Capítulo III Fundamentação Metodológica
2. Opções Pedagógicas para a Intervenção Educativa
2.1. Princípios Orientadores do Modelo Curricular HighScope
O modelo curricular HighScope caracteriza-se pela sua perspetiva desenvolvimentista, inspirada pelas teorias de Piaget, tendo sido iniciado em 1960 pelo psicólogo David P. Weikart (Oliveira-Formosinho, 2007b).
Na perspetiva de Weikart (1995, citado por Hohmann Weikart, 2009) o potencial da aprendizagem está na criança, facto que justifica o centro das didáticas na aprendizagem pela ação.
Hohmann e Weikart (2009) referem que, o modelo HighScope privilegia a aprendizagem pela ação, pois é recorrendo a ela que as crianças aprendem a viver
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Surgiu nos anos sessenta, em Ypsilanti (Michigan, USA), sob a orientação de David P. Weikart, com base na obra de Jean Piaget e John Dewey e no trabalho de Lev Vygotsky.
experiências diretas e imediatas, a raciocinar para delas retirar significados e assim construírem o seu próprio conhecimento do mundo. As crianças constroem o seu próprio conhecimento a partir da sua motivação intrínseca, e das questões que formulam quando confrontadas com uma situação ou algo que lhes suscite curiosidade. Dessa curiosidade surge a necessidade de explorar para descobrir respostas. As crianças tornam-se assim agentes ativos da sua própria aprendizagem.
Este modelo considera que as crianças aprendem mais através da interação com as pessoas e com os materiais que existem à sua disposição.
Na opinião de Hohmann e Weikart (2009), as crianças
agem no seu desejo inato de explorar; colocam questões sobre pessoas, materiais, acontecimentos e ideias que lhes provocam curiosidade e procuram as respostas; resolvem problemas que interferem com os seus objetivos; e criam novas estratégias para porem em prática (p. 5).
Os defensores do HighScope, disseminam que a função do adulto é apoiar e encorajar as crianças utilizando desafios e atividades que integram a aprendizagem pela ação (Hohmann Weikart, 2009). Neste modelo, o educador desenvolve e proporciona uma aprendizagem ativa, na medida em que dá oportunidade à criança de aprender através da sua própria ação sobre os objetos e da sua interação com as pessoas.
Hohmann e Weikart (2009) reforçam que a aprendizagem pela ação depende das interações positivas que se estabelecem entre os adultos e as crianças, em que os adultos são apoiantes/auxiliadores do desenvolvimento da criança. Os adultos deverão estar presentes nas conversas e brincadeiras das crianças, observando, orientando e interagindo com elas para descobrir como pensam e raciocinam. A partilha, entre o adulto e as crianças, permitirá que o adulto mantenha a função de moderador das suas aprendizagens, possibilitando que estas se tornem autónomas e confiem em si próprias e nos outros. Compete ao educador proporcionar atividades que propiciem estas experiências, muito importantes do ponto de vista do desenvolvimento da criança, reconhecê-las quando ocorrem, apoiar e usufruir dessas práticas para construir saberes (Ibid.). Contudo, Oliveira-Formosinho (2007b) salienta que o currículo HighScope não se baseia na diretividade e estruturação, mas muito menos na desestruturação total impulsionada por acessos de energia
momentâneos das crianças. Assim, num contexto educacional HighScope, a estruturação da situação ocorre dos contributos dos adultos e das crianças.
Cabe aos adultos reconhecer os interesses e capacidades do grupo, oferecer-lhes apoio e colocar-lhes desafios (Hohmann Weikart, 2009). Depois incumbe a cada criança, ser competente e capaz de construir o seu próprio conhecimento através da ação, descobrindo o caminho autonomamente.
O HighScope sustenta que o educador também deve proporcionar à criança um ambiente físico estimulante para trabalhar e brincar, e uma rotina diária consistente. Segundo Formosinho (1996) a disposição do espaço por áreas e a arrumação dos materiais nessas mesmas áreas são a primeira forma de intervenção do educador ao nível do currículo HighScope. Desta forma, é possível que a criança explore o Mundo de diferentes pontos de vista, fazendo dessa prática uma aprendizagem ativa. Os educadores que seguem esta metodologia, ou que acreditam neste princípio de organização de espaço, dividem a sala de atividades em áreas de interesses específicos, nomeadamente, área da pintura, área da casinha, área dos jogos, entre outras. E a organização de um espaço precisa de materiais de aprendizagem interessantes e diversificados, pois sem estes não é possível criar oportunidades e desafios à criança. É importante que esses materiais estejam organizados e guardados de forma visível e acessível. Quando a criança termina a tarefa/atividade, arruma devidamente os materiais que utilizou. Relativamente aos espaços, devem estar estruturados em áreas de interesse bem identificadas, flexíveis para que a criança os possa usar de maneiras diferentes, descobrindo formas alternativas de os manipular e brincar com eles (Hohmann Weikart, 2009).
Na perspetiva de Formosinho, Spodek, Brown, Lino e Niza (1996), a organização do espaço e dos materiais, numa sala com metodologia HighScope, deve cumprir alguns requisitos (ver quadro 2).
Quadro 2 - Organização do espaço e dos materiais numa sala com metodologia HighScope
Espaço - Amplo para incluir os materiais e equipamentos necessários. Áreas - A sala deverá ser dividida em diferentes áreas indefinidas
deixando espaço central para movimentação entre áreas;
- No início do ano devem-se definir quatro ou cinco áreas: a área da casa, área dos livros e/ou jogos calmos, área dos blocos e construção e a área da plástica. Mais tarde outras áreas surgirão; - O educador deve atribuir nomes às áreas, que sejam percetíveis pela criança e que reflitam o que nelas existe;
- Ter em consideração os níveis de desenvolvimento, interesses e cultura da criança;
- As áreas deverão ser aumentadas ou reformuladas para fornecer novas experiências às crianças;
- Distanciar as áreas mais calmas das mais movimentadas;
- As áreas da biblioteca/leitura e da plástica deverão estar próximas de locais com luminosidade.
Materiais - Ter materiais de tamanho real (jogo simbólico) e ordená-los por categorias;
- Os materiais deverão refletir a ordem natural dos níveis de desenvolvimento das crianças;
- Usar materiais de desperdício;
- A criança deve ter um símbolo para os seus materiais e trabalhos.
Hohman, Banet e Weikart (1995) entendem que preparar o espaço e os materiais e desenvolver um ambiente de aprendizagem interativa é garantir igualdade de oportunidades para a criança. Dar resposta aos interesses e necessidades educativas das crianças, promover situações e oportunidades de escolha de liderança, desenvolver oportunidades de expressão individual da criança e incrementar situações de socialização são os princípios mais importantes da metodologia HighScope.
A rotina é constituída por atividades individuais mas também por tarefas desenvolvidas em pequeno e em grande grupo que possibilitam que haja interação e cooperação entre as crianças (Oliveira-Formosinho, 1998). As rotinas diárias resultam de um planeamento prévio e refletido do educador e preveem o desenvolvimento de uma aprendizagem ativa e participativa das crianças (Hohmann Weikart, 2009).
Proporcionar uma aprendizagem ativa às crianças da Sala Azul sempre foi o objetivo principal e consideramos que o modelo HighScope foi a opção mais correta para alcançar essa meta. Mas a nossa intervenção pedagógica, simultaneamente com este modelo, também utilizou e desenvolveu algumas metodologias que permitiram complementar e consolidar a nossa prática.