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4. A EXPERIÊNCIA DO CÁRCERE NO BRASIL

4.1 A Prisão No Brasil

Em 2012, o Brasil contava com 574.027 (quinhentos e setenta e quatro mil e vinte sete) presos12, figurando como a quarta maior potência em encarceramento do mundo, atrás apenas da China, Rússia e dos Estados Unidos. Atualmente, o número de presos no Brasil ultrapassa os 620.000 (seiscentos e vinte mil).

Para o jurista argentino Raúl Zaffaroni, “cada país tem o número de presos que decide politicamente ter” (TAVARES, 2003), assim, neste universo carcerário brasileiro, é possível verificar que cerca de 60% dos presos encontram-se nesta situação sob a rubrica dos crimes de furto, roubo ou tráfico de drogas13.

Ainda nesta seara, as próprias autoridades políticas brasileiras, responsáveis pela gestão, organização e manutenção da população carcerária do país destacam que “se fosse para cumprir muitos anos em alguma prisão nossa, eu preferia morrer”14.

Outro agravante que compõe o cenário carcerário nacional é a superlotação das prisões brasileiras, neste sentido, o início do ano de 2017 foi marcado por inúmeras rebeliões em todo território nacional, de presos em condições subumanas.

Segundo relato da organização de direitos humanos Humans Right Watch (2017), muitas cadeias e prisões brasileiras enfrentam graves problemas de superlotação e violência. O número de adultos atrás das grades aumentou 85% (oitenta e cinco por cento) entre os anos de 2004 e 2014 e ultrapassa 622.000 (seiscentos e vinte e duas mil) pessoas, quantidade 67% acima da capacidade oficial das prisões, de acordo com dados do Ministério da Justiça. Conforme consta no relatório da própria instituição:

Um fator chave para o drástico aumento da população carcerária no Brasil foi a lei de drogas de 2006, que aumentou as penas para traficantes. Embora a lei tenha substituído a pena de prisão para usuários de drogas por medidas alternativas como o serviço comunitário – o que deveria ter reduzido a população carcerária –, sua linguagem vaga possibilita que usuários sejam processados como traficantes. Em 2005, 9% dos presos haviam sido detidos por crimes associados às drogas. Em 2014, eram 28%, e, entre as mulheres, 64%, de acordo com os últimos dados disponíveis.

12 DEPEN, 2013

13 Respectivamente, Código Penal, art. 155 e 157 e Lei: 11.343/2006, art. 33 e ss.

14 Dezembro de 2012, declaração do então ministro da justiça, José Eduardo Cardozo, disponível em: http://www.bbc.com/ portuguese/ brasil-38537789

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Apenas em 2014, em um projeto pioneiro do tribunal de justiça do Rio de Janeiro, os juízes passaram a ouvir os detidos logo após suas prisões, como exigido pelo direito internacional15. Essas audiências de custódia – atualmente conduzidas nas capitais dos estados e em algumas outras jurisdições – ajudam os juízes a decidir quem deve ficar em prisão preventiva e quem deve aguardar o julgamento em liberdade.

Na falta das audiências de custódia, pessoas presas frequentemente são obrigadas a esperar vários meses para ter uma primeira audiência perante um juiz. No Brasil, 40% das pessoas nas prisões ainda não foram julgadas. O Senado brasileiro aprovou, no final de novembro de 2016, um projeto de lei que torna as audiências de custódia obrigatórias em todo o país16.

Pelo disposto no projeto, o preso terá direito a passar pelo exame de corpo de delito, o que permite verificar sua integridade física após a prisão em flagrante, tal medida pretende inibir as frequentes práticas de tortura por policiais que efetuam a prisão ou que guardam o preso no curso do inquérito policial.

Conforme o texto, fica regulamentada a prática das audiências de custódia, alterando o disposto no Código de Processo Penal para estabelecer ao preso o direito à assistência por defensor, público ou particular, durante o interrogatório policial, sendo possível ainda que seja nomeado defensor dativo pela autoridade policial.

Conforme texto do projeto, a prisão em flagrante deverá ser comunicada às autoridades competentes, inclusive às autoridades da Defensoria Pública. Cabendo ao juiz verificar se os direitos fundamentais do detento estão sendo respeitados e decidir acerca da dispensa do pagamento da fiança, quando for o caso, se verificar as poucas condições financeiras do preso.

Além disso, não poderá usar a audiência como prova contra o depoente, devendo tratar apenas da legalidade e da necessidade da prisão, da prevenção da ocorrência de tortura ou de maus-tratos e do esclarecimento dos direitos assegurados ao preso.

O texto do projeto prevê ainda prazo máximo de 24 horas para que um preso em flagrante seja levado diante de um juiz. Nessa audiência de custódia, o magistrado decidiria

15 Pacto de San Jose da Costa Rica, Artigo 7º - “Direito à liberdade pessoal [...] 5. Toda pessoa presa, detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença de um juiz ou outra autoridade autorizada por lei a exercer funções judiciais e tem o direito de ser julgada em prazo razoável ou de ser posta em liberdade, sem prejuízo de que prossiga o processo. Sua liberdade pode ser condicionada a garantias que assegurem o seu comparecimento em juízo.”

16 Disponível em: http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/11/30/senado-aprova-regulamentacao-de-audiencia-de-custodia

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acerca da manutenção da prisão, sendo certo que a defesa e o Ministério Público também poderiam se manifestar a respeito.

Caso a audiência de custódia não ocorra no período previsto, deverá ser comunicado à defesa, à acusação e ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Neste sentido, o prazo para a apresentação do preso perante o juiz competente poderá ser estendido para até 72 horas, no máximo, mediante decisão fundamentada judicialmente, se houver problemas operacionais da autoridade da policia.

O projeto ainda estabelece que, imediatamente após o registro do auto de prisão em flagrante e se for alegada violação a direitos fundamentais, a autoridade policial deverá determinar as medidas necessárias para a preservação da integridade do preso, pedir a apuração dos fatos e instaurar inquérito.

As audiências de custódia podem ser consideradas um instrumento importante na luta contra o abuso policial de detentos, já que, em teoria, permitem aos juízes identificar e ouvir relatos sobre tortura e maus-tratos imediatamente após a prisão. Por outro lado, em uma análise de 700 audiências de custódia realizadas em São Paulo no ano de 2015, realizada pela ONG Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), foi identificado que:

Os juízes perguntaram aos detidos sobre o tratamento que tiveram sob custódia em apenas 40% dos casos, e não tomaram providências em um terço dos 141 casos de supostos abusos denunciados. Os juízes encaminharam o restante dos casos às corregedorias da polícia civil ou militar. O IDDD não tinha informações sobre os resultados de nenhuma investigação realizada pelas corregedorias quando publicou seu relatório, em maio de 2016.17

Em visitas à unidades prisionais, as equipes do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, cujos membros são todos nomeados pelo governo, compareceram a seis estados entre abril de 2015 e março de 2016, relatando casos de tortura e tratamento cruel, desumano ou degradante em “grande parte, senão em todas” as dezessete unidades visitadas. Para melhor ilustrar, no Centro de Detenção de Sorocaba, no estado de São Paulo, foram encontrados 50 detentos em celas feitas para abrigar no máximo 9 pessoas.

O conteúdo relatado acima pode causar um choque às pessoas que não convivem de perto com a realidade prisional brasileira. Contudo, é preciso ressaltar que o problema das prisões no Brasil, conforme este trabalho o deseja abordar, não está simplesmente na superlotação das celas. Destaca-se que o presente tópico teve por objeto traçar uma

17 Relatório da Organização Internacional Humans Right Watch (2017), disponível em: https://www.hrw.org/pt/world-report/2017/country-chapters/298766#237f70

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panorâmica do sistema prisional brasileiro, a seguir, trataremos das peculiaridades da Lei de Execução Penal e do fenômeno da massificação das prisões no Brasil.

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