2.5.1 PRINCÍPIOS TEÓRICOS
As cidades necessitam de ser dotadas com percursos que apresentem as qualidades necessárias para que os utilizadores se possam deslocar com rapidez, segurança e comodidade.
A realização de um projeto de uma rede pedonal é um projeto que representa um grande desafio. Durante a criação de um projeto deste cariz é necessária uma visão global e integrada das relações que são estabelecidas entre os utilizadores, a envolvente urbana e o sistema de transportes públicos (CMBarreiro, CMLoures, CMMoita, & Transitec, 2008). As redes pedonais devem ser criadas seguindo alguns princípios de planeamento, de modo a que sejam garantidas as condições necessárias para a circulação dos peões.
Segundo o documento, realizado pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres
(IMTT), Rede Pedonal – Princípios de Planeamento e Desenho, os princípios que devem
ser seguidos para o planeamento de uma rede pedonal são: Princípios de sustentabilidade, Integração e Concertação. De forma resumida, significa que, as redes pedonais devem promover um desenvolvimento sustentável. Devem ser planeadas integrando diferentes campos como os transportes, o ordenamento do território, o desenvolvimento económico, a saúde e educação, de maneira a que exista uma melhor concordância entre os tipos de projetos existentes.
Aquando do planeamento, é necessário, também, ter noção das necessidades e problemas existentes, para que o foco de atuação da rede seja direcionado para o que realmente necessita de ser intervencionado. Para isso o processo de planeamento deve ser integrado. Isto significa que, durante o planeamento os utilizadores sejam incluídos no processo de decisão.
Para que uma rede tenha qualidade e as condições necessárias para a sua utilização, o documento Rede Pedonal – Princípios de Planeamento e Desenho, define as principais características:
-Conectividade, Acessibilidade Universal, Segurança rodoviária, Segurança pessoal, Legibilidade, Conforto, atratividade e convivialidade.
Ao nível da Conectividade, uma rede pedonal tem que fazer ligação aos principais pontos geradores de deslocações pedonais, como é o caso de interfaces de transportes públicos, áreas comerciais, áreas de lazer, equipamentos de utilização coletiva, entre outros. Esta ligação deve ser dimensionada de acordo com o tipo de utilização e tendo em conta o número de utilizadores.
Ao nível da Acessibilidade Universal, as redes pedonais devem fomentar conceitos como a inclusão social e o design universal5. Isto significa que, os percursos devem ser dotados de características que facilitem o acesso a todas as pessoas.
Ao nível da Segurança Rodoviária, é necessário garantir a segurança dos peões, pois revelam-se como o elo mais fraco do sistema viário. Medidas como a redução da largura de zonas de atravessamento e acalmia de tráfego permitem melhorar os níveis de confiança dos utilizadores.
Ao nível da Segurança Pessoal, é importante que se minimizem as zonas de risco, criando espaços que sejam amplos e iluminados e que fomentem as relações sociais.
Ao nível da Legibilidade, as redes pedonais devem ter informação clara, e de fácil compreensão. O seu desenho deve ser simples, e deve conter sinalética adequada e pontos de referência que facilitem a interpretação dos lugares.
5 design universal: visa a conceção de objetos, equipamentos e estruturas do meio físico destinados a ser utilizados pela
generalidade das pessoas, qualquer que seja a idade, estatura ou capacidade, tornando os produtos, estruturas, a comunicação/informação e o meio edificado utilizáveis pelo maior número de pessoas possível, a baixo custo ou sem custos extras,
Ao nível do Conforto, as redes pedonais devem proporcionar abrigo contra intempéries e contra as consequências do tráfego. O tipo de materiais utilizados também se revela de grande importância. Deve ser escolhido de acordo com o tipo de pessoas a que se destinam bem como com as condições de inclinação e atmosféricas.
Por fim, os percursos pedonais devem proporcionar Atratividade e Convivialidade que promovam a realização de atividades sociais, convívio e lazer.
2.5.2 RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS
Numa perspetiva mais prática do Planeamento de Redes Pedonais, pode ser feita uma análise tendo em conta duas vertentes. A vertente do peão e suas características, e a vertente ligada ao desenho urbano. Apesar de serem duas vertentes distintas, é necessário analisar em primeiro a vertente relacionada com o peão, que está relacionada com características dos utilizadores, de maneira a que o desenho urbano esteja de acordo com as características dos utilizadores a quem se destina.
Vertente do Peão
A vertente do peão na rede pedonal está relacionada com aspetos como a velocidade de circulação; o débito pedonal; capacidade pedonal; a extensão dos percursos; o espaço que o peão ocupa; tipo de utilizadores (CCDRN, 2008).
É importante realizar a caracterização do tráfego pedonal antes de se realizar qualquer tipo de intervenção, isto irá permitir que as alterações vão ao encontro das necessidades e tipo de pessoas que utilizam a rede. Contudo, para efeitos desta dissertação serão analisados, apenas, os parâmetros - extensão dos percursos, a capacidade pedonal, o tipo de utilizadores a que se destina a rede e a área de ocupação do peão.
A escolha destes parâmetros está relacionada com a exequibilidade e aplicabilidade dos mesmos no projeto proposto.
Fazendo uma análise mais detalhada dos parâmetros atrás mencionados:
Extensão dos percursos - A extensão dos percursos é um parâmetro que é influenciado pelo tipo de utilizador. Isto é, a distância que o utilizador está disposto a percorrer a pé, varia tendo em conta o propósito da sua deslocação, bem como o tipo de utilizador. Um exemplo simples: Uma pessoa de férias num determinado local, sem restrições de horários, a sua disponibilidade para se deslocar a pé é maior que a de uma pessoa que se desloca a pé para o trabalho. É neste sentido que importa analisar a quem se destinam os percursos, para que se proponham percursos com distâncias adequadas.
Segundo O Manual do Planeamento de Acessibilidades e Transportes – PEÃO, CCDRN
(2008), a extensão dos percursos deve também ser analisada tendo em conta o “grau de
penosidade”. O “grau de penosidade” está relacionado com a inclinação dos percursos. Concentração Pedonal – A concentração pedonal é definida como o número médio de peões presentes numa determinada área. Expresso em peões/m2. Este parâmetro é analisado de maneira a que se conheçam as potencialidades pedonais de uma determinada área, para posteriormente se dimensionarem passeios de acordo com as
Tipo de utilizadores - O tipo de utilizadores para quem se está a projetar um percurso pedonal é bastante importante. Como foi dito anteriormente no ponto “Extensão dos percursos”, o tipo de utilizador vai influenciar, não só, mas também, a distância que os utilizadores estão dispostos a percorrer, a velocidade de percurso, as soluções em termos de desenho urbano e principalmente a rede pedonal deve ter em conta qual o propósito da utilização dos percursos para se tenham em conta os pontos de interesse a incluir no trajeto.
No entanto esta distinção do tipo de utilizador pode ser feita ao nível do projeto, contudo, por tratarem-se de percursos livres à utilização de qualquer pessoa, é necessário ter especial atenção a pormenores do desenho urbano no que respeita as acessibilidades para pessoas idosas, crianças e pessoas com deficiência.
Área de ocupação do peão – é um parâmetro que permite definir qual a largura que os passeios devem ter. Em concordância com a concentração pedonal, é possível perceber os níveis de serviço de uma determinada área, de maneira a que seja possível projetar percursos que vão ao encontro dos fluxos pedonais existentes. Contudo, nem sempre é possível criar passeios com as dimensões que respondam às necessidades, no entanto, iremos ver mais à frente que a legislação define valores mínimos para a largura dos passeios.
Quando se analisa a área de ocupação do peão, é necessário analisar também o espaço ocupado por pessoas que utilizam auxiliares à deslocação. Como é o caso de canadianas, cadeira de rodas e carrinhos de criança.
Figura 5: Larguras mínimas para a circulação de pessoas com mobilidade condicionada (Fonte: CCDRN, 2008)
A análise destes parâmetros revela-se muito importante para a análise prévia que é necessário realizar para a criação de uma rede pedonal.