3 EDUCAÇÃO NAS ONGS
4.1 PRINCÍPIOS OPERADORES DO PENSAMENTO COMPLEXO
Dialógico
Duas lógicas é o que significa o termo utilizado por Morin (2005a) para caracterizar que dois fenômenos, aparentemente antagônicos em sua unidade, são necessários um ao outro, numa relação dialógica, como o homem que ” [...] é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural [...]” (MORIN, 2008, p. 76). As dimensões individuais, sociais, biológica, psicológica, histórica, cultural coexistem simultaneamente, cada uma com suas características específicas, mas inter-relacionadas umas com as outras, numa multidimensão antagonicamente complementar.
Ordem e desordem colaboram uma com a outra, produzindo organização e complexidade, mesmo contrárias, a princípio, o que permite a existência dual no âmago da condição unitária (MORIN, 2015). Desde a concepção do ser humano essa complementaridade está presente, pois
[...] há duas lógicas: uma, a de uma proteína instável, que vive em contato com o meio, que permite a existência fenomênica, e outra que assegura a reprodução. Esses dois princípios não são simplesmente justapostos, eles são necessários um ao outro. O processo sexual produz indivíduos, os quais produzem o processo sexual. Os dois princípios, o da reprodução transindividual e o da existência individual hic et nunc, são complementares, mas também antagônicos. (MORIN, 2015, p. 73).
Tudo que existe originou-se de encontros aleatórios e deve-se considerar a desordem e a incerteza, o que não implica se deixar submergir por elas, mas olhá-las de frente (id., 1996).
Para Morin (2008, p. 56), essa mudança na compreensão do cosmo teve seu início na termodinâmica de Boltzmann, desencadeada pela evidenciação dos quanta e, mais adiante, pela “[...] desintegração do Universo de Laplace [...]”, que revolucionou a ordem determinista do mundo para pôr em seu lugar “[...] uma relação de diálogo (ao mesmo tempo complementar e antagônica) entre ordem e desordem.”.
Esse princípio sugere que ambas concepções, reciprocamente excludentes, existem interligadas em um mesmo fenômeno, sendo que “[...] a dialógica entre a ordem, a desordem e a organização via inúmeras interretroações, está constantemente em ação nos mundos físico, biológico e humano”, e compõem a complexidade da mesma realidade (MORIN, 2008, p. 96). Não se trata de uma ordem prevista em leis ou desordens e acasos que regem o mundo, mas
[...] um grande jogo entre ordem/desordem/interações/organização. As organizações nascem de encontros aleatórios e obedecem a um certo número de princípios, determinando a ligação dos elementos desses encontros num todo. Esse é o jogo do mundo. Realiza-se conforme um anel em que cada termo está em complementaridade e em antagonismo com os outros [...]”. (id., 2012, p. 27).
Ao discorrer sobre o paradoxo do feminino/masculino, por exemplo, Morin (2012, p. 83-84) enfatiza que “[...] o masculino está no feminino e vice-versa, genética, anatômica, fisiológica e culturalmente [...] cada sexo comporta o outro de maneira recessiva [...]”, o que demonstra, de maneira análoga que “a complexidade da relação [...] está na dialógica complementaridade/antagonismo, na unidade dessa dualidade e na dualidade dessa unidade, na profundidade e na falta de profundidade da diferença.”. Da mesma forma, para esse autor, a sociedade tem uma contradição complementar quanto à ética e a política, ilustrada nos princípios sociais propostos pela nação francesa de Liberdade-Igualdade-Fraternidade, que, se forem olhados isoladamente, implicam a destruição do outro; quanto mais livre, mais diferente, menos igual, restando à fraternidade o papel contributivo para que os outros dois aconteçam (2017a). Se a ética desaparecer na política, a desfaçatez e a arrogância reinarão na vida comum, ao passo que, se a política submeter-se exclusivamente à ética, possíveis acordos não ocorrerão, o que sugere, desta forma, uma compreensão dialógica da contradição existente na relação entre ambas.
Farel (2008, p. 156) reconhece o princípio dialógico na arquitetura, área não abordada especificamente por Edgar Morin, mas que fascina, segundo esse autor, por ser, necessariamente, multidimensional, valendo-se de aspectos antagônicos e complementares, ao incluir
[...] a abordagem urbana, a história e a cultura da sociedade, a geografia, a paisagem, a sociologia e uma reflexão prospectiva sobre a evolução dos modos de vida, as artes plásticas, os diferentes avanços técnicos à disposição dos mestre-de-obras, a ecologia, o direito e a regulamentação etc.
Essa forma de pensar abrange a complexidade que ultrapassa a linearidade causa- efeito e admite cada aspecto de um fenômeno, suas relações entre si e com o ambiente no qual está inserido, numa relação recíproca, em que a parte influencia o todo que influencia a parte (MORIN, 2008). Tem-se, então, o segundo princípio operador do pensamento complexo.
Recursivo
Como o próprio nome indica, o princípio da recursividade proposto é um sistema que produz efeitos que são, ao mesmo tempo, produzidos e produtores do que os produz (MORIN, 2008), que vai além de um processo retroativo, visto que os produtos “[...] são necessários para a própria produção do processo. É uma dinâmica autoprodutiva e auto-organizacional.” (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p. 35). Da mesma forma que
[...] nós, indivíduos, somos os produtos de um sistema de reprodução que vem do início dos tempos, mas esse sistema não pode se reproduzir se nós mesmos não nos tornarmos produtores com o acasalamento. Os indivíduos humanos produzem a sociedade nas interações e pelas interações, mas a sociedade, à medida que emerge, produz a humanidade desses indivíduos, fornecendo-lhes a linguagem e a cultura.” (MORIN, 2008, p. 95).
Essa relação do indivíduo com a sociedade aparece na trindade proposta por esse autor: indivíduo/sociedade/espécie, e que propicia um aparato mais amplo de conceitos e ideias sobre as três noções. Sob a ótica da recursividade:
Cada um desses termos contém os outros. Não só os indivíduos estão na espécie, mas também, a espécie está nos indivíduos; não só os indivíduos estão na sociedade, mas a sociedade também está nos indivíduos, incutindo- lhes, desde o nascimento deles, a sua cultura. Os indivíduos são os produtos do processo reprodutor da espécie humana, mas esse processo deve ele mesmo ser produzido pelos indivíduos. As interações entre indivíduos produzem a sociedade e esta, retroagindo sobre a cultura e sobre os indivíduos, torna-os propriamente humanos. (MORIN, 2012, p. 52).
Há, também, uma relação dialógica entre as três noções da trindade, referindo-se ao que seja complementar e possa vir a ser antagônico, como uma sociedade repressora com seus indivíduos que buscam a emancipação social e satisfação sexual, mesmo que “[...] as finalidades reprodutoras [...]” da espécie dediquem-se à sua manutenção, logo, “Indivíduo, sociedade, espécie são, assim, antagônicos e complementares.” (MORIN, 2012, p. 52). Desse
modo, a irredutibilidade e dependência de cada componente da trindade constituem o alicerce da complexidade humana. Na qualidade de indivíduos, continuamos a produzir um processo reprodutivo que existe antes de nós mesmos e que perdurará, retroagindo tanto sobre os indivíduos quanto sobre a sociedade, de modo a romper com a linearidade e conceber uma ideia de um ciclo autoprodutor (MORIN, 2015).
No percurso do princípio da recursividade, Morin (2005c, p. 44) resgata os ciclos existentes na biosfera, “[...] do mar à terra via nuvens, da terra ao mar, via rios [...]”, chamado de ciclo hidráulico, que é tanto físico quanto biológico, ao se considerar a porcentagem de água existente nos seres vivos e como ela circula, permanentemente, ao longo da vida, e o ciclo de O² e CO², que inclui a necessidade de um para se produzir o outro. Há, entretanto, uma ligeira diferença da abordagem ecológica, que, por mais que tenha admitido a ideia nuclear de cadeia, não entrelaça os conceitos que a compõem, ao passo que o princípio recursivo sugere
[...] um grande Plurianel ou Anel uniplural constituído de grandes ciclos, cadeias, anéis formados por miríades de minianéis inter-retroativos. Por isso,
cada momento de um ciclo constitui, ao mesmo tempo, o momento de um ou vários outros, no qual desempenha papéis diferentes, ou mesmo opostos.
Mas todos se inserem num grande policircuito de degenerescência/regeneração, desorganização/reorganização, do qual são os coprodutores e os coproduzidos [...] O Plurianel é, portanto, um extraordinário turnover de nascimentos, vidas, mortes, destruindo-se e engendrando-se uns nos outros. Esse turbilhão é o próprio ser da eco- organização. (MORIN, 2005c, p. 45-46).
As sociedades também se organizam de modo recursivo ao longo da história do homem, quando resistem à barbárie dominadora, violenta e desumanizadora, lutam pela sobrevivência humana, de maneira conservadora e, ao mesmo tempo, de modo revolucionário, em busca do progresso, o que constitui um “[...] vínculo recursivo dialógico entre resistência, conservação e revolução.” (MORIN, 2003, p. 102). Até mesmo individualmente, a prática recursiva de autorreflexão permite avaliar as próprias avaliações, críticas e julgamentos, o que favorece o delineamento de um circuito inter-retro-ativo contestador das próprias ideias (id., 2017a). Do ponto de vista ético, o princípio recursivo submete a consciência a um processo de aceitação de si em relação à própria agressividade e àquela dirigida ao outro, contexto originado pela condição inter-retroativa do conflito, que, segundo esse autor, poderia ser tratada por uma pedagogia que consideraria a compreensão, ligada à explicação, como uma compreensão.
Os princípios dialógico e recursivo não existem isoladamente, assim como o terceiro operador do pensamento complexo, que se liga aos outros dois (MORIN, 2015).
Hologramático
Da mesma forma que o princípio dialógico considera a complementaridade das diferenças, o princípio hologramático proposto no pensamento complexo reconhece essa “[...] unidade dentro do diverso, o diverso dentro da unidade, [...] por exemplo, a unidade humana em meio às diversidades individuais e culturais e as diversidades individuais e culturais em meio à unidade humana.” (MORIN, 2008, p. 25).
Analogamente a um holograma físico, formado por diversos pontos de imagem, em que cada um deles traz consigo informações do objeto que representará, o princípio hologramático ultrapassa a noção reducionista, que enfatiza a parte e a ideia holística, que destaca somente o todo, para aceitar a totalidade existente em cada elemento, assim como as partes que compõem essa totalidade (MORIN, 2015). A sociedade, como um todo, invade a unidade humana desde o início da infância, por meio de costumes, regras, aprendizagens sociais e culturais, que incluem a linguagem, e estabelece uma inter-relação que tanto constitui o grupo social quanto a si mesmo, como parte.
Nessa visão, é impossível qualquer conhecimento isolado de um todo, o que resgata, novamente, a noção de que olhar o objeto de forma a excluir o sujeito que olha e sua condição de parte e todo, ao mesmo tempo, não dá conta da complexidade existente no fenômeno, e resulta na busca por um metaponto de vista, que integre o observador tanto na observação quanto na concepção do saber (MORIN, 2015).
Referindo-se a Montaigne, esse autor identifica similitudes com o princípio hologramático, afirmando que todas as pessoas trazem consigo a condição humana em sua totalidade, sem perder o caráter unitário e integrante da humanidade (MORIN, 2012). A complexidade do ser humano é, também dessa forma, revelada, visto que ele é,
[...] ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural. O cérebro, por meio do qual pensamos, a boca, pela qual falamos, a mão, com a qual escrevemos, são órgãos totalmente biológicos e, ao mesmo tempo, totalmente culturais. O que há de mais biológico – o sexo, o nascimento, a morte – é, também, o que há de mais impregnado de cultura. Nossas atividades biológicas mais elementares – comer, beber, defecar – estão estreitamente ligadas a normas, proibições, valores, símbolos, mitos, ritos, ou seja, ao que há de mais especificamente cultural; nossas atividades mais culturais – falar, cantar, dançar, amar, meditar - põem em movimento nossos corpos, nossos órgãos; portanto, o cérebro. A partir daí, o conceito de
homem tem dupla entrada: uma entrada biofísica, uma entrada psicossociocultural; duas entradas que remetem uma à outra.” (MORIN, 2008, p. 40-41).
Esse princípio evidencia a complexidade das organizações ao perceber que o todo se faz com as partes, da mesma forma que está inserido nelas, por exemplo, ao se identificar toda a carga genética existente em cada célula do indivíduo e toda bagagem social também ,presente nele, por meio de sua cultura, leis, meios de comunicação (MORIN, 2008, 2015). Nesse sentido, “[...] o todo tem uma quantidade de propriedades e qualidades que não têm as partes quando estão separadas”, e ocupa um importante lugar a organização que une os elementos distintos, vinculados e engrenados (MORIN, 1996, p. 278). Para caracterizar essa condição, tem-se que
Uma bactéria possui qualidades, propriedades de autoreprodução, de movimento, de alimentação, de auto-reparação que de nenhum modo têm, isoladamente, as macromoléculas que a constituem. Podemos chamar de emergentes a essas qualidades que nascem no nível do todo [...] essas qualidades emergentes podem retroagir sobre as partes. O todo, portanto, é mais que a soma das partes. Mas, ao mesmo tempo, é menos [...] porque a organização de um todo impõe constrições e inibições às partes que o formam, que já não têm tal liberdade. Uma organização social impõe suas leis, tabus e proibições aos indivíduos, que não podem fazer tudo o que quiserem. Ou seja, o todo é, ao mesmo tempo, mais e menos que a soma das partes. (MORIN, 1996, p. 278).
No pensamento complexo proposto por Morin (2008, p. 77) há um diálogo, uma interação entre essas noções antagonistas e complementares, que inclui, ao mesmo tempo, partes e todo integrados, e gera uma consciência apta a lidar com as complexidades, com a compreensão da “[...] causalidade mútua inter-relacionada, a causalidade circular (retroativa, recursiva), as incertezas da causalidade [...]”, já que causas semelhantes podem produzir efeitos diferentes, do mesmo modo que os mesmos efeitos podem ser produzidos por causas diferentes. Os conceitos apresentados a seguir compõem, juntamente com os princípios operadores, uma forma complexa de organizar o pensamento, chamados de complexos imaginários, oriundos e pertencentes tanto na imaginação, quanto completamente imersos na vida do sujeito (MORIN, 2003).