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A princesa que Escolhia

No documento ionesilvavilelapicoli (páginas 81-92)

3 Análise das obras de Ana Maria Machado

3.2 A princesa que Escolhia

Publicado pela primeira vez em 2006, com ilustração de Graça Aranha, o livro A Princesa que Escolhia revive o melhor dos contos de fadas, que sempre agradaram às crianças. Na análise dessa obra, vamos utilizar a edição de 2012, ilustrada por Mariana Massarini. Temos por objetivo investigar como são representadas as identidades e relações de gênero na narrativa e traremos à tona os fios tecidos pela autora na construção do processo de autonomia da personagem que dá título à obra. Ao conquistar o poder da palavra, ela tece suas escolhas e subverte o que historicamente se reservou ao perfil feminino da princesa, sempre encastelada em reinos pautados por padrões androcêntricos.

A intertextualidade com os tradicionais contos clássicos perpassa toda trama, através do texto e das imagens que, para o leitor atento, serão setas que apontarão que os fios dessa trama se ligam a outros pelo mundo, formando uma grande teia de histórias que, conforme a própria autora diz, não fazem parte de uma cabeça só:

Todas as histórias do mundo não ficam guardadas numa cabeça só, por maior que seja. Ficam é em todas as cabeças do mundo. E precisam trocar os fios pra lá e pra cá, trançar o que cada um vai tecendo. Se não, ninguém faz teia nenhuma. E num fio solto ninguém pode morar. Pra se ficar vivendo, precisa de uma teia. (MACHADO, 1984, p.51)

Nessa perspectiva, os elementos presentes nessa obra contemporânea dialogam com alguns contos de fadas clássicos. Com uma linguagem nova e um ambiente totalmente contextualizado na sociedade moderna, a narrativa traz a mesma fascinação digna dos contos de princesas tradicionais.

Como já abordamos anteriormente, esses contos atravessaram gerações e, quando acionados em nível intertextual, por grandes autores como Ana Maria Machado, ressaltam a sua importância e enorme influência ainda hoje sobre os leitores.

Nessa visita aos contos clássicos, a autora rompe com a identidade costumeira atribuída às princesas e, já no próprio título da obra, deixa cingida a preparação dos fios de tear que utilizou para construir a identidade dessa personagem. Assim, ao acrescentar ao título o verbo “escolhia”, já sinaliza que essa princesa desempenhará na trama ações de atividade, terá o “Ce(n)tro” verdadeiramente em suas mãos, contrariando a passividade peculiar às princesas tradicionais que desempenhavam o papel do “outro” em suas próprias histórias.

A Princesa que Escolhia vem, portanto, desde o início, para romper com valores ideológicos fincados na cultura patriarcal, que sempre reservou ao sujeito feminino, o segundo sexo, o “outro”, um papel secundário na sociedade. Para desempenhar esse papel, a identidade feminina foi sendo constituída sob a “teia de dominação” do homem, sendo a submissão e o silêncio as características mais trabalhadas e apreciadas. O silenciamento da voz feminina se deu em várias vertentes, da oralidade até a escrita, onde escritoras femininas só conquistaram seu espaço muito tempo após a hegemonia masculina. Silvânia Carrijo endossa essa afirmativa quando nos diz, em seu artigo intitulado O poder da palavra escolher: Autonomia do Feminino na obra A Princesa que Escolhia (2013) que:

Ao longo da história, a imposição de silêncio à voz feminina se efetivou tanto na modalidade oral, vez que à mulher seriam permitidos somente sussurros, lamentos, cantilenas, orações, quanto na modalidade escrita da linguagem, visto que durante muito tempo, no âmbito literário jornalístico e científico, o sujeito enunciador foi o sujeito masculino. (CARRIJO, 2013, p.4)

E, assim, a trama é tecida através de um processo de aprendizado em que os pais desejam que a menina aprenda a ser uma princesa e, posteriormente, uma rainha, obediente, submissa, encarregada de manter a harmonia do ambiente familiar e, para isso, deverá se alienar por completo.

A narrativa inicia-se com o encantamento do “Era uma vez”, e apresenta a personagem como uma princesinha boazinha, sempre cordata.

Ilustração nº7

O mundo encantado se abre para o leitor, porém, a voz narrativa ironicamente o desperta através de uma indagação: “Boazinha até demais, sabe? (MACHADO, 2012, p.7) retirando-o desse encantamento. A submissão que se espera da princesa é fissurada, rompida nesse momento, e, a partir de então, ela começa a discordar e expressar verbalmente suas opiniões:

Era uma vez uma princesa muito boazinha e bem comportada. Boazinha até demais, sabe? Obedecia a tudo. Concordava com todos. Uma verdadeira maria-vai-com-as-outras. Parecia até que só sabia dizer:

– Sim, senhor. Ou então: – Sim, senhora.

Dependendo de quem mandava. Ainda bem que isso não durou muito, porque senão a gente não ia ter história, ou só ia ter uma história muito chata, sem graça nenhuma. Mas a sorte é que um dia ela disse:

– Desculpe, mas acho que não.

Todo mundo se espantou muito. A mãe, que também era boazinha demais, quase desmaiou de susto. (MACHADO, 2012, p.7-8)

A herança cultural que se espera que a princesa carregue, de ser amável e boazinha, advém de um paradigma ideológico comum ao patriarcado. Esse legado cultural é muito transmitido através dos textos dos contos clássicos que espelham que as princesas boazinhas e delicadas devem ser referência para as meninas, as quais deveriam se portar dessa maneira em relação aos pais e no convívio social. Esse discurso também está presente em muitas obras voltadas para o público infantil e, assim, como preceitua Beauvoir: “a passividade que caracterizará essencialmente a mulher “feminina” é um traço que se desenvolve nela desde os primeiros anos”. (BEAUVOIR, 2009, p.375)

Nessa trama contemporânea, no entanto, vemos o despontar de um comportamento que contraria as expectativas que todos carregam em relação às princesas, caracterizado pela autonomia pleiteada pela personagem no seu direito de discordar e, dessa forma, renunciar a essa herança.

Merece nossa análise mais detalhada o fato da mãe quase ter desmaiado frente à primeira postura da filha de se pronunciar, de usar de um discurso próprio para requerer sua autonomia discursiva. A mãe era boazinha demais, ou seja, deixou-se prender à teia de dominação, pois, possivelmente, contrariar as expectativas que todos tinham não foi possível para ela. Quando lhe é atribuída a educação de uma filha, essa mãe, presa aos costumes, referenda a doxa. Pierre Bourdieu (2015) ressalta essa cadeia de transmissão de costumes através do sujeito feminino, quando destaca:

E as próprias mulheres aplicam a toda realidade e, particularmente, às relações de poder em que se veem envolvidas esquemas de pensamento que são produto da incorporação dessas relações de poder e que se expressam nas oposições fundantes da ordem simbólica. Por conseguinte, seus atos de conhecimento são, exatamente por isso, atos de reconhecimento prático, de adesão dóxica, crença que não tem que se pensar e se afirmar como tal e que “faz”, de certo modo, a violência simbólica que ela sofre. (BOURDIEU, 2015, p.45)

A incorporação e a reprodução dessas relações de poder podem nos levar a algumas reflexões sobre o porquê do sujeito feminino, embora vítima dessa dominação, continuar a transmiti-la, e elegemos o pensamento de Simone Beauvoir para representar uma das possibilidades de justificativa:

as mulheres, quando se lhes confia uma menina, buscam, com um zelo em que a arrogância se mistura ao rancor, transformá-la em uma mulher semelhante a si próprias. E até uma mãe generosa que deseja sinceramente o bem da criança pensará em geral que é mais prudente fazer dela uma “mulher de verdade” porquanto assim é que a sociedade a acolherá mais facilmente. (BEAUVOIR, 2009, p.377)

A tecitura da narrativa segue, descortinando ao leitor o contexto falocêntrico que cercava a princesa. A figura de seu pai, o rei, referenda todo o discurso da ótica binária e excludente dos papéis de gênero masculino e feminino: “Ele era do tipo que achava que príncipe serve para andar a cavalo, enfrentar gigantes e matar dragões, mas que princesa só serve para ficar aprendendo a ser linda e boazinha, enquanto seu príncipe não vem”. (MACHADO, 2012, p.8)

Assim, tendo sua autoridade ameaçada pelo discordar da filha, sua tentativa de silenciá-la será através do castigo. O ato de castigar para manter a submissão da filha é atribuído ao pai, uma vez que, como o chefe da família tradicional, tem o dever de manter, conforme apregoa Bourdieu (2015), os ”bens simbólicos” familiares. Para o autor, a reprodução dessa dominação masculina é feita por meios fortes de estruturas, sendo o tripé Escola x Igreja x Família uma orquestra perfeita para entoar esse discurso.

O rei, então, para silenciar a princesa, a manda para uma torre. Nesse momento a ilustração nº8 apresenta uma desproporção entre os personagens. O rei ocupa quase toda a página, demonstrando sua superioridade, sua força de chefe da família, em relação as demais personagens. A desproporção ocorre inclusive em relação à rainha, que, embora seja o outro adulto da cena, apresenta-se tão pequena quanto à princesa. No desenrolar da narrativa, quando o direito de exercer suas escolhas vem sendo conquistado pela protagonista, essa desproporção de tamanho, entre os personagens, vai desaparecendo.

Ilustração nº8

(MACHADO, 2012, p.8-9)

Surpreendentemente, porém, a princesa aproveita seu isolamento na torre para se aperfeiçoar, estudar, olhar pela janela para além do castelo, subvertendo os papéis que são desempenhados pelas princesas nos contos clássicos, que assumem a postura de vítima e ficam inertes à espera do príncipe salvador. A Princesa que Escolhia assume uma atitude diferente, emancipada e, através dos conhecimentos adquiridos, salva a si própria.

O olhar pela janela da torre permitiu que ela contemplasse as maravilhas além dos muros do castelo, ou seja, transcender, ampliar seus horizontes. Durante o castigo brincava também com os amigos no jardim, assistia televisão – e “a maior das maravilhas” (MACHADO, 2012, p.15): ia muito à biblioteca, onde fazia pesquisas na internet, trocava suas leituras com os empregados e os filhos deles (um menino e uma menina), fortalecendo sempre sua opção por poder escolher. E, juntando os fios da história com os seus, vai construindo sua identidade.

Ilustração nº9 Ilustração nº10

Quando recebia a visita da rainha, na torre, a mãe sempre lhe perguntava:

– Como é minha filha? Vai tomar jeito? Resolveu ser boazinha e dizer sempre sim?

– Ai, minha mãe! – suspirava a princesa. – Não dá, mesmo. Eu quero é poder escolher sempre...

– Escolher? Como assim?

– Só quando a gente pode dizer não é que tem graça dizer sim. (MACHADO, 2012, p.16)

Na narrativa, esse castigo é, portanto, caracterizado como algo positivo, a torre como lócus de libertação e não aprisionamento, como o era no conto clássico Rapunzel. Esse momento será aproveitado para mudar o rumo da história, e a autora deixa clara a mensagem da importância do conhecimento para isso. Nos contos tradicionais, a reclusão da princesa a aprisiona dentro de sua própria história, enrola-a em fios que a impossibilitam de agir, fazer a história acontecer e, assim, ela, submissa nessa relação de poder, entrega ao príncipe forte e destemido o “Ce(n)tro” de sua própria narrativa.

Ana Maria Machado, quando puxa esse fio da história, não envereda por esse caminho e estende para sua princesa outro fio. Esse irá conduzir a princesa pelo caminho de sua emancipação enquanto sujeito feminino, como se pode notar no seguinte fragmento:

Foi a maior sorte da vida da princesa. Porque essa torre ficava bem isolada do resto do castelo. Na verdade, eram os antigos aposentos de um mago que saíra para viajar e nunca mais voltou. Tinha uma biblioteca aonde quase ninguém ia. [...] A maior das maravilhas. Tinha um monte de livros e computador com acesso à internet. E ela lia, lia, sem parar. (MACHADO, 2012, p.11-15)

Vislumbrada a oportunidade de aquisição do saber, a princesinha, ambientada num conto moderno, utiliza de todos os meios disponíveis para isso: livros, internet, convivência com outras pessoas, de ambos os sexos. E esse conhecimento adquirido se mostra extremamente decisivo para a construção de subjetividades próprias da sua identidade feminina. Através desses conhecimentos adquiridos, ela descobre a cura para uma epidemia que assolava o reino, salvando não somente o reinado de seu pai, mas também a si mesma.

– Mosquito! Disse a menina O rei ficou espantadíssimo.

Mas a princesinha desatou a falar. Contou que aquela febre era transmitida por um mosquito, que as larvas do inseto nasciam na água, que era preciso fazer uma campanha de saneamento e ensinar uma porção de coisas à população. Explicou também que o reino precisava de obras para ter esgoto e

água limpa em todas as casas. E que as pessoas deviam se vacinar. E que havia um cientista famoso que conhecia tudo daquela doença, podiam contratá-lo para ajudar. (MACHADO, 2012, p.19-20)

O rei, agradecido por sua filha tê-lo ajudado a salvar o reino, dá a ela o direito de ganhar um lindo presente, sugerido pela rainha, que, obviamente, pensou numa linda coroa. Porém, a princesa, tecendo sua própria identidade, elege nesse momento, como um elemento fundamental para isso, o poder de escolher: “Então descobriram que o que ela queria de recompensa era o poder de escolher. Escolher tudo. Poder dizer sim ou não, sempre.” (MACHADO, 2012, p.22)

Conquistado o direito de ser sujeito de seu desejo, ela passa a escolher tudo: ir à escola, que filme assistir... e começa-se a negociar as escolhas entre os componentes familiares. Quando a escolha era falar um não, ela não hesitava, reiterando sua conduta autônoma. Assim foi na escola:

Quando no colégio uns amigos começaram a fumar e ofereceram a ela, a princesa disse:

– Não, não quero.

– Experimenta, deixa de ser boba. Que é que tem? Todo mundo fuma... Mas ela já tinha a maior prática:

– Não, não quero. Não preciso ser igual a todo mundo. (MACHADO, 2012, p.25)

Nos primeiros desenhos, na capa e nas páginas iniciais, a princesa desse conto assemelha-se à imagem de Rapunzel, apresentando cabelos longos. Através das imagens, podemos perceber o quanto era incômodo, o quanto limitava sua liberdade esse cabelão: na hora de brincar, assistir TV com os amigos, lanchar com a mãe, enfim, em todos os momentos. Assim como a princesa Rapunzel, que tem os cabelos cortados quando são descobertos seus encontros com o príncipe, a Princesa que Escolhia também aparece com seus cabelos curtos. Não há texto explicando ao leitor essa transformação da princesa na narrativa. Porém, ela aparece com os cabelos curtos no momento em que o rei reconhece a autonomia da filha e lhe concede o poder de escolher (ilustração nº11). Diferentemente do personagem bíblico Sansão, que perde suas forças ao ter seus cabelos cortados, a princesinha ganha força com o direito de escolher recém- conquistado.

Ilustração nº11

(MACHADO, 2012, p.22-3)

E, assim, a princesa foi crescendo, entre sim e não, empoderando-se. No entanto, seus pais decidiram, quando já estava adulta, que estava na idade certa para se casar. Decidem, então, dar um baile, como um ritual de passagem, que representa simbolicamente a transição para a idade adulta, quando, tradicionalmente, ela deveria se casar.

A mãe, a essa altura já acostumada com a autonomia da filha, tenta convencê-la de que, ao poder escolher o príncipe, esse direito está sendo respeitado. O rei, tentando manter a tradição familiar, ou seja, sua própria vontade, sugere que ao deixá-la escolher o marido estava demonstrando toda sua modernidade:

– Assim você vai poder escolher seu marido... – disse a rainha, toda satisfeita. – Isso mesmo – disse o rei. – Viu como eu sou moderno? Eu deixo você escolher. (MACHADO, 2012, p.26)

No dia do grande baile, a princesa fez o que todos esperavam dela: dançou, sorriu educadamente para todos os pretendentes, foi encantadora e muitos se apaixonaram pela inteligência daquela princesa que tinha tantos assuntos. E apaixonados, vários príncipes voltaram ao reino para pedi-la em casamento. Ante o discurso que usavam para seduzi-la, ela ia escolhendo ou, entrelaçando os fios das histórias, encaminhava-os a outras princesas casadoiras:

CANDIDATO CARACTERÍSTICAS SUGESTÃO

Gosto por escalar montanhas, subir em paredes.

Sabe aquele deserto assim, naquele lugar assim assado? Pois lá tem uma torre enorme, com umas tranças penduradas, ótimas de escalar. E ele encontrou Rapunzel.

Interessava-se sobre criação de gado, fabricação de couro e exportação de calçados.

Ela achou que ele devia ser bom para experimentar sapatinhos e escolheu uma boa noiva para ele, e daí apouco tempo estava casado com uma tal de Cinderela.

Muito íntimo, gostava de contar piadas e dar

palmadinhas nas costas dos ministros.

A princesa achou que ele devia ser ótimo para desengasgar quem estivesse com maçãs entaladas e escolheu a noiva dele. Logo após ele se casou com Branca de Neve

Muito falante e barulhento Era o marido ideal para outra princesa, coitada, que esperava havia tantos anos, esquecida de todos, dentro de um bosque cheio de espinhos: A Bela Adormecida.

Tabela encontrada em O Poder da Palavra Escolher: Autonomia do Feminino na obra A Princesa que

Escolhia, de Silvana Augusta Barbosa Carrijo. (CARRIJO, 2013, p.7)

Na análise do discurso acima utilizado pela princesa, percebemos o humor da autora ao construí-lo. Num primeiro contato, achamos engraçados os critérios utilizados pela personagem, no direcionamento de cada príncipe à sua princesa ideal. As crianças também se divertirão com essa passagem, porém, sutilmente, Ana Maria Machado utiliza-se desse humor para nos fazer refletir sobre as escolhas dos maridos, que, por muito tempo, foram arranjados para as mulheres. Na construção do discurso da Princesa que Escolhia, encontramos um texto recheado por um grande vazio, ele não apresenta argumentos que realmente possam convencer de que os atributos do candidato o tornem ideal para determinada princesa. Esse discurso vazio de argumentos possivelmente foi utilizado por muitos chefes de famílias para justificar a escolha do marido ideal para suas filhas.

Esse mesmo humor refinado, utilizado pela escritora, também pode ser percebido quando ela faz um trocadilho com as palavras: príncipe e precipício na seguinte passagem: “Isso não era um príncipe, era um abismo, um principício.” (MACHADO, 2012, p.32). O trocadilho aparece também no final da narrativa com príncipe e princípio. Quando perguntam se a princesa não havia se arrependido de não ter se casado com um príncipe, ela responde: “De jeito nenhum. Eu tenho o que sempre quis. Sei que não escolhi um príncipe. Mas acho que escolhi um princípio. Só um jeito de começar.” (MACHADO, 2012, p.38)

E a princesa continuou escolhendo, e, como não encontra entre os pretendentes nenhum que atendia ao perfil desejado, acaba escolhendo não se casar. O adiamento do matrimônio para investir em sua formação intelectual é mais uma quebra de paradigma quanto à proposta tradicional dos contos de fadas.

Na contemporaneidade, muitas mulheres já se libertaram do poder econômico masculino, inclusive no casamento. Esperar por um príncipe encantado para conduzir e prover sua vida financeira através do casamento não faz mais sentido. Quando a princesa opta pela qualificação profissional antes do casamento, demonstra que pretende ter um trabalho, e deixa transparecer que conhece bem os fios que deve usar para construir sua autonomia. Entendemos que o trabalho remunerado feminino foi decisivo para questionar a legitimidade da dominação masculina, como nos diz Beauvoir:

Foi pelo trabalho que a mulher cobriu em grande parte a distância que a separava do homem; só o trabalho pode assegurar-lhe uma liberdade concreta. Desde que ela deixe de ser um parasita, o sistema baseado em sua dependência desmorona; entre o universo e ela não há mais necessidade de um mediador masculino. (BEAUVOIR, 2009, p.879)

Então, nossa princesa moderna decide estudar, viajar, ir para a universidade, enfim, conhecer o mundo, diversas culturas e pessoas:

Estudou, viajou, aprendeu um monte de coisas. Foi para a universidade e virou arquiteta. Depois, resolveu estudar ainda mais, umas coisas de nome comprido: urbanismo e habitação popular. Quer dizer, como fazer uma cidade funcionar melhor e como fazer casas baratas para as pessoas. (MACHADO, 2012, p.5)

Ao se aventurar pelo mundo, foi tecendo sua identidade, no encontro de seus fios com os múltiplos fios de outras pessoas e culturas. Ao optar por construir a identidade da princesa contemporânea dessa forma, Ana Maria Machado confirma o pensamento de Stuart Hall em sua assertiva: “A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia”. O teórico argumenta que: “à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades, possíveis.” (HALL, 2000, p.13). E, nesse confronto das múltiplas identidades, a princesa foi rompendo definitivamente com a teia de dominação que a cercava e utilizando dos fios necessários à sua(s) identidade(s).

É num lugar impensável para uma princesa que a personagem encontra seu príncipe encantado, ou melhor, um velho amigo encantado. Aquele lá de sua infância, o

filho do jardineiro, com quem brincava e falava de suas leituras preferidas, enquanto estava de castigo na torre. E, então, foi esse amigo de infância e colega da universidade

No documento ionesilvavilelapicoli (páginas 81-92)