3.2 REGULAMENTO 737
3.2.2 Principais institutos e síntese do desenvolvimento do processo
É possível classificar-se em três os procedimentos cognitivos previstos no Regulamento 737: ordinário, sumário e especial. Eram cinco os procedimentos especiais, todos insertos no quarto título da primeira parte do Regulamento: a ação de assinação de dez dias, rito monitório em que se concedia ao réu o prazo de dez dias para pagar ou defender-se por meio de embargos (arts. 246 a 267)286; a ação de depósito, para a restituição e entrega de depósito (art. 268 a 280); a ação de penhor, para a remissão (art. 281) ou a excussão de penhor dado em garantia (arts. 282 a 288); a ação de soldadas, para a cobrança de soldo vencido por tripulantes ou seus herdeiros (art. 289 a 298); e a ação de seguro, para a ação de indenização em virtude de sinistro (arts. 299 a 307). O procedimento su- mário estava ordenado em nove artigos no terceiro título da primeira parte (arts. 236 a 245). Bastante simples, oral e concentrado, era cabível em causas de pe- queno valor não excedentes a duzentos mil réis; relativas a ajuste e despedida de tripulantes, guarda-livros, feitores e caixeiros; para pagamento de salários, comis- sões, aluguéis, ou retribuições devidas a depositários, guarda-livros, feitores, cai- xeiros, trapicheiros, fiadores e administradores de armazéns e de depósitos; rela- tivas a fornecimento de vitualhas e mantimentos para os navios; e em causas de- rivadas da condução, transporte ou depósito de mercadorias (art. 236)287.
O procedimento ordinário estava regulado em duzentos e doze artigos (arts. 23 a 235) que formavam o segundo título da primeira parte, nominado com a tradicional locução romana Da ordem do Juízo. Resta evidente a importância que era dada à conciliação, herdado do direito canônico. Já na abertura do título, havia capítulo dedicado exclusivamente à conciliação (arts. 23 a 38) E de acordo com o art. 23, era condição prévia para a propositura da ação que se tivesse ten- tando antes a conciliação, por iniciativa do juiz ou pelo comparecimento voluntário
286 Veja-se OLIVEIRA, A. de Almeida. A assignação de dez dias no foro commercial e civil. 2.ed.
Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1883.
287 Egas e Pujol (1898) citando precedente (Gaz. Jur. de São Paulo, vol. 14, 1897, p. 12), anotam
que era possível a conversão de uma ação que seguia rito ordinário ou especial no rito sumário se houvesse pactuação das partes.
das partes perante juiz de paz288. O processo iniciava com a propositura da ação mediante simples petição (art. 66), à qual deveriam ser juntados os documentos em que se amparavam seu pedido (art. 69)289. Recebia a petição inicial, o juiz aprazava audiência e determinava a citação do réu, que deveria comparecer no colóquio pessoalmente ou por seu procurador, sob pena de revelia (art. 57). A citação inicial réu tornava a causa litigiosa, induzia a litispendência, prevenia a jurisdição, interrompia a prescrição e constituía em mora o devedor nas causas em que não era necessária a conciliação (art. 59).
Presentes as partes na audiência, devia o autor reafirmar sua pretensão oferecendo a mesma petição inicial (art. 68), sob a condição de o réu ser absolvi- do da instância (art. 71). Não conciliando as partes, deveria o réu apresentar, na própria audiência, as exceções de incompetência do juiz, suspeição do juiz, ilegi- timidade das partes290, litispendência e coisa julgada (art. 74)291. As demais exce- ções, dilatórias ou peremptórias, deveriam ser alegadas na contestação (art. 75), sob pena de preclusão (art. 77), cujo prazo era dez dias a contar da audiência (art. 73). O réu deveria acostar os documentos (art. 96) e arguir, em preliminar, as eventuais “nullidades de conciliação , acção , citação , e de todos os actos , e termos que tiverem occorrido até o ponto da contestação” (BRASIL, 1851b, v. II, p. 285). Oferecida a contestação, dava-se vista sucessiva, pelo prazo de dez dias, ao autor para replicar e ao réu para treplicar (art. 101). O réu ainda poderia recon-
288 A prévia tentativa de conciliação foi revogada em 26 de abril de 1890 pelo Decreto nº 359, o
qual assim estabelecia em seu art. 1º: “E’ abolida a conciliação como formalidade preliminar ou essencial para serem intentadas ou proseguirem as acções, civeis e commerciaes, salva ás partes que estiverem na livre administração dos seus bens, e aos seus procuradores legalmente autori- zados, a faculdade de porem termo á causa, em qualquer estado e instancia, por desistencia, con- fissão ou transacção, nos casos em que for admissivel e mediante escriptura publica, termos nos autos, ou compromisso que sujeite os pontos controvertidos a juizo arbitral” (BRASIL, 1890b, I, p. 684-685).
289 Antonio Bento de Faria (1914) anota que a falta proveniente de não ser a petição acompanha-
da do documento em que o autor funda a sua intenção pode ser suprida, e não haverá nulidade se o fizer antes da contestação (Acc. do Trib. de Just. de S. Paulo, de 4 de outubro de 1895, Revista
Mensal das decisões desse Trib., v. 2, p. 233).
290 Costa Manso (1922, p. 5-8), transcreve acórdão que, com base no art. 672 do Regulamento
737, que estabelece nulo o processo quando uma das partes é ilegítima, admitiu a possibilidade de suscitar a posteriori a ilegitimidade de parte, estando o aresto sumarizado nos seguintes ter- mos: “A ilegitimidade de parte, em certos casos, póde se arguida depois da litiscontestação e mesmo pronunciada ex-officio. O credor do falido, ressalvadas as excepções legaes, é parte ilegi- tima para intentar acções sobre direitos e interesses relativos á massa falida”.
291 Conforme o art. 78, era dada vista ao autor da exceção pelo prazo de cinco dias para impugná-
la, findos os quais o juiz a rejeitaria ou receberia. Se fosse recebida, seria permitida a produção de prova no prazo de dez e, depois, conclusos os autos para julgamento (art. 79). Caso fosse rejeita- da a exceção, era assinado o prazo de dez dias ao réu para a contestação (art. 80).
vir ao autor, propondo “a reconvenção simultaneamente com a contestação no mesmo termo para ella assignado” (BRASIL, 1851b, v. II, p. 286)292. Também es- tavam previstas as intervenções de terceiro, tais como a autoria (arts. 111 a 117), oposição (arts. 118 a 122) e a assistência (arts. 123 a 126).
Encerrada a fase postulatória e de defesa, principiava a dilatória, em ha- vendo a necessidade de produção de provas (arts. 127 a 137). No art. 138, o Re- gulamento 737 arrolava os meios probatórios que eram admitidos: as escrituras públicas e instrumentos; os escritos particulares; a confissão judicial; a confissão extrajudicial; o juramento supletório; o juramento in litem293; as testemunhas; as presunções; o arbitramento; o depoimento da parte; e as vistorias. Encerrada a instrução, cumpriam às partes apresentar suas alegações finais. Conforme o art. 223, na mesma audiência em que se dessem por findas as dilações requeridas pelas partes, era assinado o prazo de dez dias a cada uma delas “para dizerem a final por seu Advogado , dizendo primeiro o autor e depois o réo” (BRASIL, 1851b, v. II, p. 299). Após, o juiz publicava a sentença em audiência “ou a dará por publi- cada em mão do Escrivão , lavrando este nos autos o termo competente” (BRASIL, 1851b, II, p. 300).
Ao examinar os autos, se entendesse necessária alguma diligência antes de julgar a causa, o juiz poderia, ainda que não lhe tivesse sido requerido nas alegações finais por uma das partes, ordenar a sua realização (art. 230). E caso considerasse que a causa estivesse pronta o julgamento, proferiria sentença, condenando ou absolvendo o réu, em todo ou em parte do pedido, segundo o provado nos autos (art. 231)294. A sentença deveria ser clara e motivada (art. 232), bem como determinada em caso de condenação, salvo se fosse possível a sua liquidação (art. 231, in fine), na forma estabelecida entre os artigos 503 a 506
292 A simultaneidade prevista no artigo é para efeito único de serem as duas demandas decididas
pela mesma sentença, não impedindo a propositura posterior da reconvenção: hipóteses que será processada e decidida sem dependência com a ação proposta pelo autor. De outra banda, segun- do a jurisprudência, era admitida a reconvenção no rito sumário caso a demanda do réu também se enquadrasse nas hipóteses legais de ações sumárias (FARIA, 1914).
293 Juramento in litem era aquele que o juiz deferia a uma das partes para fixar e determinar a
quantia da condenação. Havia duas espécies deste juramento, a saber: juramentum affectionis e
juramentum veritatis (Ord. L. 3º, tit. 86, § 16). O juramento de afeição regulava-se pelo arbítrio da
parte que o presta; o juramento de verdade, pelo verdadeiro valor da coisa (CARVALHO, 1910)
294 Arthur de Freitas Leitão (1920) anotava, quanto a este dispositivo, com base no art. 27, § 1º, da
Lei nº 2.033, de 20 de setembro de 1871, e art. 72 do Decreto 4.824, de 22 de novembro de 1871, que o juiz de primeira instância estava obrigado a despachar o pleito dentro de sessenta dias, contados da conclusão, em caso de sentença definitiva; e, nos demais casos, em dez dias.
do Regulamento. Contra a sentença definitiva, ou que tivesse força de definitiva, cabia o recurso de apelação para o tribunal da relação (art. 646)295. O Regula- mento ainda previa os recursos de embargos (arts. 639 a 645)296, agravo, por pe- tição ou instrumento (arts. 668 a 671), e a revista (arts. 665 a 667)297. Em casos de nulidade da sentença (art. 680), além da utilização das vias recursais, poderia a parte interessada aduzir o vício processual após o trânsito em julgado, por meio de embargos à execução ou de ação rescisória (art. 681).
No que respeita à execução, sendo a sentença líquida, ou tendo sido esta devidamente liquidada, era o executado citado para pagar ou nomear bens à pe- nhora no prazo de vinte e quatro horas (arts. 506 e 506)298. Se o executado não pagasse no prazo ou não nomeasse bens a penhora validamente, expedia-se mandado para que se efetivasse a constrição (art. 510), em tantos bens quantos bastassem para o pagamento (art. 513), e o depósito (art. 526). A penhora pode- ria recair em quaisquer bens do executado, guardada a seguinte ordem: dinheiro, ouro, prata e pedras preciosas; títulos de dívida pública, e quaisquer papéis de crédito do governo; móveis e semoventes; bens de raiz ou imóveis; direitos e ações (art. 512). Enquanto o terceiro poderia propor os embargos de terceiro (arts. 596 a 604), o executado poderia se defender por meio dos embargos do executado, no prazo de seis dias após a penhora ou a arrematação, mas antes da assinatura da carta de arrematação ou adjudicação (art. 575 a 595). Decorridos o prazo legal sem a oposição de embargos, procedia-se à avaliação (art. 532). Feita esta, expediam-se os editais, os quais eram afixados na Praça do Comércio e na casa das audiências, bem como publicados nos jornais no dia da afixação e da arrematação (art. 538). A arrematação era feita no dia e lugar anunciados, publi- camente, presentes o juiz, escrivão e porteiro (art. 548). Se não houvesse lança-
295 Manso (1922) transcreve acórdão que reconhece a possibilidade de se expedir a carta de sen-
tença, para fins de execução na pendência de recurso, quando a apelação é recebida apenas no efeito devolutivo.
296 Os embargos poderiam ser restituição de menores (art. 640), de declaração (art. 641), sendo
estes cabíveis “quando houver na sentença alguma obscuridade , ambiguidade , ou contradicção , ou quando se tiver omittido algum ponto sobre que devia haver condemnação” (BRASIL, 1851b, II, p. 355).
297 Sobre recursos no âmbito do Regulamento 737, veja-se LOUREIRO, Antonio Fernandes Trigo
de. Manual de appellações e agravos ou deducção systematica dos princípios mais solidos e ne- cessarios relativo á sua materia: fundamentada nas leis do Imperio do Brasil. [2.ed.]. Rio de Janei- ro: Eduardo & Henrique Laemmert, 1872, p. 262-264.
298 Nos casos em que o réu era condenado a entregar coisa certa, seguia-se o procedimento exe-
dor que cobrisse o preço da avaliação, ou da adjudicação, os bens adjudicados ao credor (art. 560)299.
Entre outras disposições, o Regulamento 737 ainda previa procedimento para o concurso de preferência (art. 605 a 638) e execução direta de créditos re- ferentes a fretes de navios, fretes e aluguéis de transporte por água ou por terra, e despesas e comissão de corretagem (art. 308 a 319). Nestes casos em que se permitia a chamada ação executiva, o juiz determinava a expedição de mandado executivo para que o réu pagasse o débito in continente, sob pena de constrição imediata de bens suficientes para o pagamento da divida (art. 310). Feita a pe- nhora, tinha o executado seis dias para oferecer embargos (art. 311)300. Decorrido
in albis o prazo, a penhora era julgada por sentença e se prosseguia como na execução da sentença (art. 312). Ressalte-se, por fim, que o Regulamento 737 previa um procedimento arbitral no Título VIII da Parte Primeira, entre os arts. 411 a 475301, e uma relação de procedimentos, antecedentes e incidentais, previstos no título anterior: embargo ou arresto (arts. 321 a 342), detenção pessoal (arts. 343 a 350), exibição (arts. 351 a 357), vendas judiciais (arts. 358 e 359), protestos (arts. 360 a 392), depósitos (arts. 393 a 402), habilitações incidentes nas causas comercias (arts. 403 a 409) e embargo pendente à lide (art. 410).