Capítulo 4. Discussão de resultados
1. Principais conclusões
A presente investigação tinha como principal propósito clarificar qual o impacto das alterações da doença crónica no autoconceito e na perceção de autoeficácia. Assim, o estudo focou-se na exploração das áreas afetadas pelo processo crónico e na identificação de mudanças ao nível do autoconceito e da perceção de autoeficácia.
Conclui-se, relativamente à doença crónica, que esta tem um impacto negativo em várias áreas de vida. O impacto da doença é uma categoria relevante, que emergiu no presente estudo, e a partir da qual se verificou que o processo crónico afeta não só o domínio orgânico e físico do doente, mas também o desempenho de tarefas e atividades, bem como o estado psicológico. Para além destas limitações, destacou-se a necessidade de lidar com a sintomatologia, de recorrer aos cuidados de saúde e realizar intervenções clínicas. Por último, uma participante (P4) referiu o impacto que a medicação prescrita para a doença crónica teve na sua funcionalidade.
Para dar resposta às dificuldades impostas pela doença verificou-se que os doentes crónicos desenvolvem estratégias (e.g., adaptação de tarefas e estratégias cognitivas) e adequam comportamentos (e.g., preventivos como o uso de cadeira de rodas).
No presente estudo os participantes partilharam a perceção que têm de si, descrevendo as suas características em relação a diferentes domínios, crenças e a sua perceção quanto o domínio das relações interpessoais. Contudo, como consequência do impacto da doença nos domínios anteriormente referidos, averiguou-se que outras áreas foram afetadas como a área social, emocional e a perceção de capacidade. Foi, a partir das alterações nestas áreas, que os participantes identificaram mudanças no seu autoconceito, uma vez que parece que quando as limitações surgem em áreas que têm um maior impacto para os sujeitos, então decorrem consequências na perceção que o sujeito tem de si. Destacaram-se alterações negativas, como não terem liberdade para fazer tudo o que querem e sentirem-se menos capazes e mais limitados. Para além destas questões, dois dos participantes referiram percecionar-se como menos alegres e outro como não se sentindo realizado; um dos participantes referiu, ainda, sentir mais solidão, sentir-se uma pessoa mais parada e menos vivida; e uma participante esclarece que se o domínio social continuar comprometido, então entende que a sua forma de ser também será afetada. Da
82 mesma forma, destacaram-se alterações positivas: uma das participantes referiu estar mais meiga e outra menos tímida.
Por sua vez, as limitações na realização de tarefas e atividades afetaram negativamente a perceção de autoeficácia dos participantes. Com efeito, as mudanças na perceção de autoeficácia e as incertezas quanto à evolução da doença fazem com que os participantes tenham um menor controlo percebido e que antecipem cenários negativos no seu futuro (e.g., sofrer de depressão). Contrariamente, a perceção de autoeficácia aumentou com os ganhos obtidos através do processo de reabilitação. Assim, e em contraste, quem acredita nas melhorias no estado de saúde (maior controlo percebido) e procura manter uma atitude positiva, antecipa cenários mais positivos (e.g., voltar à rotina).
De forma a alcançar melhorias no estado de saúde e uma melhor adaptação ao processo de doença, verificou-se que o processo de reabilitação é valorizado como um meio que permite atingir esses objetivos.
Na comparação entre as entrevistas e os questionários (SF-36 (v2) e ICAC), os dados obtidos revelaram ser maioritariamente congruentes e complementares entre si. Concluiu-se que a QdVRS é percecionada como negativa, uma vez que o estado de saúde dos participantes se agravou no último ano e que a doença crónica teve impacto em vários domínios (como foi referido anteriormente). Destacou-se o impacto da doença crónica na privação social, uma vez que a doença comprometeu a capacidade de marcha ou implicou um regime de internamento. Tal facto, por sua vez, impediu os participantes de frequentar os locais de convívio habituais ou, como um dos participantes referiu, comprometeu os temas de conversa nas interações com os outros. Como foi referido anteriormente, estas questões tiveram impacto na perceção que os participantes têm de si e na sua perceção de autoeficácia.
No que diz respeito ao domínio emocional destacou-se o facto de os participantes se sentirem nervosos e algum do tempo deprimidos, sendo que alguns referiram a presença de pensamentos recorrentes relacionados com o processo crónico. Contudo, não se verificou alterações no autoconceito nem na perceção de autoeficácia devido ao domínio emocional.
Para além disso, a comparação entre os dados das entrevistas e dos questionários permite enfatizar a pertinência do estudo do autoconceito no contexto da doença, uma vez
83 que os participantes identificaram em si características que se relacionam com a vivência e conhecimento da doença. Os participantes identificaram ser persistentes e orientados para a resolução de problemas, o que, nas entrevistas, se relaciona com o facto de desenvolverem estratégias para lidar com a doença. Para além disso, alguns dos participantes identificaram características que entendem ter influência no surgimento da doença (e.g., ser desleixado implicou não ir com regularidade ao médico).
Assim, conclui-se que o autoconceito e a perceção de autoeficácia são variáveis que sofrem alterações consoante os domínios de vida que são afetados pela doença crónica. Tendo em conta que ambos os constructos são centrais no controlo e definição do comportamento (e.g., estabelecimento de objetivos, manutenção da motivação), é importante que sejam trabalhados no âmbito do processo de reabilitação, de forma a que o seu impacto seja positivo e não prejudicial a esse processo e à própria vivência da doença.