jurisprudência brasileira, inclusive do Supremo Tribunal Federal, são necessários dois requisitos: lesividade e ilegalidade (ato legal - agente capaz, objeto lícito e possível, forma prescrita ou não defesa em lei). A doutrina adota três tendências: 1ª) a que fundamenta o STF exige lesividade e ilegalidade (José Afonso da Silva, Hely Lopes Meirelles, Péricles Prade dentre outros)97; 2ª) basta a lesividade (Lucia Vale Figueiredo e outros autores)98; 3ª) que a legalidade contenha a lesividade, pois nem todo ato legal é necessariamente lesivo (Celso Ribeiro Bastos, Michel Temer e Vicente Graco Filho)99. Fixou- se o primeiro posicionamento porque não se atentou ao princípio dos conceitos exógenos, porque anular ato é do Direito Civil e deve, portanto, ser interpretado com o conceito que adquiriu na Constituição. E o sentido nesse caso, dentro da característica da coloquialidade das normas, anular é tornar sem efeito, pelo senso comum. A doutrina está na frente do Supremo Tribunal Federal.