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1 FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES E NOÇÕES DA ANÁLISE DE

3.1 Principais Resultados do Primeiro Questionário

O que disseram as professoras? Ao responderem a primeira pergunta do questionário: "quais as principais dificuldades que você tem encontrado para desenvolver o

seu trabalho na escola?". Apresentamos alguns trechos de respostas:

Para Paula e Salete, ambas do primeiro ano, a indisciplina é vista como o maior empecilho no bom desenvolvimento do trabalho na escola. Vale esclarecer que seus alunos são os mais novos do grupo pesquisado.

Professora Luíza do segundo ano aponta como principal dificuldade a falta de

parceria dasfamílias na realização dos deveres, em conferir os materiais (lápis, borracha e cadernos), antes da criança chegar até a escola, faltas às aulas sem justificativas em dias de

avaliações. E, Amanda do segundo ano diz: “na escola e na série que estou lecionando este ano, não encontro dificuldades para desenvolver meu trabalho”.

Jaqueline do terceiro ano encontra dificuldades diante da “falta de apoio dos pais

e incentivo das famílias em acompanhar a aprendizagem dos filhos”.

Para Camila, também do terceiro ano, a maior dificuldade encontra-se na “falta de

autonomia na elaboração do planejamento anual para que este seja de acordo com as necessidades dos educandos e com o livro didático adotado na escola”. Faz menção ainda ao

excesso de trabalho realizado em casa: “Preenchimento repetitivo de fichas e outros”.

Nádia e Simone que atuam com alunos do 4º ano, apresentam como a professora Camila, dificuldades com a utilização do livro didático que, segundo elas, não condiz com a matriz curricular da escola,

Marina, do quinto ano, diz que a “falta de entrosamento do professor com outros

dos anos anteriores” é uma das suas dificuldades para desenvolver um bom trabalho na

escola.

Aspectos comuns que permearam as respostas das professoras sobre a questão, referem-se à indisciplina, a ausência da família na vida escolar dos filhos, o planejamento extenso e inadequado aos alunos e a falta de autonomia dos professores. Para Paula e Salete, ambas do primeiro ano a indisciplina é vista como o maior empecilho no bom desenvolvimento do trabalho na escola, vale esclarecer que seus alunos são os mais novos do grupo pesquisado. Apenas a professora Amanda afirma não encontrar dificuldades no desenvolvimento de seu trabalho.

Ao responder o segundo questionamento: pensando especificamente nas aulas de

ciências, que dificuldades você aponta para que esta área seja desenvolvida na escola? As

professoras manifestaram-se da seguinte forma:

Paula, do primeiro ano, reassume “a falta de autonomia para trabalhar” como sua dificuldade nas aulas de ciências. Para Salete, também do primeiro ano, seria a

“abordagem de temas relevantes e significativos para cada faixa etária”.

A professora do segundo ano, Amanda, aponta como dificuldade “a falta de um

laboratório com materiais específicos e vídeos para que os alunos conheçam os mais diversos assuntos detalhadamente, por exemplo, o interior do corpo humano (órgãos,) o fundo do mar, etc.” Para Luíza, também do segundo ano, o ideal seria: “algum contato maior com a natureza (passeios, atividades ao ar livre) ”.

E a professora do terceiro ano, Camila, diz que sente dificuldades em “seguir o

planejamento sendo que este não apresenta uma divisão adequada e alguns conteúdos não constam no livro didático”.

Para Simone, quarto ano: “falta de formação específica por parte do professor

para ministrar as aulas”. E para a professora Nádia, também do quarto: “não vejo dificuldade nesta disciplina, o livro didático é bom, as atividades conduzidas na escola são bem estratégicas”.

Para Lúcia, do quinto ano: “falta material adequado para que as crianças sejam

instigadas a investigar, experimentar e descobrir o mundo fantástico da ciência. ”

As professoras, ao relatarem as dificuldades encontradas na realização das aulas de ciências, mostraram alguns indícios de suas práticas de docência que podem configurar aspectos de seus imaginários sobre a essa disciplina. As respostas se pautaram na falta de autonomia na escolha de temas significativos às crianças, o currículo inadequado e a ausência de recursos materiais nas escolas. Considerando a expectativa envolvida no momento de responder a essa questão, uma vez que o foco era o ensino de ciências, e a pesquisadora tinha como tema esse assunto no doutorado, pressupõe-se que nesse momento circularam-se sentidos do que seria bom para uma aula de ciências.

A terceira questão a ser respondida foi: em sua opinião, o que deve ser trabalhado

e como deve ser uma aula sobre o tema vento?

Em relação ao que deve ser trabalhado: Amanda, do segundo ano: “como se

forma o vento, de onde vem, as utilidades, se o vento faz mal para a saúde”. Camila, do

terceiro ano: “a partir do conteúdo – componentes do ambiente: ar, introduzir o tema vento.

Trabalhar o conceito de vento”. Simone, do quarto ano: “propor aos alunos um debate sobre o que é qual a função e a utilização do vento”. Marina, do quinto ano: “significado, para que serve como senti-lo, poderiam ser bem definidos em uma aula extraclasse”.

Como deve ser uma aula: professoras do primeiro ano: Paula “roda de conversa

sobre o tema. Leitura de textos ou histórias informativas, registro através de desenho, pintura e frases”. Salete “levantamento de conhecimentos prévios, informar sobre o assunto prazerosamente: vídeos, desenhos, experiências”.

Professora do segundo ano: Luíza “buscar textos informativos sobre o vento,

revistas e jornais. Realizar pesquisas. Atividades de registro com o tema”.

Professoras do terceiro ano: Camila “texto informativo sobre o vento e registrar

através de desenhos. Confeccionar e brincar com cata-vento”. Jaqueline: “gravuras e experiências como inflar balões”. Professora Lúcia: “Precisamos levantar hipóteses, fazer

experiências, organizar as descobertas. Também seria necessário o acesso a aparelhos simples como o cata-vento, a biruta, o anemômetro, o barômetro, enfim, tudo que nos possibilita provar a existência do vento e suas características”.

A sondagem do conhecimento que os alunos já possuem sobre o assunto, foi um dos aspectos comuns às respostas dadas pelas professoras e mais uma vez, o uso de recursos matérias aparece como elemento prestigiado pelas professoras.

Esse variado conjunto de discursos nos auxiliou na busca de possíveis significados produzidos pelas professoras.

3.1.1 O que pode e o que não pode ser dito.

Como já foi dito, o discurso surge de outros discursos, ao mesmo tempo em que aponta para outros, ou seja, ele não tem origem em uma única fonte, e sim em várias.

Considerando a não transparência da linguagem, dito de outra forma, a sua opacidade, e incluindo a consideração do imaginário na relação do sujeito podemos, nesta perspectiva, assumir o discurso como materialidade específica da ideologia e a língua como materialidade específica do discurso (ORLANDI, 2013).

A noção de formação discursiva (FD) já apresentada neste estudo, como o que “pode” e “deve” ser dito, a partir de uma posição, numa dada condição é retomada neste ponto, pois, acreditamos ser nos interdiscursos, nos desvios entre o dito e o não-dito, que ela se encontra.

O não dito, referindo-se aqui à incompletude “[...] há uma dimensão do silêncio que remete ao caráter de incompletude da linguagem: todo dizer é uma relação fundamental com o não dizer” (ORLANDI, 1992, p. 12). O dizível e o não dizível ao responder aos questionários que fariam parte de uma pesquisa de pós-graduação.

Ao responderem o questionário 01, as professoras fizeram referências a assuntos importantes para a educação de forma geral e também abordaram questões relevantes para o ensino de ciências. Admitimos que o grupo mantem-se atualizado diante dos principais problemas da atualidade, vivenciados na área da educação como questões relacionadas ao excesso de burocracia das escolas, problemas sociais que repercutem na família e prontamente na escola, tal como a violência. Neste aspecto, pode-se constatar que a indisciplina e a participação da família na vida escolar dos filhos foram apontadas como fatores que dificultam o trabalho na escola. A primeira é um fenômeno que se concretiza na escola. No

entanto a escola, a família e o aluno não existem isoladamente, sendo necessária uma articulação entre eles para que o trabalho escolar se realize.

A formação específica do professor para lecionar ciências foi destacada por uma professora como uma das dificuldades para o desenvolvimento desta área na escola.

A ausência de autonomia na elaboração do currículo por parte das professoras interfere de forma direta na prática docente, uma vez que algumas delas fazem críticas ao considerarem o currículo inadequado à faixa etária e à realidade dos alunos, visto que não participam de sua elaboração e são elas que acreditam conhecer seus alunos.

A melhor organização dos conteúdos e o aproveitamento dos saberes dos alunos também são destaque nas respostas das professoras pesquisadas.

Em relação aos materiais didáticos que elas pretendem utilizar em suas aulas, pode-se afirmar que se tratam de recursos que normalmente são utilizados nessa faixa etária, como: vídeos, histórias infantis, confecção de objetos, pintura, experimentos, entre outros. Com base nos PCNs, a organização de determinadas informações a partir de recursos diversos, são procedimentos que favorecem a aprendizagem em ciências da natureza nos anos iniciais (BRASIL, 1997). Consideramos que a variedade de materiais pode ser benéfica para o ensino de ciências para as crianças, pois a maioria ainda possui breve capacidade de concentração, assim, quando se modificam os materiais as crianças poderão demonstrar maior interesse durante os episódios de ensino.

Almeida; Nardi (2013), afirmam que diante da vasta publicação sobre o trabalho do professor no ensino de ciências, é possível dizer que as pesquisas estão longe de resolver a maioria das dificuldades encontradas em suas ações nos diferentes níveis de ensino, quando se leva em conta a complexidade do trabalho docente.

Trata-se de [...] problemas comumente associados à escola e ao ensino que ali se pratica. Tais problemas geram questões de estudo que, por sua vez, possibilitam análises realizadas com o apoio de diferentes tendências teóricas, as quais não se limitam à geração de metodologias de análise, pois contêm concepções sobre o professor que interferem no próprio estabelecimento do problema a ser analisado (ALMEIDA; NARDI, 2013, p. 337).

Os autores destacam algumas situações referendadas por pesquisadores entrevistados sobre o assunto, que podem interferir diretamente na atuação dos professores, tais como: o tempo do aluno na escola para aprender ciências, o nível socioeconômico da clientela atendida nas escolas públicas, e também as condições de trabalho do professor, tais como, currículo inadequado, carga horária excessiva e baixos salários.

Finalizamos as considerações do primeiro questionário acreditando que ele muito nos auxiliou neste estudo, visto que foi capaz de provocar não somente nas professoras como também em nós, reflexões importantes a respeito do contexto da escola onde atuamos, na sala de aula, do currículo, dos alunos e também da comunidade. Tratam-se de elementos que nos auxiliam melhor conhecer nossa realidade e nos ajudaram a dar continuidade a esta pesquisa.