2.6 O cooperativismo solidário e popular na área rural e as redes de apoio
2.6.2 Principais financiamentos e programas governamentais:
Pronaf
Como a cooperativa analisada neste trabalho é formada por agricultores familiares que têm acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar-Pronaf, torna-se necessário fazer uma breve discussão sobre o assunto.
Além das políticas de incentivo e estímulo ao agronegócio, no segmento da agricultura familiar os financiamentos têm sido concedido através do Pronaf36 para apoiar os projetos individuais ou coletivos que gerem renda aos agricultores familiares e assentados da reforma agrária, tais como verticalização e descentralização da produção e melhoria na infra-estrutura de suporte à expansão do desenvolvimento socioeconômico da zona rural. Trata-se de concessão de linha especial de crédito de responsabilidade do MDA e administrado pela Secretaria da Agricultura Familiar (SAF), cujos agentes financeiros são o BB, BNB e agentes financeiros credenciados ao BNDES (SAF, 2009).
No entanto, os investimentos, apesar de terem aumentado significativamente37 nos últimos anos graças à influência dos movimentos sociais sindicais na política do MDA, ainda gira em torno de 15% a 20% do montante destinado para o agronegócio, e tem beneficiado sobretudo os agricultores familiares mais capitalizados e melhor articulados com a rede bancária (SABOURIN, 2007).
Além do crédito para financiar projetos de infra-estrutura às prefeituras, o programa ampliou as modalidades de crédito destinado à agricultura familiar e a cada público específico. No entanto, como diz Sabourin (2007), não correspondem à
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Criado em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso, o Pronaf foi ampliado nas suas linhas de financiamentos a partir do governo Luis Inácio Lula da Silva.
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No governo Fernando Henrique Cardoso, até 2002 os valores financiados foram na ordem de R$ 8.576.568.630,07, com um total de 3.636.289 contratos, enquanto que de 2003 a 2006 atingiram o valor de 31.545.097.603,37, com um total de 5.793.119 contratos (SABOURIN, 2007).
diversidades da natureza e das formas de produção da agricultura familiar que estão segmentados em função do patrimônio com um limite financiado de acordo com o tipo de agricultor; e existe outra segmentação por categoria (mulheres, jovens etc) que pode dividir a coesão da unidade familiar. Dentre as modalidades, destacamos algumas.
Custeio - destina-se ao financiamento das atividades agropecuárias e de beneficiamento ou industrialização de produção, própria ou de terceiros agricultores familiares enquadrados no Pronaf.
Investimento – direcionado ao financiamento da implantação, ampliação ou
modernização da infraestrutura de produção e serviços, agropecuários ou não agropecuários, no estabelecimento rural ou em áreas comunitárias rurais próximas.
Pronaf Agroindústria - linha para o financiamento de investimentos, inclusive em infraestrutura, que visam o beneficiamento, o processamento e a comercialização da produção agropecuária, de produtos florestais e do extrativismo ou de produtos artesanais e a exploração de turismo rural.
Pronaf Custeio e Comercialização de Agroindústrias Familiares – contempla os agricultores e suas cooperativas ou associações para que financiem as necessidades de custeio do beneficiamento e industrialização da produção própria e/ou de terceiros.
Cota-Parte - financiamento de investimentos para a integralização de cotas- partes dos agricultores familiares filiados a cooperativas de produção ou para aplicação em capital de giro, custeio ou investimento; além destas modalidades existem ainda o Pronaf Agroecologia, o Pronaf Eco, o Pronaf Floresta, Pronaf Semi-Árido, Pronaf Mulher, Pronaf Jovem, Microcrédito Rural e o Pronaf Mais Alimentos (SAF, 2009).
PAA
Outro programa que tem se destacado para a agricultura familiar é o Programa de Compra Antecipada de Alimentos (PAA), conduzida pelo Ministério da Agricultura, Pesca e Agropecuária (MAPA) e operacionalizado pela Conab. Como política estruturante do Programa de Combate à Fome e em princípio destinado à compra de produtos da agricultura familiar, constitui uma forma de acesso desse segmento ao
mercado institucional, através de operações com as organizações coletivas.
Os produtos adquiridos diretamente dos agricultores familiares ou de suas associações e cooperativas (mel em sachês, leite, castanha, feijão, frutas, polpas, doces etc) são destinados à formação de estoques de segurança e depois canalizados prioritariamente para doações às populações em situação de risco alimentar e nutricional, geralmente residente na própria região onde os alimentos foram produzidos, a exemplo dos acampados da reforma agrária, populações atingidas por inundações, indígenas etc. São também distribuídos para programas sociais públicos, abastecendo creches, escolas, cozinhas comunitárias, hospitais, restaurantes populares e entidades assistenciais e/ou beneficentes.
Outros objetivos constantes no PAA são: a) remuneração da produção - aquisição dos produtos oriundos da agricultura familiar; b) ocupação do espaço rural - ao promover a compra da produção familiar, há maior estabilidade à atividade agrícola e geração de trabalho e renda ao produtor em seu próprio local; c) distribuição de renda - o pagamento pela produção agrícola familiar promove maior geração de renda para os agricultores, ao mesmo tempo, assegura a circulação de dinheiro na economia da própria região e, por conseguinte, melhores possibilidades de investimentos na região; d) cultura alimentar regional - ao se adquirir produtos alimentícios de uma determinada localidade, passa-se a valorizar a cultura regional que algumas vezes é atrativo turístico; e) preservação ambiental - incentivos ao trabalho de organizações dedicadas à agricultura familiar voltadas para a recuperação e a biodiversidade. Neste sentido, são estimulados sistemas e manejos sustentáveis de cultivos para o desenvolvimento de espécies características das regiões (MDS, 2009; SAF, 2009).
A operacionalização do PAA é feita diretamente pela Conab através dos mecanismos da Compra da Agricultura Familiar com Doação Simultânea – CPR Doação; da Formação de Estoque pela Agricultura Familiar – CPR Estoque; e da Compra Direta da Agricultura Familiar – CDAF. As associações e/ou cooperativas de agricultores familiares, participantes das operações, recebem antecipadamente até 100% dos recursos para compra de matéria-prima, embalagens e rótulos, pagamento de produtores e despesas com beneficiamento (CONAB, 2009).
agricultura familiar e de suas organizações, requer alguns ajustes. Para se ter uma idéia, analisando o impacto do PAA no RN, Martins e Cavalcanti (2004) concluíram que, a partir da amostra da pesquisa, há um percentual expressivo de agricultores que aumentaram as rendas a partir da sua participação no PAA bem como sua contribuição para o dinamismo da economia local, mas as ações de aquisição não têm considerado a safra, produtos e preços, concorrendo para a concentração em determinados produtos e regiões.
Banco do Brasil
O programa Estratégias de Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS) do BB, em princípio orienta suas ações para alguns projetos: a) estruturação de cadeias produtivas no desenvolvimento da faixa de fronteira, apoiando a estruturação de cadeias produtivas da apicultura, pesca, mandiocultura, bovinocultura de corte e de leite, entre outras; b) estruturação de cadeias produtivas em assentamento rurais e; c) estruturação de cadeias produtivas da agricultura familiar – Pronaf (BB, 2009).
Mas é principalmente através da Fundação Banco do Brasil – FBB -, criada em 1996, que se instituiu programas mais direcionados aos agricultores familiares, com foco inicial na Região do Semi-Árido, cujas ações foram voltadas para a geração de trabalho e renda. Em conjunto com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA - priorizou-se o uso de tecnologias sociais, especialmente direcionadas para a cadeia produtiva da cajucultura com implantação de mini-fábricas de beneficiamento da castanha de caju, nos estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, expandindo- se depois para os estados do Maranhão e da Bahia. Além disto, outros programas foram desenhados dentro dos conceitos estruturais do Programa Fome Zero com uma ação de inclusão digital, cuja finalidade foi de contribuir para que pequenos produtores organizados se apropriassem de um percentual maior de renda gerada em determinada cadeia produtiva (FBB, 2009; PENA, 2006).
Ainda em parceria coma a Senaes, a FBB desenvolveu o projeto "Ação de Recuperação de Empresas pelos Trabalhadores em Autogestão", com a finalidade de
fortalecer empreendimentos constituídos por trabalhadores de empresas recuperadas ou em processo de falência (FÓRUM...2007).
Banco do Nordeste do Brasil
O BNB tem implementado alguns programas governamentais para o chamado agente produtivo, em especial, para os micros e pequenos empreendimentos. Um deles é o CREDIAMIGO que visa estimular, através de serviços financeiros e não financeiros, as economias locais de forma sustentável e, para tanto, financiando a criação de capital de giro e compra de equipamento de trabalho, além de oferecer serviço de orientação técnico-gerencial para seus clientes (VALENTE, 1999).
Através do Programa Territórios da Cidadania, em 2008, o BNB esteve presente em 34 dos 60 territórios que compõem a área de abrangência do programa, onde se inserem 587 municípios, 337 deles pertencentes ao semi-árido nordestino (PRESIDÊNCIA..., 2008). Através do Nordeste Territorial o banco, em 2007, passou a investir na estruturação de cadeias produtivas, dentre elas a da apicultura nos município de Apodi, Caraúbas, Severiano Melo, Itaú, Felipe Guerra, Rafael Godeiro, Rodolfo Fernandes, onde nos quatro primeiro a COOPAPI têm sócios. Em 2008, a agência de Apodi realizou 1230 operações destinadas aos agricultores familiares/apicultores, com contratos no valor de R$ valor de R$ 4.950.146,00 (quatro milhões, novecentos e cinquenta mil, cento e quarenta e seis reais) (BNB - Apodi, 2009)38.
Em estados do Nordeste e nas regiões Norte de Minas Gerais e do Espírito Santo um projeto piloto com recursos financeiros do Programa de Apoio a Projetos Produtivos Solidários e em parceria com a Senaes, o BNB viabiliza fundos rotativos que apóiam projetos associativos e comunitários de produção de bens e serviços. Esses fundos rotativos objetivam gerar emprego e renda em suas áreas de atuação e emprestar recursos para subsidiar a produção de pequenos empreendimentos solidários (MDS, 2006).
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Dados coletados na entrevista realizada com o agente de desenvolvimento em Apodi, em abril de 2009.
2.6.3 - Outras instituições de caráter não governamental