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1 Dos princípios gerais do direito

1.2 Princípios trabalhistas

Para além dos princípios básicos do direito e dos princípios constitucionais, o direito do trabalho, enquanto ramo autônomo do direito, é dotado de princípios próprios que reafirmam sua independência no sistema jurídico contemporâneo. Estes princípios, juntamente com as normas positivadas, regulam as relações de trabalho e compõem o marco legal trabalhista brasileiro.

Serão abordados a seguir os princípios da proteção, o princípio da realidade e o princípio da irrenunciabilidade, todos elevados ao status de princípios especiais do direito do trabalho pela doutrina de Godinho, Bomfim e Delgado.

1.2.1 Princípio da proteção

O princípio da proteção é considerado um dos primeiros a serem revelados no Direito do Trabalho. Segundo Godinho, trata-se de uma “teia de proteção à parte hipossuficiente na relação empregatícia”, que visa atenuar o desequilíbrio existente em relação ao empregador.

Nesse sentido:

(...) o sujeito empregador age naturalmente como um ser coletivo, isto é, um agente socioeconômico cujas ações – ainda que intraempresariais – tem a natural aptidão de produzir impacto na comunidade mais ampla. Em contrapartida, no outro polo da relação inscreve-se um ser individual, identificado no trabalhador que, enquanto sujeito desse vínculo sociojurídico, não é capaz, isoladamente, de produzir, como regra, ações de impacto comunitário. (grifos próprios)23

Godinho destaca ainda que esta disparidade fática fez surgir um Direito Individual do Trabalho largamente protetivo, que se caracteriza por métodos, princípios e regras destinadas a reequilibrar a relação desigual vivenciada.

Vólia Bomfim acrescenta que este princípio se caracteriza pela intensa intervenção estatal nas relações entre empregado e empregador, limitando severamente, a autonomia da vontade entre as partes. Deste modo, enquanto legisla, o Estado também impõe regras mínimas a serem observadas pelos agentes sociais, que, por sua vez, formarão a estrutura basilar de todos os contratos de emprego24.

O princípio da proteção compreende três vertentes: o in dubio pro operario, a aplicação da norma mais favorável e a condição mais benéfica. Para Barbosa Garcia, o polo

23 DELGADO, Maurício Godinho. Princípios de Direito Individual e Coletivo do Trabalho – 4ª Ed. São Paulo: LTr, 2013, p. 78.

24 CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho – 12ª Ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2016, p. 169.

mais fraco da relação de emprego merece um tratamento jurídico superior, por meio de medidas de proteção, visando promover o equilíbrio que falta na relação de trabalho25.

Na perspectiva do in dubio pre operario, quando da interpretação de uma disposição jurídica que pode ser entendida de formas diversas, ou seja, quando houver dúvida sobre o seu alcance efetivo, deve-se interpretá-la sempre em favor do empregado. Garcia destaca que não se trata de alterar o significado da norma, mas de interpretá-la em favor do empregado quando houver dúvidas sobre sua aplicação e alcance26.

Nas lições de Garcia, a aplicação da norma mais favorável determina que, havendo diversas normas válidas incidentes sobre a relação de emprego, deve-se aplicar aquela mais benéfica ao trabalhador. É dizer, existindo mais de uma norma jurídica válida e vigente, que possam ser aplicadas a determinada situação fática, haverá prevalência daquela mais favorável ao empregado, ainda que esteja em situação hierárquica inferior no ordenamento jurídico27.

A terceira perspectiva do princípio da proteção trata da condição mais benéfica, assegurando ao empregado a manutenção, durante todo o contrato de trabalho, de direitos mais vantajosos, de forma que as vantagens adquiridas não podem ser retiradas ou modificadas para situações piores. Segundo Garcia, trata-se da aplicação do princípio do direito adquirido, previsto no art. 5º, XXXVI, da CF/88, no âmbito da relação de emprego28.

Parte da doutrina considera o princípio da proteção como o cardeal do Direito do Trabalho, por influir em toda a estrutura e características desse ramo do direito. No entanto, Bomfim ressalta que este princípio está atravessando grave crise, modificando o cenário de proteção para uma realidade de desproteção:

(...) o princípio da proteção do trabalhador, em todas as suas esferas, está atravessando grave crise, modificando o cenário do welfare state (sequer vivido pelo Brasil em sua plenitude) de excessiva proteção para uma realidade de desproteção ou de menos proteção destinada ao trabalhador29. A crise mencionada por Bomfim pode ser constatada, segundo a doutrinadora, por meio da análise da jurisprudência e súmulas dos tribunais trabalhistas brasileiros, que já não mais defendem o trabalhador como antes, permitindo, em alguns casos, a redução de seus direitos ou mesmo a alteração in pejus.

25GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Curso de Direito do Trabalho – 11ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017, p. 94.

26Idem, p. 95.

27Idem, p. 97.

28Idem, p. 98.

29 CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho – 12ª Ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2016, p. 170.

1.2.2 Princípio da primazia da realidade sobre a forma

O princípio da primazia da realidade tem por objetivo ampliar a noção civilista de que o operador jurídico deve se atentar mais à intenção dos agentes do que à forma pela qual a manifestação de vontade foi expressa.

Em outras palavras, para o direito do trabalho devem prevalecer os fatos sobre os atos formais, importando o que realmente aconteceu, mesmo que não corresponda ao que está escrito. Portanto, há prevalência da prática concreta efetivada ao longo da prestação do serviço, em detrimento inclusive do próprio contrato, já que a realidade fática pode gerar novos direitos e obrigações para as partes.30

Para Vólia Bomfim, o princípio da primazia da realidade tem o condão de proteger o trabalhador, visto que seu empregador poderia, com relativa facilidade, obrigá-lo a assinar documentos contrários aos fatos e aos seus próprios interesses31.

Para a doutrinadora, existem duas controvérsias em relação à aplicação deste princípio. A primeira emerge de fatos contrários à lei, como, por exemplo, um trabalhador que executa de fato a função de enfermeiro, mas não tem a respectiva habilitação legal. Neste caso, deve-se privilegiar a função social do direito, não permitindo o exercício ilegal da profissão.

A segunda, em situações nas quais a utilização do princípio seja contrária ao trabalhador, em que deve prevalecer o próprio princípio da proteção, não sendo, portanto, admitida a utilização de princípios que desfavoreçam a parte mais fraca da relação32.

Em que pese se tratar de um poderoso instrumento para o encontro da verdade real dos fatos, Godinho ressalta que o princípio da realidade não deve ser utilizado indiscriminadamente pelo operador jurídico, mas apenas quando o conteúdo da forma não corresponder à essência do ato.33

Entretanto, há que se considerar que em razão da disparidade de forças entre as partes, empregador e empregado, existirão situações nas quais o registro da CTPS não correspondente à realidade dos fatos, como nos casos em que o salário é registrado em valor menor do que o praticado para reduzir as verbas trabalhistas decorrentes do contrato de trabalho.

30 DELGADO, Maurício Godinho. Princípios de Direito Individual e Coletivo do Trabalho – 4ª Ed. São Paulo: LTr, 2013, p. 95.

31 CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho – 12ª Ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2016, p. 187.

32 Idem, p. 188.

33 DELGADO, Maurício Godinho. Princípios de Direito Individual e Coletivo do Trabalho – 4ª Ed. São Paulo: LTr, 2013, p. 95.

1.2.3 Princípio da indisponibilidade dos direitos trabalhistas

O princípio da indisponibilidade dos direitos trabalhistas expressa a diretriz de que, como regra geral, o empregado não poderá renunciar ou transacionar seus direitos trabalhistas, seja expressa ou tacitamente. Para Alice de Barros, este princípio é coligado com o princípio da primazia da realidade, estando vinculado à ideia de imperatividade, isto é, de indisponibilidade de direitos34.

Em razão deste princípio, a disponibilidade de direitos trabalhistas sofre limitações em face da necessidade de proteção do trabalhador, limitando-se as possibilidades de renúncia e transação de direitos35, de modo a tornar o Direito do Trabalho mais social e humano36.

Segundo Bomfim, a renúncia e a transação alcançam os direitos patrimoniais trabalhistas de caráter privado, seja antes da contratação, durante o contrato ou após a sua extinção37.

Patrimoniais são os direitos suscetíveis de serem avaliados em dinheiro, isto é, aqueles em que é possível se atribuir valoração econômica, expressão monetária. Indisponíveis são os direitos controlados pelo Estado com maior ou menos intensidade, por protegerem interesses públicos. Não derivam da autonomia da vontade da parte e sim de imposição legal feita através de normas cogentes, importas pelo Estado para tutelas algum interesse social.

Disponíveis são os direitos cujos interesses são particulares, suscetíveis de circulabilidade.38

Godinho afirma que a tradição brasileira reconhece que as parcelas de indisponibilidade absoluta, ou seja, aquelas que visam garantir um patamar civilizatório mínimo ao trabalhador, não podem ser objeto de renúncia ou transação.

Já a parcela de indisponibilidade relativa, que diz respeito aos interesses individuais ou bilaterais simples, que não caracterizam um padrão civilizatório mínimo, podem ser transacionadas, desde que as concessões recíprocas não resultem em prejuízo direto ou indireto ao empregado, sob pena de nulidades39.

Portanto, quando o objeto de negociação for de natureza privada, a transação será possível, desde que não cause prejuízo direto ou indireto ao trabalhador. Situação oposta

34 BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho – 9º Ed. São Paulo: LTr, 2013, p.146.

35 Godinho define a renúncia como “ato unilateral da parte, por modo qual ela se desfaz de um direito de que é titular, sem correspondente concessão pela parte beneficiada pela renúncia”. A transação, por sua vez, “é ato bilateral (ou plurilateral), pelo qual se acertam direitos e obrigações entre as partes acordantes, mediante concessões recíprocas (despojamento recíproco)”. RODRIGUEZ, Américo Plá.

Princípios de Direitos do Trabalho. 3ª Ed. São Paulo: LTr, 2000, p. 85.

36 BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho – 9º Ed. São Paulo: LTr, 2013, p.146.

37 CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho – 12ª Ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2016, p. 204.

38 Idem, p. 205.

39 DELGADO, Maurício Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. Tratado jurisprudencial de direito constitucional do trabalho. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013, p. 516.

ocorre com a renúncia, que sempre será considerada nula, pois, em se tratando de situação na qual o empegado renuncia a seus direitos, inevitavelmente haverá prejuízo.

Por fim, cumpre registrar que os direitos trabalhistas, originando-se de norma constitucional ou infraconstitucional, em regra, são considerados de indisponibilidade absoluta, isto é, não podem ser renunciados ou transacionados.

São, portanto, excepcionais, as possibilidades de indisponibilidade relativa no cenário trabalhista brasileiro40, à exemplo da hipótese criada com a reforma trabalhista de 2017, que inseriu o parágrafo único ao art. 444, criando a possibilidade de livre negociação entre empregado e empregador, desde que aquele seja portador de diploma de nível superior e perceba salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios previdenciários.