2 5 Outras contribuições que as ciências humanas oferecem em termos de grupo e sacrifício
2.6 Teoria da Identidade Social
2.6.1 Princípios da Teoria da Identidade Social
Como qualquer outra teoria, a SIT engloba princípios que retratam sua posição e contribuição para a ciência. Trepte e Loy (2017) sugerem sete, a partir das ações de categorização, identificação e comparação social elencados por Tajfel e Turner (1979), organizados em um processo cronológico com vários ciclos de feedback (Figura 5(2)).
Figura 5(2): Princípios da Teoria da Identidade Social
Fonte: Autora (2019) baseada em Trepte e Loy (2017).
Como descrito anteriormente, o indivíduo estabelece categorias para classificar o mundo social. Esse processo de categorização é o elemento inicial para o desenvolvimento da Identidade Social, criando protótipos (características) dos grupos a serem acessados na memória em dado contexto (HOGG, 2001). A categorização organiza o mundo social em unidades compreensíveis, buscando exaltar as semelhanças e diferenças grupais, gerando compreensões sobre a acessibilidade, disponibilidade e adequação de um grupo ao sujeito
(KORTE, 2007), aguçando os limites intergrupais a partir de estereótipos (HOGG, TERRY; WHITE, 1995).
Dada a importância desse processo, foi derivada da Teoria da Identidade Social a Teoria da Auto-categorização (Self-Categorization Theory - SCT). A partir do estudo de Turner (1985), compreendeu-se como parte da categorização social, uma auto-categorização em que o indivíduo se identifica com algumas classificações estabelecidas (JETTEN; SPEARS; POSTMES, 2004). Por isso, pessoas tendem a pensar termos de grupo, localizando-se em vários deles e acreditando nos seus aspectos positivos (XIAO; COPPIN; VAN BAVEL, 2016; MANGUM; BLOCK Jr., 2018). A partir disso, é possível observar uma despersonalização, definida a partir do momento em que o sujeito não mais percebe os demais como indivíduos distintos, mas como aproximações melhores ou piores do protótipo grupal (HOGG; REID, 2006; SCHULZ; WIRTH; MÜLLER, 2018).
As categorias sociais estabelecidas podem ser vistas pelo indivíduo como mais ou menos importantes. Parte-se assim para o segundo princípio da SIT, a saliência, que representa a percepção de quão importante é uma categoria social em dada situação (TREPTE; LOY, 2017), ou seja, quão relevante certa classificação é para um indivíduo. Por isso, quanto maior a saliência da categoria para o sujeito em certo contexto, maior a probabilidade de que esta tenha influência nas suas atitudes e nos seus comportamentos nesse ambiente (REED II et al., 2012). É, inclusive, a partir da saliência que comparações começam a ser realizadas em prol da distinção do grupo (TAJFEL; TURNER, 1986).
A definição do outro e do Eu é largamente “relacional e comparativa” (TAJFEL; TURNER, 1986, p. 283). Por isso, a partir das categorias salientes, as comparações sociais – terceiro princípio da SIT – começam a ser realizadas. Para Hornsey (2008), é justamente nesse processo de comparação que os grupos se tornam psicologicamente reais. As pessoas geralmente buscam realizar comparações entre os grupos ao qual pertencem e os grupos
externos relevantes, avaliando-os de modo a aumentar a pressão por distinção (HOGG, 2001), observando diferenças que possam revelar a superioridade de seus agrupamentos sobre os demais (MANGUM; BLOCK Jr., 2018). No entanto, para que um grupo externo se torne particularmente relevante para comparações é necessário algum grau de semelhança ou proximidade com o conjunto de pessoas ao qual se está sendo comparado (HINKLE; BROWN, 1990).
Como resultado da comparação, tem-se a distinção social, quarto princípio da Teoria em análise. De acordo com Jetten, Spears e Postmes (2004), o fato de ser diferente de outros grupos justifica não apenas a existência de um grupo, mais também estabelece as relações e as interações intergrupais. Distinguir-se, portanto, é estabelecer significados sociais que possibilitam a demarcação e diferenciação social. Logicamente, os indivíduos desejam fortemente uma avaliação favorável do grupo que pertencem (TREPTE; LOY, 2017), de modo a gerar uma distinção positiva em relação aos demais agrupamentos. E, ao serem motivados a pensar e agir em prol do alcance ou manutenção de uma distinção positiva, sustenta-se as instâncias de diferenciação intergrupal e de derrogação aos grupos externos (HORNSEY, 2008).
A partir da auto-categorização e do resultado de sua avaliação, que aponta para possíveis distinções, é possível ter uma identidade social estabelecida (STETS; BURKE, 2000). Essa identidade é compreendida por Jenkins (2004) como um processo contínuo de interação entre o indivíduo e seu grupo e entre esse sujeito e os demais grupos, que apresenta componentes duradouros (centrais) e periféricos. Trata-se de “uma parte do autoconceito individual que deriva de seu conhecimento de pertencer a um grupo social, juntamente com o valor e o significado emocional ligados a essa afiliação” (TAJFEL, 1978, p. 63). A identidade social, portanto, contribui para moldar o comportamento do membro de acordo com os valores e práticas grupais (MANGUM; BLOCK Jr., 2018). Deve-se considerar, entretanto, que
indivíduos e grupos se influenciam mutuamente, de modo a considerar que as normas do agrupamento social podem ser ativamente contestadas, discutidas e moldadas por indivíduos que fazem parte dele (HORNSEY, 2008).
A identidade social ainda abarca uma dimensão afetiva, gerando sentimentos de apego emocional ou compromisso com o grupo (BAGOZZI; DHOLAKIA, 2002). Essa dimensão contribui para a percepção positiva sobre o agrupamento que pode ser potencializada a partir do momento em que a associação permite ao indivíduo o desempenho de papéis sociais importantes (FOMBELLE et al. 2012), atribuindo significado motivacional à participação em grupo (HACKEL et al, 2018). Em contraste, indivíduos que se identificam fracamente ou não se identificam com um grupo específico, muitas vezes não querem ser categorizados como um membro desse agrupamento, experimentando emoções negativas (BECKER; TAUSCH, 2014; HACKEL et al., 2018).
Um dos pressupostos estabelecidos na Teoria da Identidade Social é que “os indivíduos se esforçam para alcançar ou manter uma identidade social positiva” (TAJFEL; TURNER, 1986, p. 284) que deriva das comparações favoráveis feitas entre os agrupamentos, de modo que o grupo interno seja percebido como positivamente distinto dos demais (ZEUGNER- ROTH, ŽABKAR; DIAMANTOPOULOS, 2015). É por meio da identidade social (quinto princípio) positiva que há o aumento da autoestima, outro princípio básico da SIT, fazendo com que nenhuma outra comparação social seja necessária (TREPTE; LOY, 2017). Por isso, a autoestima ou a falta dela dependerá da percepção sobre a distinção gerada a partir de uma comparação de categorias relevantes no ambiente intergrupal (STRYKER; BURKE, 2000).
Apesar dos esforços de cada membro do grupo social por uma identidade positiva, é possível deparar-se com um self insatisfatório que diminui a autoestima e exige o desenvolvimento de estratégias para reinterpretar o mundo (FUJITA, HARRIGAN, SOUTAR, 2018); sétimo princípio estabelecido na SIT. Tal insatisfação pode ocorrer porque, no processo
de comparação entre os agrupamentos, o grupo externo analisado é percebido como possuidor de melhor desempenho nas dimensões avaliadas que o agrupamento interno. Assim, indivíduos se esforçarão para deixar seu grupo existente e juntar-se ao ajuntamento externo mais positivamente distinto ou buscarão transformar o grupo ao qual pertencem (TAJFEL; TURNER, 1986; BROWN, 2000). Para a primeira estratégia, dá-se o nome de mobilidade individual, em que grupos de aspiração se tornam de afiliação; para a segunda, tem-se o nome de criatividade social, em que o indivíduo buscará alternativas para melhorar sua identidade sem sair do grupo, podendo envolver a realização de comparações a partir de novas dimensões e com outros grupos externos (HOGG; TERRY; WHITE, 1995; TREPTE; LOY, 2017).
Ainda é possível o desenvolvimento de estratégias de competição social, caracterizadas pela busca de distinção entre grupos, reafirmando o quão único o grupo é a partir de dimensões valorizadas por consenso social, protegendo-o (SENO, 1997; HOGG, 2001). Nesse ambiente, são estabelecidos sentimentos, tal como alegria ao dano do grupo externo (OUWERKERK et al., 2016), e podem ser desenvolvidas ações visando denegri-lo (REICHE; HARZING; PUDELKO, 2015). Segundo Reid, Giles e Abrams (2004), a escolha por qual ação realizar – mobilidade, criatividade, competição – dependerá do status e da permeabilidade dos agrupamentos, e só ocorrerá a partir da percepção da possível melhoria da identidade social.