Desenvolvimento do Projeto Educativo
1. Princípios Orientadores do Projeto Educativo
O projeto, designado por Reciclagem de Memórias, inseriu-se na necessidade de desenvolver estratégias de educação não-formal de adultos para um público específico. Pretendeu-se, com este projeto, que os educandos, através de uma reflexão pessoal e conjunta, entendessem a importância das suas memórias na construção da sua própria identidade e na valorização da sua autoestima.
A evolução do projeto passou pela realização de várias atividades ao longo de um ano letivo, em parceria com a comunidade onde a instituição de acolhimento se insere. Como princípios orientadores definimos os seguintes:
Conhecer o perfil dos formandos;
Assegurar aos educandos oportunidades de reflexão; Criar um ambiente educativo agradável;
Identificar os métodos e estratégias que melhores resultados permitam, tendo em conta a problemática do grupo;
Conhecer a opinião dos educandos em relação às atividades desenvolvidas; Perceber se o projeto contribuiu para uma reflexão sobre o Cinema;
Estabelecer parcerias com outras entidades;
Criar um elo inovador entre a comunidade Terapêutica do Azinheiro e o exterior; Definir a profissão em contexto institucional.
60 2. Pertinência da Intervenção / Investigação
Enaltecemos a utilidade da presente investigação por diversos motivos, baseamo- nos nas premissas que postulam que: i) para uma pessoa evoluir deve estar bem consigo própria; ii) as estratégias educativas devem ser adaptadas a realidade atual; e iii) a educação popular deve ser valorizada.
O primeiro ponto consiste na ideia de que para uma pessoa evoluir deve estar bem consigo própria e deve ter e manter uma autoestima positiva. Problemas de autoestima estão enlaçados com diversas dificuldades ou patologias psicológicas, como os complexos, a depressão, a toxicodependência ou o narcisismo (Rojas, 2007). A autoestima só é estimulada e desenvolvida através dos atos: “os pequenos êxitos do dia-a-dia são necessários ao nosso equilíbrio psicológico” (André & Lelord, 2000, p.24).
O apoio educativo pode ser visto como uma estratégia de promoção da autoestima. Ao fornecer apoio educativo, tem que se levar em conta as experiências passadas das pessoas, as suas expetativas para o futuro e a clarificação/pertinência dos discursos e técnicas as utilizados, pois o apoio educativo tem sempre um impacto.
Marujo (2000, citada por Monteiro, 2009) refere que as trajetórias de vida são definidas pelas relações interpessoais do sujeito, sendo que estas assumem extrema importância no processo de desenvolvimento do indivíduo em diversos níveis, inclusive na autoestima. Ao assumirmos as experiências sociais como partes essenciais das estratégias de promoção da autoestima, demos relevo ao conceito de resiliência, por considerarmos que este teve que ser levado em conta antes, durante e após a ação educativa. A resiliência, processo cujo nome foi adotado da física por se referir à propriedade de um material para recuperar a sua forma original após sofrer deformação, é um processo importante para a recuperação da autoestima, após um fator ou evento de risco, como é a toxicodependência. Nas palavras de Poletto e Koller (2008, p. 408), do ponto de vista psicológico o conceito é definido da seguinte forma:
Resiliência é um conceito multifacetado, contextual e dinâmico (Masten, 2001), no qual os fatores de proteção têm a função de interagir com os eventos de vida e
61 acionar processos que possibilitem incrementar a adaptação e a saúde emocional. Rutter (1999) pondera que resiliência não é uma característica ou traço individual, mas processos psicológicos que devem ser cuidadosamente examinados. Resiliência não é uma característica fixa, ou um produto; pode ser desencadeada e desaparecer em determinados momentos da vida. (…) Neste sentido, a resiliência é entendida (...) a partir da interação dinâmica existente entre as características individuais e a complexidade do contexto ecológico.
Werner (2000) afirma que para se considerar a resiliência tem que se ter em conta os fatores de risco e de proteção ecológicos.
Em relação ao contexto ecológico, damos relevo à sua importância ao referirmos Hegel (1973, citado por Dubar, 1997) que dá enfoque ao reconhecimento recíproco: a socialização dá origem a um saber de duplo sentido. O reconhecimento recíproco é um processo social que acontece pela reconciliação de um conflito anterior, e entende que a identidade do self só é possível através do reconhecimento do outro. Por exemplo: os laços criados nas diversas situações de vida/aprendizagem fazem com que a própria pessoa conheça algo novo, pelo que o outro conhece dela, através do que esta conhece de si própria e através de como esta reage com o outro.
A comunicação é um instrumento forte para a promoção da autoestima. Segundo Cronen (1995, citado por Marujo & Neto, 2010) o estilo de vida de um sujeito é criado, recriado e mantido através da comunicação, e é através desta que é socialmente construída a sua identidade. O estudo de Marujo e Neto (2010) serve para afirmar que o poder da linguagem se baseia na possibilidade de se poder utilizar diferentes maneiras de descrever pessoas ou fenómenos, permitindo, dessa forma, trabalhar o discurso e verificar, através de uma análise, que existem formas mais positivas de abordagem através de palavras que enaltecem a pessoa, ou negativas através de palavras que degradem a autoimagem da pessoa:
A relevância da forma de colocar questões – também já abordada por Paulo Freire, que no seu livro de 1985 com Faundez nos fala em Aprender a Questionar, serve a concepção de que as conversas são transformadoras e, quando positivas e centradas no futuro, permitem uma “consciência iluminada” – porque “iluminista” – das
62 forças e virtudes individuais e sociais, e um maior poder sobre a forma de moldar o destino e transformar a realidade. (Marujo & Neto, 2010, p. 121)
As duas necessidades indispensáveis para uma autoestima positiva são a valorização emocional e a valorização da competência. O indivíduo não se satisfaz só com a concretização de uma destas necessidades, pois “ser amado e não ser admirado e estimado infantiliza” e “ser estimado sem se sentir apreciado é frustrante” (André & Lelord, 2000, p.30). Num indivíduo com uma baixa autoestima, uma decisiva promoção da autoestima dá-se através da identificação das suas causas e dos domínios de competência mais relevantes para o seu self. Esta promoção mostra-se tanto mais proveitosa quanto mais forem sentidos pelo indivíduo suporte emocional, aprovação social e realização académica (André & Lelord, 2000).
Um modo de adaptar estas estratégias à realidade é compreender que o mundo precisa de amor. De acordo com a investigação de Fredrickson (2001), as emoções positivas fortificam as aptidões sociais, físicas e intelectuais ao criarem novos recursos para o indivíduo responder a oportunidades ou a ameaças. Estimulam também a afetividade do próprio e do outro, a resiliência, e fomentam ambientes favoráveis. O autor acrescenta que enquanto as emoções consideradas positivas, como o amor, fortalecem o desejo do indivíduo se ampliar como um ser social, as emoções negativas, como o ódio, favorecem o afastamento ou o isolamento.
O amor é a emoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência. As interações recorrentes no amor ampliam e estabilizam a convivência; as interações recorrentes na agressão interferem e rompem a convivência. Por isso, a linguagem, como domínio de coordenações consensuais de conduta, não pode ter surgido na agressão, pois esta restringe a convivência, ainda que, uma vez na linguagem, ela possa ser usada na agressão (Maturana, 2002, p.22-23).
Ou seja, o autor concebe a ideia de que são as emoções que levam a pessoa a agir ou a interagir com o outro, reforçando paralelamente que o amor, por ser o responsável pelas ações que levam à explanação dos indivíduos e, consequentemente, a uma interação positiva e estável com os demais, torna-se mais necessário quanto maior for a
63 complexidade do meio onde este se insere (Maturana, 2002). Logo, “fenómenos como a globalização expõem o homem contemporâneo a um ambiente que clama por emoções positivas com uma urgência jamais vista em nenhum outro momento da evolução” (Graziano, 2005, p. 32).
O segundo ponto resvala no contexto da pós-globalização, tendo em conta o enquadramento referido no capítulo de contextualização teórica do presente relatório. Mostra-se cada vez mais necessário explorar novas estratégias de ensino não-formais e informais na área da educação de adultos, ou seja, devem ser desenvolvidas atividades mais motivadoras e apelativas para a formação de indivíduos, proporcionando aprendizagens culturais (através de práxis fílmicas, por exemplo). Logo, pretendia-se, com este projeto, que os formandos entendessem a importância, através de uma reflexão pessoal e conjunta, das suas memórias na construção da sua própria identidade e na valorização da autoestima.
Para além disso, Lima (2006) afirma que ao longo da história foram as orientações políticas vinculadas a práticas e métodos da educação popular que levaram a educação de adultos a desenvolver-se, através de associações ou coletividades populares. Porém, as políticas educativas portuguesas têm desvalorizado a educação popular de adultos pós- escolar em contexto associativo. Por acreditarmos incondicionalmente nesta ideia e prática de educação, tentámos verificar a utilidade deste projeto educativo neste contexto associativo.