Capítulo 3 – Referencial teórico
3.2. Principais conceitos abordados neste trabalho
Bruner (1997), a partir de uma perspectiva Histórico-Cultural, refere-se ao caráter inato do homem de decodificar significados, dado que ele possui um sistema biológico preparado para utilizar o sistema de sinais como interpretante. Este autor menciona algumas transformações pelas quais os humanos passaram, ao longo da história evolutiva, para possuir hoje esta capacidade de construir e ser construído socialmente. Desde as mudanças biológicas, como a postura bípede, aquisição do
50 polegar, aumento do tamanho do cérebro, às mudanças culturais, o homem possui um sistema cognitivo preparado para significar a si mesmo e tudo o que o cerca, agindo, assim, de acordo com suas interpretações.
A cultura é um elemento de importante participação neste processo de construção de significados, isto porque, embora nós tenhamos uma predisposição “inata” e primitiva para a organização narrativa, a cultura logo nos equipa com novos poderes de narração, através do seu conjunto de ferramentas e da sua tradição de contar histórias. A prática e o discurso são culturalmente interligados (Bruner, 1997).
Esta produção de significados se dá, na maioria das vezes, através das narrativas. É a nossa narrativa que nos estrutura, organiza e esquematiza nossas experiências. Bruner (1997) diz que, se não fôssemos capazes de narrar, estaríamos perdidos numa grande experiência caótica.
Dessa forma, ao considerarmos a importância que a interpretação tem para a construção dos significados, podemos entender que estes são subjetivos, pessoais e intransferíveis. Para complementar a compreensão sobre a formação das nossas narrativas, Bruner (1997) usa dois conceitos fundamentais: o canônico e a ruptura do canônico. O canônico compreende, segundo este autor, tudo aquilo que está incluído na norma, no padrão, no socialmente compreensível. Então, por consequência, a ruptura do canônico ocorre quando vivemos e narramos algo fora do esperado, desviante da norma. Assim, neste momento, nossa narrativa contém a função de incluir a excepcionalidade, amenizando as angústias sentidas causadas pela ruptura. Uma das perguntas que guiam esta pesquisa é se a experiência da violência doméstica pode ser vivenciada pelas vítimas como uma ruptura do canônico.
Baseado na literatura e na nossa experiência em trabalho, consideramos que a violência doméstica intrafamiliar cometida contra uma criança e/ou adolescente ocorre em fase importante de desenvolvimento, dentro de relacionamentos os quais deveriam ser fontes de zelo, amor e cuidado (Werner, 2009). Diante disso, podemos compreender que o cânone referente à família é que esta seja a fonte provedora destas primeiras experiências de proteção. Indagamos, então, sobre o que acontece com as pessoas que não têm essa vivência no seu seio familiar.
É a partir desta perspectiva que o autor traz os seus conceitos de “canônico” e de “ruptura do canônico”. Para Bruner, o canônico está situado nas concordâncias estabelecidas entre o significado do que é dito e feito, e o modo como estes governam as interações entre os indivíduos e outras pessoas. Portanto, quando alguma das regras de
51 concordância entre o indivíduo e seu coletivo é quebrada, configura-se a ruptura do canônico e instalam-se processos de negociação para que o caminho habitual seja retomado.
Ao pretendermos analisar como são construídas as significações e ressignificações sobre a violência doméstica para os adultos que foram vítimas na sua infância/adolescência, usaremos das narrativas para compreender como estas pessoas constroem seus significados coerentes com os cânones estabelecidos pela cultura. Além disso, quando estes são rompidos, como elas usam também da narrativa para fazer as renegociações entre seus significados particulares e os canônes culturais, estabelecendo com isso as suas ressignificações.
A Psicologia Cultural tem, como maior veículo de produção do seu saber, a narrativa. Esta se relaciona com o material da ação e da intencionalidade humana, bem como intermedeia o mundo canônico da cultura e o mundo mais idiossincrático dos desejos, crenças e esperanças. A cultura pode até mesmo ensinar, conservar a memória ou alterar a percepção do passado. Sendo assim, uma história – seja ela factual ou imaginária – convida à reconstrução de nossas narrativas: do que aconteceu e do que poderia ter acontecido. Através destas narrativas, o sujeito vai construindo um conceito de “si-mesmo” que é definido como um produto das situações em que este sujeito participa, através da sua interação com a cultura (Bruner, 1997).
Para este autor, os estudos que abordam este conceito devem focalizar os significados de si-mesmo atribuídos tanto pelo indivíduo, como pela cultura na qual ele participa. Estes significados não são simples resultados de uma reflexão contemplativa: eles são frutos de processos constantes de significação e ressignificação.
Sobre o conceito de “si-mesmo”, Bruner (1997) afirma que este carrega consigo duas características. A primeira é a reflexividade humana: ao refletirmos sobre o passado, isso pode alterar o presente e, em contrapartida, refletir sobre o presente pode alterar as percepções sobre o passado. Nesta perspectiva, nem o passado, nem o presente permanecem fixos diante dessa reflexividade. A segunda característica é a capacidade do ser humano de visualizar alternativas, definida pela possibilidade de criar outros modos de ser, agir, engajar-se. Assim, como o autor cita, embora seja verdade que somos em certo sentido "criaturas da história", em outro sentido somos também agentes autônomos.
O “si-mesmo” atua como um constructo capaz de responder à cultural local. A cultura irá prover diretrizes que perpassarão entre a estabilidade e a mudança. Ela irá
52 endossar, negar, rechaçar, gratificar os compromissos que o si-mesmo assume. E o si- mesmo, ao usar da sua capacidade de ser reflexivo e de projetar alternativas, irá atuar de modo a evitar, adotar, reavaliar ou reformular o que a cultura oferecer (Bruner, 1997).
O autor relata que o “si-mesmo” é dotado de crenças e desejos que se referem ao passado, presente e futuro e acabam por participar da definição da personalidade e dos estilos de vida de cada um. Para o autor, as crenças e desejos acontecem dentro da subjetividade e no mundo real, sendo corporificada neste último por via dos relatos. São essas crenças particulares, construídas através da própria narrativa, que explicam, baseiam e justificam comportamentos bastante idiossincráticos.
Assim, as narrativas possuem uma função primordial na expressão e negociação das subjetividades: a função de incluir a ruptura do canônico no discurso socialmente aceito e compreensível. Para Bruner (1997), as regras e normais sociais estabelecidas pelo canônico nem sempre são claramente explicitadas; muitas vezes, há uma expectativa velada de que sejamos, pensemos e façamos de uma determinada forma. Outras vezes, estas regras são explícitas e quebrá-las significa ter que construir uma narrativa que encaixe esta excepcionalidade do canônico em algo minimamente compreensível para a sociedade e para si.
O papel da cultura é lidar simultaneamente com a canonicidade e a excepcionalidade. É transitar entre o conjunto de regras e o excepcional que emerge delas. Para poder “sair” desse conjunto de normas, a pessoa precisará lançar mão de atos interpretativos, que surgem da narrativa, para tornar compreensível a fuga desses padrões.
Portanto, quando uma pessoa se comporta de acordo com a norma, dispensam-se perguntas sobre o porquê de ter agido de tal modo. Por estar dentro do padrão da cultura, subentende-se que é uma ação óbvia. Quando se age de modo excepcional, surge a necessidade de justificativa. A pessoa recorre, então, à narrativa para atribuir, a um estado intencional a justificativa do comportamento. A intenção é tornar compreensível o afastamento do padrão.
Assim, observamos aqui que a subjetividade não se constrói isoladamente. Em vários momentos, ao narrarmos, socializamos nossa subjetividade. Esta narrativa abre para que outras subjetividades entrem em questão, tornando-se possível a construção de um espaço intersubjetivo. Entendemos por espaço intersubjetivo a comunicação entre todas essas subjetividades emergentes, ficando claro que este processo é co-construído e passível de modificação pela participação do outro social.
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3.3. Articulando alguns conceitos de Bruner com a literatura sobre