1.3 Os Riscos e os Princípios de Direito Ambiental
1.3.3 Princípios do Poluidor-pagador e do Usuário-pagador
Além do desenvolvimento sustentável como finalidade básica do Direito Ambiental, nos planos teórico ou prático, e prevenção e precaução como fundamentos para isso, também a responsabilidade pelos danos ambientais representa um importante instrumento na defesa do meio ambiente. Ainda, já foi abordada a finalidade da responsabilidade ante os danos ambientais, que consiste não unicamente em reparar e restaurar o equilíbrio ecológico e ambiental afetado, mas também possui caráter expiatório, visando, acima de tudo, a prevenção dos danos.
A responsabilidade é um instrumento de concretização da proteção ambiental, na medida em que através dela se oportuniza a reparação de danos causados, além da repressão nela inserida, que incentiva condutas cautelosas em relação ao meio ambiente, especialmente em razão de que algumas configuram crimes e infrações administrativas, passíveis de sanções. Jonas (2006) defende que a prudência é imperativo da responsabilidade, levando-se em conta a inexistência de projeções seguras sobre a realidade e sobre certas atividades. Assim, a responsabilidade está relacionada diretamente com a preservação da ocorrência de danos ambientais, pois o agir responsável pressupõe o agir prudente, especialmente perante os riscos característicos da sociedade atual.
A Lei da Política Nacional do Meio Ambiente fixou a base legal para os princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador no seu artigo 4º, que estabelece os objetivos dessa política, com a imposição “ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e, ao usuário, da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos”. Tal dispositivo foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988, já que o parágrafo 3º do artigo 225 dispõe sobre as condutas e atividades danosas ao meio ambiente, prevendo que estas “sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos
30 Esta é a posição de Mirra (1996) e Gomes (1999), sendo que o primeiro classifica diversamente o princípio da
participação popular na proteção do meio ambiente; e, o segundo, o da educação ambiental. Ambos consideram a obrigatoriedade de intervenção estatal princípio isolado, além de não diferenciarem prevenção e precaução.
causados”. Também no Princípio 16 da Declaração do Rio está exposto o dever do poluidor de “arcar com o custo decorrente da poluição”.
Os dispositivos legais e da Declaração do Rio que fundamentam os princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador (especialmente o primeiro), estão diretamente relacionados com a responsabilidade pelos danos ambientais. No pensamento de Benjamin (1993, p. 228), tal princípio impõe ao poluidor “o dever de arcar com as despesas de prevenção, reparação e repressão da poluição”. Ou seja, monetariza a poluição, mas não com a finalidade de instituir uma espécie de autorização ou compensação, mediante pagamento, para praticá-la. Lyra (1997, p. 61) defende o pensamento de que tanto o poluidor quanto o usuário, devem arcar com “os custos de prevenção, de reparação e de repressão do dano ambiental, assim como aqueles outros relacionados com a própria utilização dos recursos ambientais”, demonstrando que o objetivo dos princípios sob análise não é o de condicionar a poluição ao seu pagamento, mas responsabilizar o agente que utiliza ou degrada os recursos naturais.
A grande finalidade dos princípios sob análise é onerar as atividades poluidoras ou as que utilizam recursos naturais para fins econômicos, visando que os custos disso não sejam suportados pela sociedade ou pelo Estado, mas pelo próprio poluidor ou pelo usuário que obtém lucros mediante a utilização do meio ambiente. Ainda, o caráter educativo inserido nestes preceitos é evidente, pois através do ônus que instituem, contribuem para a mudança de postura do homem, visando promover a utilização racional e consciente dos recursos naturais.
Tanto o princípio do poluidor-pagador, quanto o do usuário-pagador, possuem características semelhantes, já que ambos visam prevenir (e precaver) a ocorrência de danos ambientais, incidindo, portanto, antes da sua ocorrência. No entanto, diante da vinculação com a responsabilidade, o poluidor-pagador tem aplicação também após a concretização do dano, objetivando sua reparação. Trata-se de um contraponto, ou uma medida contrária, à irresponsabilidade organizada, já que, através de instrumentos como o licenciamento ambiental e o estudo de impacto ambiental, é possível que se identifique o poluidor e, assim, torne possível a responsabilização deste pelos danos ambientais que vier a causar, caso não observe as normas preventivas cabíveis.
Ainda, a relação existente entre os princípios de Direito Ambiental fica evidente também na abordagem sob análise, de forma que um decorre e se justifica no outro. Poluidor- pagador e usuário-pagador visam, precipuamente, a prevenção e precaução de danos ambientais, e, através da responsabilização (que pressupõe reparação e repressão), objetivam
a manutenção do equilíbrio ecológico, que é corolário do desenvolvimento sustentável. Por isso, justifica-se a construção de grupos lógicos de princípios, definidos de acordo com o caráter básico de cada elemento: sustentabilidade, prevenção (e precaução) e responsabilidade.
A atual concepção de natureza, que insere o homem como seu integrante e não mais proprietário, introduz a visão ecocêntrica em substituição à antropocêntrica do meio ambiente31. Os grupos lógicos de princípios, como fonte de Direito, exercem um importante papel nas políticas públicas que visam evitar a ocorrência de danos ambientais. A partir disso, a pesquisa dedicar-se-á ao estudo da prevenção e da precaução, que podem concretizar-se através da participação popular, gerada com base em uma educação ambiental, e como isso pode influenciar a atuação do Estado, especialmente para evitar a sua responsabilização e por danos causados pela omissão deste.
31 A visão ecocêntrica é a que considera o Planeta e os seus recursos naturais como o centro, o aspecto principal
da concepção de meio ambiente, do qual o homem é apenas um integrante. Já a antropocêntrica têm caráter utilitarista, tratando o meio ambiente como bem apropriável e disponível ao homem. A posição de Capra (2003, p. 20), abordando a classificação de Arne Naess sobre ecologia rasa e profunda, também esclarece: “A ecologia rasa é antropocêntrica. Considera que o homem, como fonte de todo valor, está acima ou fora da natureza e atribui a esta um valor apenas instrumental ou utilitário. A ecologia profunda não separa o homem do ambiente; na verdade, não separa nada do ambiente. [...] A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e encara o homem como apenas um dos filamentos da teia da vida”.
2 PRUDÊNCIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL
O atual contexto social de risco tecnológico e científico interfere na vida humana, relativizando as conclusões científicas sobre a existência de danos ambientais, sua extensão e a possibilidade de reparação. Por isso, a aplicação conjunta dos princípios da prevenção e da precaução torna-se importante, e a phronesis aristotélica pode ser uma forma de justificação e explicação da abordagem proposta. A educação, por fim, representa um instrumento do agir prudente em relação ao meio ambiente.