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Princípios e características do cooperativismo

2.3 O COOPERATIVISMO E AS ORGANIZAÇÕES COOPERATIVAS

2.3.1 Princípios e características do cooperativismo

No entendimento de Cenzi (2012), o cooperativismo está fundamentado em sua doutrina, que se insere na Doutrina Econômica, o que significa que a doutrina cooperativista objetiva correlacionar o âmbito social e o econômico. Estas organizações atuam a partir de “valores de auto-ajuda, responsabilidade própria, democracia, igualdade, equidade e solidariedade. […] os membros da cooperativa acreditam nos valores éticos de honestidade, sinceridade, responsabilidade social e preocupação com os outros” (SCHMIDT; PERIUS, 2003, p. 63). Estes valores são colocados em prática a partir dos princípios do cooperativismo. Crúzio (2005) aponta que atualmente o cooperativismo segue sete princípios básicos, determinados em 1995 pela International Cooperative Alliance (ICA), que consiste no órgão que representa o cooperativismo mundialmente. Deste modo, a redação dos princípios passou a ser:

a) Adesão voluntária e livre;

b) Gestão democrática pelos membros; c) Participação econômica dos membros; d) Autonomia e independência;

e) Educação, formação e informação; f) Intercooperação;

g) Interesse pela comunidade.

O primeiro princípio, adesão livre e voluntária, é colocado em prática a medida que as cooperativas são voluntárias e abertas aos indivíduos aptos a usarem seus serviços e que aceitem as responsabilidades como sócios, sem qualquer tipo de discriminação. O princípio do controle democrático pelos sócios ocorre em virtude dessas organizações serem democráticas e regidas por seus sócios, que atuam na formação das políticas e tomada de decisões, ocorre a eleição de um representante, que por sua vez, têm responsabilidades para com os sócios. Em cooperativas singulares, cada integrante tem direito a um voto, sendo que as demais cooperativas também são organizadas de forma democrática (CRÚZIO, 2005; CENZI, 2012; SILVA, 2001).

O princípio da participação econômica dos sócios ocorre com a contribuição equitativa e controle democrático do capital das cooperativas, parte do capital é propriedade comum da cooperativa, normalmente os sócios recebem juros limitados sobre o capital e destinam as sobras para o desenvolvimento da cooperativa, formação de reservas, retorno aos sócios de maneira proporcional as suas transações na cooperativa e apoio a outras atividades aprovadas

pelos associados. As cooperativas são autônomas e comandadas por seus associados, garantindo assim o cumprimento do princípio de autonomia e independência. Os associados e colaboradores contam com incentivos a educação, treinamento e informação, visando contribuir com seu desenvolvimento. As cooperativas trabalham em conjunto em nível local, nacional, regional e internacional, de modo a garantir o princípio de cooperação entre cooperativas. Por fim, atuam para desenvolver suas comunidades de maneira sustentável, por meio de políticas aprovadas por seus integrantes, e desse modo desempenham o princípio de preocupação com a comunidade (CRÚZIO, 2005; SILVA, 2001).

As sociedades cooperativas são regidas por normas que constam na Lei 5.764 de 1971, alterada em partes pelas Leis 6.981/82 e 7.231/84, além de 34 resoluções do Conselho Nacional de Cooperativismo, assim como nos artigos 1.093 a 1.096 da Lei 10.406/02, do novo código civil. Estas sociedades caracterizam-se pela interligação entre o tomador de serviços e os associados, sem visar o lucro. As pessoas que constituem as cooperativas são aquelas que reciprocamente contribuem com bens ou serviços para a realização de uma atividade econômica, de benefício comum e sem intenção de lucro (YOUNG, 2005).

As cooperativas são definidas pela Lei nº 5.764/71, que trata da Política Nacional do cooperativismo, do regime jurídico das sociedades cooperativas e dá outras providências, como “sociedades de pessoas, com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, não sujeitas à falência, constituídas para prestar serviços aos associados, distinguindo-se das demais sociedades”.

Lima Neto (2006, p. 148) define a cooperativa como “uma associação de pessoas que voluntariamente se unem para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, através de uma empresa de propriedade comum”, cuja gestão é democrática e sem fins lucrativos. Crúzio (2005) esclarece que as cooperativas representam a união de trabalhadores ou profissionais diversos, que efetivam uma associação por iniciativa própria, havendo o livre ingresso de pessoas, contanto que os interesses de cada um em produzir, comercializar ou prestar serviços não entrem em conflito com os objetivos gerais da cooperativa.

Para Franke (1973 apud CENZI, 2012, p. 19), a cooperativa consiste no instrumento de ação do cooperativismo, para que este possa realizar de maneira objetiva, os fins econômico-sociais a que se propõe. Sob a ótica econômica, a cooperativa representa uma “organização empresarial, de caráter auxiliar, por cujo intermédio uma coletividade de consumidores ou produtores promove, em comum, a defesa (ou melhoria) de suas economias individuais”. Por fim, considera-se essencial ao seu conceito que a mesma busque defender e

melhorar a situação econômica de seus cooperados, seja por meio da oferta de bens e serviços que necessitam, a um custo mais baixo, ou colocando no mercado, a preços justos, bens e serviços produzidos por eles.

Distinguem-se das demais sociedades por apresentarem variabilidade ou dispensa do capital social; possuírem número mínimo para compor a administração do negócio (20 pessoas físicas), mas não máximo; há limitação quanto ao valor da soma de quotas do capital social que cada um pode tomar; as quotas de capital são intransferíveis; a assembleia geral possui um quórum mínimo para funcionar e deliberar, baseado no número de sócios presentes na reunião e não no capital social; cada sócio possui direito a somente um voto nas deliberações; os resultados são distribuídos proporcionalmente ao valor das operações realizadas pelo sócio na sociedade, havendo a possibilidade de se atribuir um juro fixo ao capital; e o fundo de reservas não pode ser dividido entre os sócios, mesmo em caso de dissolução da sociedade (YOUNG, 2005).

Quanto a sua classificação, podem ser divididas em cooperativas singulares, centrais ou federações, confederações e mistas. As singulares são constituídas com o intuito de proporcionar serviços de maneira direta aos associados, atendendo a um objetivo econômico, político ou social único. As cooperativas centrais ou federações, organizam em maior escala, integram e orientam as atividades de no mínimo três cooperativas singulares filiadas. As confederações organizam em maior escala os serviços de no mínimo três cooperativas centrais ou federações, de modo a orientar e integrar suas atividades. Por fim, têm-se as cooperativas mistas, que prestam serviços diretamente aos associados, atendendo mais de um objetivo econômico, político ou social (CRÚZIO, 2005; YOUNG, 2005).

Quanto aos ramos de atuação, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB, 2014) afirma que no Brasil as cooperativas atuam em treze setores da economia, sendo representadas pela OCB em nível nacional e pelas Organizações Estaduais (Oces). Tal classificação foi acordada em 1993, com base nas áreas em que o movimento atua, e de modo a facilitar a organização das cooperativas em confederações, federações e centrais. Os ramos considerados são o agropecuário, de consumo, de crédito, educacional, especial, habitacional, de infraestrutura, mineração, produção, saúde, trabalho, transporte, e turismo e lazer.

Crúzio (2005) esclarece que as cooperativas agropecuárias são formadas por produtores e visam à comercialização da produção dos associados, beneficiamento e revenda ao mercado. As de consumo objetivam a compra e venda de bens de consumo. Nas de crédito os poupadores ou tomadores de recursos financeiros objetivam obter créditos para os associados em melhores condições do que as oferecidas pelo mercado. Nas cooperativas

educacionais pais de alunos buscam melhores condições do serviço educacional. As especiais são constituídas por pessoas que precisam ser tuteladas, e conforme a OCB (2014), também por aqueles em situações de desvantagem segundo a Lei 9.867 de 1999, sendo que as cooperativas atuam a fim de inserir esses indivíduos no mercado de trabalho, gerar renda e possibilitar a conquista da cidadania.

As cooperativas habitacionais são constituídas por pessoas físicas que visam a construção de casas, compra de terrenos e demais materiais com preços e condições de pagamento melhores que os do mercado. As de infraestrutura (ou serviços comunitários) consistem em grupos de trabalhadores ligados a uma empresa, a fim de prestar serviços, como limpeza, telefonia, eletrificação rural etc. As de mineração são formadas por mineradores para compartilhar equipamentos e materiais ou prestar serviços às empresas. As de produção são constituídas por indústrias ou empresas para unir fabricantes de bens. As de trabalho são constituídas por profissionais visando a intermediação de seus trabalhos, a partir da realização de contratos temporários em empresas (CRÚZIO, 2005).

Conforme a OCB (2014) as cooperativas de saúde se dedicam a preservar e promover a saúde humana. As de transporte atuam em serviços de transporte de carga e passageiros. E as de turismo e lazer atuam no atendimento direto e prioritário de seu quadro social em serviços de turismo, lazer, entretenimento, eventos, artísticos, esportes e de hotelaria.

Após conhecer as características gerais e princípios que norteiam o funcionamento das cooperativas, a seguir aborda-se o emprego de técnicas de marketing nessas organizações, frente as suas especificidades.