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Prioridade do sistema de frases sobre as frases

2. A teoria de Quine e o conceito de vagueza

2.4. Indeterminação da tradução e indeterminação da ontologia

2.4.2. Prioridade do sistema de frases sobre as frases

A partir da observação de que, nas teorias científicas, uma sentença isolada é incapaz de servir como ‘veículo independente do significado empírico’ (Quine, 1981: 70), Quine admite como postulado que só um sistema de frases pode possibilitar a testabilidade de uma teoria. Sem entrar na discussão desse holismo científico, podemos perceber que esse postulado têm efeitos importantes na teoria semântica . Essa importância pode ser averiguada na distinção que Quine estabelece entre ‘sentenças de ocasião’ (occasion sentences) e ‘sentenças permanentes’ (standing

sentences). As sentenças de ocasião (das quais as sentenças de observação são um subtipo) são

aquelas ligadas diretamente à experiência, enquanto as sentenças permanentes são ligadas indiretamente à experiência.’The significant trait of other sentences (standing sentences) is that experience is relevant to them largerly in indirect ways, through the médiation of associated sentences”(Quine, 1960: 64). A tessitura de frases é essencial para o valor de verdade de um conjunto de frases isoladas. Essa tessitura constitui a estrutura de uma teoria, cuja formulação permite vislumbrar alguns outros aspectos da tese da indeterminação da ontologia (TIO). Sendo dada a estrutura de uma teoria, a ontologia dos objetos dessa teoria é irrelevante.

True sentences, observational and theorethical, are the alpha and the omega o f the scientific enterprise. They are related by structure, and objects figure as mere nodes of the structure. What particular objects there may be is indifferent to the truth o f observation sentences, indifferent to the support they lend to the theoretical sentences, indifferent to the success of the theory in its predictions.

(Quine,1992:31)

Vale dizer, dada a estrutura de uma teoria (abrangendo sentenças observacionais + sentenças não-observacionais), podemos supor ontologias alternativas, como no caso de gavagai: estágios de um coelho, segmentos temporais áe coelho, partes não-destacadas de coeího, materialização de coelhidade ou o coelho inteiro e igual a si mesmo no decorrer do tempo. Qualquer dessas ontologias não alteraria a estrutura da teoria proposta para a língua em questão: "What makes sense is to say not what the objects of a theory are, absolutely speaking, but how one theory of objects is interpretable or reinterpretable in another" (Quine, 1969: 50) .O postulado da preponderância do sistema de frases sobre as frases implica que não há sentido em se perguntar qual a referência de ‘gavagai’ (o que corresponde à TIO); o que tem sentido é a reinterpretação da ontologia da qual ‘gavagai’ faz parte, numa outra teoria de objetos, por exemplo a da língua portuguesa. Mas essa reinterpretação não significa que saibamos o que o termo ‘gavagai’ representa ‘verdadeiramente’.

Dos postulados expostos, dèduz-se que essa reinterpretação da estrutura de uma língua na estrutura de outra língua não se-baseia nem em-uma equivalência de termos, nem em uma equivalência de frases isoladas, mas numa equivalência dos sistemas de frases das duas línguas.

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Trata-se, portanto, da tarefa de especificar as regras gramaticais gerais que abrangem o sistema de frases de uma língua, e de a seguir encontrar equivalentes dessas regras na língua que se deseja traduzir. Tentarei mostrar por que, segundo Quine, mesmo essa equivalência de regras gramaticais não elimina a indeterminação da ontologia.

A estrutura da língua do lingüista (por exemplo, a língua portuguesa) dispõe de várias construções gramaticais que realizam a individuação da referência, como por exemplo as

desinências de plural, os pronomes, os dêiticos, a cópula verbal, as expressões ‘mesmo’ e ‘outro’,etc. É só a partir desse conjunto de construções gramaticais que a referência a objetos faz sentido na língua portuguesa. A idéia, tantas vezes reiterada por Quine, é que os objetos de uma teoria (e a língua é uma teoria) são definidos em função da estrutura dessa teoria, e não o contrário. Assim, se há sentido, na nossa língua, em falar de um objeto que permanece igual a si mesmo no decorrer do tempo, é simplesmente porque dispomos de instrumentos gramaticais que nos permitem recortar, de maneira determinada, o universo referencial. A frase “Este coelho é o mesmo que vi ontem”, através dos dêiticos, de ‘mesmo’ e da relativa, nos permite individuar um ser que se distingue dos outros indivíduos semelhantes (os outros coelhos), e ao mesmo tempo nos permite saber que se trata de um ser que perdura no tempo. É a gramática de uma língua que organiza o sistema referencial, e não o ‘mundo das idéias’ ou as respostas a estímulos.

Mas como transplantar as regras de uma gramática para outra gramática? Ora, o lingüista precisa encontrar equivalentes das regras de sua língua na língua estrangeira. Como a tradução frase a frase é impossível, ele deve proceder ‘por abstração e por hipóteses’ (cf. Quine, 1969: 33). Vejamos um exemplo concreto do tipo de hipótese analítica que um lingüista deve avaliar para o seu manual de tradução, num caso mais simples do que a tradução radical. Trata-se do problema dos chamados ‘classificadores’ do japonês. Certas partículas dessa língua se ligam aos numerais, cada uma dessas partículas classificando um certo tipo de objeto a que o numeral é referido. Assim, uma partícula se aplica a animais, outra a coisas finas e compridas, etc. Ora, segundo Quine, há duas hipóteses analíticas diferentes que explicam essa estrutura, e cada uma delas acarreta um sistema referencial diferente. Na 1° hipótese, os objetos envolvidos seriam termos individualizantes, equivalentes a um termo português como ‘boi’; na 2° hipótese, os objetos envolvidos seriam termos de massa não-individualizantes, como ‘gado’.

As duas hipóteses são as seguintes. Temos três palavras (melhor seria dizer morfemas): o classificador, o numeral, o substantivo. Escolhendo-se o classificador ‘A’, por exemplo, associado

a animais, e o numeral ‘cinco’, podemos formar um sintagma com o substantivo que se traduz como ‘boi’. A tradução será então, simplesmente, ‘cinco bois’. Mas para se chegar a essa tradução, há duas análises possíveis. A primeira considerará o substantivo japonês como um termo individualizante como ‘boi’; a este termo seria aplicado um numeral ‘classificado’ pelo classificador A. Ou seja, esta análise pressupõe que haja, em primeiro lugar, uma ligação do numeral e do classificador, constituindo um determinante que é em seguida aplicado ao substantivo, gerando a expressão equivalente a ‘cinco bois’.

Na 2o hipótese, o substantivo japonês é considerado como um termo de massa, como ‘gado’. Este termo possui uma definição referencial completamente diferente de ‘boi’, já que ‘gado’ é “a mass term covering the unindividuated totality of beef on the hoof ” (Quine, 1969: 37). Nessa 2° hipótese, a individuação referencial é realizada pelo classificador A, que teria uma função equivalente à nossa expressão ‘cabeça de’. A junção do classificador A + termo de massa (gado) produz o que Quine denomina “um termo individualizante composto”. A essa junção se aplica o numeral ‘cinco’ e se obtém, enfim, uma expressão equivalente a “cinco cabeças de gado”. (É evidente que estas hipóteses são puramente semânticas, não considerando fatores morfológicos e fonológicos).

O que essa duas hipóteses mostram é que cada uma implica uma descrição referencial diferente do substantivo japonês. Na I o hipótese, temos um termo individualizante; na 2o, um termo de massa. Ou seja, a ontologia do termo japonês variará em função da construção gramatical escolhida pelo lingüista. Não se pode dizer qual das duas hipóteses analíticas é a que expressa a verdade; ambas são válidas como tradução da expressão japonesa. O que o lingüista faz é procurar uma equivalência entre o mecanismo de individuação do português em ‘cinco bois’ e o mecanismo de individuação da expressão japonesa equivalente. Mas o fato é que ele dispõe de mais de um sistema de equivalência possíveis (hipóteses 1 e 2). Assim, a equivalência de regras de línguas diferentes não elimina a indeterminação da ontologia. “There seem bound to be

systematically very different choices, ali of which do justice to ali dispositions to verbal behavior on the part of ali concemed” (Quine, 1969:34). Mais uma vez, a indeterminação da tradução (com os diferentes sistemas de equivalência (manuais de tradução)) acarreta a indeterminação da ontologia (com as diferentes definições referenciais dos objetos de uma teoria).

Mesmo depois que tenhamos inserido o termo ‘gavagai’ num marmal de tradução, com todas as equivalências das regras gramaticais com as quais realizamos a referência, ainda aí a ontologia desse termo será indeterminada. Simplesmente, a escolha de equivalências diferentes, mas empiricamente válidas, levaria a ontologias diferentes, como se pode visualizar no exemplo do japonês, no qual hipóteses analíticas diferentes pressupõem ontologias diferentes (termos individualizantes, termos de massa).

Uma radicalização da TIO é a afirmação de Quine de que “radical translation begins at home” (id :46). Quando um falante do português interpreta o que um outro falante do português afirma, ele na verdade também está ‘traduzindo’ a ontologia do interlocutor. Apenas, ele o faz pela ‘regra de homofonia’: cada cadeia de fonemas do interlocutor é transformada numa cadeia de fonemas idêntica do locutor. Ou seja, o locutor pressupõe que a utilização da língua portuguesa pelo interlocutor é idêntica à utilização que ele mesmo faz dessa língua, com a mesma ontologia subjacente. Mas, segundo Quine, nada garante que os interlocutores de uma mesma língua utilizem ontologias iguais. E essa indeterminação da ontologia interna a uma língua se mostra claramente se um locutor do português decide imaginar que um determinado interlocutor, quando diz ‘coelho’, está na verdade se referindo a segmentos temporais de coelho. Para isto, basta pensar que o interlocutor utiliza alguns mecanismos de individuação de uma maneira diferente da nossa. A regra de homofonia é, assim, uma forma tranqüila e socialmente recompensada de pressupor que os interlocutores de uma mesma língua estejam se referindo aos mesmos tipos de objetos.

Creio que, na vagueza, ocorre um fenômeno semelhante. Os falantes utilizam os termos vagos como se a sua referência fosse bem determinada para todos os interlocutores e como se todos falassem dos mesmos objetos e situações. Trata-se de uma ilusão reconfortante.

2.5. Conclusão ____

Nesta conclusão, pretendo expor os dilemas que a hipótese da vagueza acarreta para a teoria de Quine. Como vimos nas seções anteriores, a hipótese da vagueza está bem integrada no contexto teórico elaborado por Quine. A vagueza é uma característica importante das línguas naturais e, mais do que isso, constitui uma vantagem , e não uma deficiência expressiva. O único problema grave, segundo Quine, é que a vagueza contradiz o princípio da bivalência, e como tal deve ser eliminada da metalinguagem lógica, através de uma ‘regulação’ (trato deste problema também nos capítulo 1, seção 1.4., e capítulo 4, seção 4.1.). A bivalência faz parte daqueles princípios teóricos mais fundamentais, cuja alteração tem um custo muito alto para a teoria. Assim, é preferível sacrificar a vagueza na metalinguagem. Mas isso não significa de modo algum que, na linguagem cotidiana, a vagueza não se faça presente.

Todavia, a meu ver, a aceitação da vagueza na linguagem cotidiana coloca alguns dilemas para a teoria de Quine. Segundo esta teoria, a linguagem cotidiana, assim como as teorias científicas, apresentam um ‘suporte empírico’, ou seja, algumas proposições estão ligadas diretamente à experiência empírica (através das estimulações das terminações nervosas). Tais proposições são as sentenças de observação, que asseguram a capacidade fundamental da linguagem de ‘falar de objetos’. Um dos objetivos da teoria de Quine é mostrar que as línguas naturais, formadas por uma rede complexa de sentenças que em sua maioria mantêm com o mundo observável uma relação tênue e indireta, só podem cumprir a sua função referencial básica

porque esta rede de sentenças contém as sentenças de observação, que fazem a ponte entre mundo e linguagem. Um processo equivalente ocorre na ciência, estrutura de sentenças extremamente abstratas e gerais, mas que só cumpre o seu papel de ‘teoria sobre o mundo’ em função das sentenças de observação, organizadas em ‘observation categoricals'.

O dilema que a vagueza coloca para esta teoria é o seguinte. Suponhamos que a maior parte dos termos da linguagem cotidiana sejam vagos (na teoria de Quine, nada impede que as coisas se passem assim). Se isso ocorre, o ‘suporte empírico’ da linguagem é seriamente ameaçado pela presença da vagueza, porque um conjunto imenso de objetos não seriam nem incluídos, nem excluídos por um conjunto imenso de predicados. A referência não seria bem-sucedida num número considerável de casos, e isto ocorreria mesmo no cerne empírico da linguagem, ou seja, nas sentenças de observação. Estas não cumpririam o seu papel de ligar teoria e mundo, pela ausência de valor de verdade num grande número de ocorrências.

O dilema colocado pela vagueza não se apresenta na tese da indeterminação da ontologia. Por menos empiricista que possa parecer à primeira vista, esta tese não contradiz o princípio do ‘suporte empírico’ da linguagem e sua capacidade de referência ao mundo. Ao ouvir gavagai na língua da floresta, nosso lingüista não pode determinar a ontologia dessa expressão, mas ele identifica as condições estimulatórias que a propiciam. O lingüista pode perfeitamente aprender a usar essa palavra, adquirindo a mesma competência dos falantes nativos na sua utilização. Isso ocorre porque gavagai é um termo de observação, e como tal requer apenas, para sua aquisição, uma identificação das condições de estimulação em que é usado. “Observation terms are the terms upon whose attribution ali members of the speech community tend to agree under like stimulation. Observation terms are the consensus-prone terms” (Quine, 1981:177). Gavagai é indeterminado ontologicamente, mas cumpre a função de ligar linguagem e mundo.

Não é este o caso da vagueza. Quando um falante diz que ‘João é alto’, não poderei determinar o valor de verdade desta frase se João tem l,67m, por exemplo, quaisquer que sejam

as condições estimulatórias. O valor de verdade desta frase não é determinado pelos fatos empíricos.

As duas alternativas de resolução do dilema, no âmbito da teoria de Quine, são ambas contraditórias. A primeira alternativa é simples e brutal: recusar a existência da vagueza na linguagem cotidiana, para manter o princípio de que esta possui um ‘suporte empírico’. Esta aliás tem sido uma solução preconizado por alguns autores, em textos recentes.7 Segundo a perspectiva desses autores, não são os predicados lingüísticos que são vagos, mas sim o conhecimento, pelos falantes, das fronteiras que esses predicados estabelecem no mundo. Trata-se, assim, de uma vagueza epistêmica, e não lingüística. Sem entrar no mérito dessa solução ‘radical’, ela me parece inaceitável no âmbito da teoria de Quine, pois, dadas as condições de aprendizagem da língua natural, determinada pelo comportamento observável dos falantes numa sociedade, é difícil imaginar que a utilização dos predicados seja precisa em todos os casos.

A segunda alternativa seria manter a vagueza como qualidade inerente da linguagem, e rever o princípio de que a linguagem tenha sempre um ‘suporte empírico’. Isso implicaria uma reavaliação do empirismo subjacente à teoria de Quine. Como se vê, as duas alternativas colocam sérias dificuldades para essa teoria.

7 Entre os trabalhos nessa perspectiva, podem ser citados Willianson,T.( 1990),“Identity and Discrimination”, Oxford, Blackwell ,; Williamson,T.(1992) , Vagueness and Ignorance, “The Aristotelian Society Supplementary Volume”, 66,ppl45-162; e SorensenJR..(1988), “Blindspots”, Oxford, Oxford University Press.

Capítulo 3. Topoi e Gradualidade.