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CAPITULO 1 – O DIREITO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL E A FORMAÇÃO

2.3 PRINCÍPIOS DO DIREITO INTERNACIONAL AMBIENTAL

Os princípios do direito constituem a base da norma, seu espirito, revelando a própria razão de ser de determinado arcabouço normativo. Segundo Celso Antônio Bandeira de Mello, a violação de "[...] um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos.‖152, concluindo que ―[...], com ofendê-lo, abatem-se as vigas que o

sustêm e alui-se toda a estrutura nelas esforçada."153

148 VARELLA, Marcelo Dias. Direito Internacional Econômico Ambiental. Belo Horizonte : Del Rey,

2003, p. 28.

149 CALSING, Renata de Assis. Idem, p. 62.

150 UOL. Rio +20. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-

noticias/redacao/2012/06/22/rio20-mobilizou-mais-de-us-500-bilhoes-para-o-desenvolvimento- sustentavel-diz-onu.htm> Acesso em 01/11/2013.

151 CALSING, Renata de Assis. Idem, p. 62.

152 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 12. Ed.

– São Paulo : Malheiros, 2000, p. 748.

No Direito Internacional Ambiental os princípios ganham espaço de destaque, e se relacionados ao eixo comercial, alguns em especial merecem análise. O rol de princípios do Direito Internacional Ambiental apresenta-se amplo, de maneira que iremos os que mais se sobressaem, como o princípio do usuário-pagador, do poluidor-pagador, da prevenção e da precaução.

2.3.1 Princípio do usuário-pagador

O princípio do usuário-pagador decorre do fato de que os recursos ambientais são finitos e que o uso desses recursos deve ser onerado, recaindo sobre aquele que está se beneficiando dos mesmos, forte no princípio da vedação do enriquecimento sem causa. Sua existência está presente, via de regra, nos ordenamentos jurídicos nacionais e sua aplicação não tem conotação de penalidade, mas de taxa fixada pelo poder público.154

A fixação do preço se faz com base na atividade a ser desenvolvida, seu impacto sobre o meio ambiente e a escassez dos recursos afetados, convergindo para outros princípios, como o princípio econômico da verdade dos preços ou da recuperação integral dos custos (full cost recovery ou full cost pricing), para com isso repassar os custos e produção, distribuição e utilização desses recursos aquele que os está explorando, além de se ver ainda a mensuração das despesas do Poder Público com a administração dos recursos e o custo social do empreendimento.155

Em muitos casos, a atividade é permitida, mas o valor cobrado para o exercício dela se torna tão elevado que servirá como desestimulo para sua prática, o que reverte em benefício para o meio ambiente.

2.3.2 Princípio do poluidor-pagador

O princípio do poluidor-pagador parte da existência de um dano a ser reparado, ganhando por tal razão feição sancionadora. Sua importância é significativa por caracterizar a responsabilidade pelo dano ambiental e determinar a obrigação de indenização e reparação.

154 NETO, José Cretella. Idem, p. 219.

155 LEITE, José Rubens Morato. BELLO, Ney de Barros. Direito Ambiental Contemporâneo. São

Foi formalizado através da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE, por meio da Recomendação ‗C‘ (72), 128, de 28 de maio de 1972, integrando a Declaração de Estocolmo, de 1972, e a Declaração do Rio, de 1992, cujo princípio nº 16 é taxativo:

As autoridades nacionais devem procurar assegurar a internalização dos custos ambientais e o uso de instrumentos econômicos, levando em conta o critério de quem contamina, deve, em princípio, arcar com os custos da contaminação, levando-se em conta o interesse público e sem distorcer o comércio e os investimentos internacionais.

Por ter aplicação posterior a ocorrência do evento danoso, surgem algumas peculiaridades que se apresentam de forma negativa, como o entendimento de que este princípio implicaria na compra do direito de poluir, algo que pesa contra o meio ambiente, além do fato de permitir que uma empresa poluidora redistribuísse esse custo reparatório para os consumidores, através do aumento de preços.156

2.3.3 Princípio da precaução

O principio da precaução fixa a premissa de que havendo potencial risco ao meio ambiente, ou mesmo diante da incerteza da segurança da atividade a ser desenvolvida, há que se tomar medidas que previnam consequências danosas.

Logo, não se sabe quais serão os efeitos ao meio ambiente da atividade a ser exercida, de maneira que o princípio da prevenção fixa medidas para evitar a ocorrência de um dano ignorado, parcialmente ou totalmente desconhecido, seja no plano fático ou cientifico.

Na Declaração do Rio, a precaução é o princípio de nº 15, dispondo que:

Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.

Alexandre Kiss destaca que a certeza cientifica apontada ao final deste princípio poderá ter influência direta sobre as decisões políticas, mas mesmo isso irá

variar de um país para outro, seja por suas peculiaridades e prioridades, seja pela análise de fatores isolados, como o potencial de risco de configuração do dano – maior ou menor, e a gravidade que tais danos poderiam acarretar. Não bastasse, ainda há a questão da incerteza cientifica e os impactos de se estar errado acerca decisão tomada.157

Outro aspecto inerente a este princípio refere-se ao risco da precaução extrema, que poderia conduzir a situações onde até mesmo atividades ou produtos seguros poderiam ser proibidos diante de processos envolvidos em sua cadeia produtiva cujos danos poderiam ser irreparáveis. Isso, em grande escala, poderia gerar mais prejuízos do que benefícios, pois vista numa visão mais ampla, inviabilizaria o desenvolvimento econômico, eis que toda cadeia produtiva geral algum dano ambiental. Assim, a dificuldade na aplicação desse princípio reside em encontrar o equilíbrio entre o risco de dano e os custos econômicos das medidas propostas para o afastarem.158

Este princípio ganha relevância quando se analisa que a partir de sua criação relativizou-se a exigência de dados científicos para somente então se promover a proteção ao meio ambiente. Desse modo, não há a necessidade de se esperar por longos períodos de estudo e discussões que fatalmente agravariam os danos ambientais, isso quando não os tornassem irreversíveis.159

2.3.4 Princípio da prevenção

O princípio da prevenção se embasa no entendimento de que a prevenir a ocorrência do dano ambiental é melhor do que aplicar medidas reparatórias, ainda mais quando considerarmos o fato de que o ambiente degradado dificilmente recuperará sua antiga forma.

Por tal razão há o interesse em ―[...] anticipar la ocurrencia de daños ambientales o impactos negativos, tanto por sus efectos adversos, como por la visión empresarial, que em la toma de decisiones, emplea costo-benefício.‖160, além

157 KISS, Alexandre Charles. Manual of European Environmental Law. Cambridge University Press,

1997, p. 42.

158 KISS, Alexandre Charles. Idem, p. 42.

159 CUTANDA, Blanca Lozano. Derecho Ambiental Administrativo. Librería-Editoral Dykinson,

2012, p. 75.

160 OCAMPO, José Antônio. Conceptos Básicos para Entender la Legislación Ambiental

do fato de que a ―[...] inversión e innovación em tecnologías más limpias, mejoran los costos de produción a largo plazo,pues es más costoso reparar um daño ambiental, que la aplicación de buenas prácticas de prevención.‖161

Cumpre destacar que o princípio da prevenção guarda semelhanças com o da precaução, não devendo, porém, ser confundido. Quênia de Rezende Menezes destaca que em se tratando da prevenção, os riscos ao meio ambiente já são conhecidos, havendo inúmeros instrumentos para geri-los, tratando-se mais de fiscalização. Outrossim, há a possibilidade de se buscar um padrão ambiental elevado ao ponto de se pleitear o reconhecimento internacional, através de certificações, como a norma ISSO 14001. Existem outros instrumentos relacionados a este princípio, como as eco-auditorias e a implementação de novas tecnologias para redução dos danos ao meio ambiente. Além disso, busca-se pela prevenção minimizar ou eliminar a emissão de poluentes nocivos, bem como promover o uso de métodos ambientalmente eficazes, além de se utilizar as melhores técnicas dentro de um custo aceitável.162

Nicolas de Sadeleer explica que a utilização prática do princípio da prevenção ocorre através da fixação de procedimentos administrativos para prática de atividades potencialmente poluidoras, razão pela qual as licenças e autorizações ambientais criam uma série de exigências e a ausência do documento ou o desrespeito aos limites neles fixados podem acarretar sanções penais. Esses limites guardam relação com o meio de operação, a quantidade e a concentração de poluentes, bem como medidas de segurança a serem implementadas durante o período de exercício. Estas licenças, por sua vez, possuem uma carga jurídica ampla, baseada em noções abertas, como a exigência de aplicação das melhores técnicas possíveis, melhores práticas ambientais, o uso de métodos de produção limpos, etc.163

No Brasil temos como instrumento de efetivação desse princípio o procedimento de licenciamento e a autorização ambiental, que permitem, em regra, o exercício de atividades que demandem a utilização de recursos naturais e por isso possam ter algum risco ambiental, ou seja, parte-se do pressuposto de que sejam potencialmente poluidoras. A fim de apurar o risco para o meio ambiente e sustentar

161 OCAMPO, José Antônio. Idem, p. 17.

162 MENEZES, Quênia de Rezende. Le droit international peut-il sauver les dernières forêts de la planète? Editions L'Harmattan, 2013, p. 114.

a permissão ou não do exercício dessas atividades, pode-se exigir antes a elaboração de estudo de impacto ambiental – EIA, bem como relatório de impacto ao meio ambiente – RIMA.