3.6 PRIVATE EQUITY E VENTURE CAPITAL (PE/VC)
3.6.3 Private Equity e Venture Capital no Brasil
O setor empresarial americano encorajou diversos países a importar este modelo vencedor de intermediação financeira. A atividade de intermediação financeira Private Equity e Venture Capital surgiu nos EUA em 1946. As organizações que concretizam esta atividade são responsáveis pela gestão de veículo de investimentos que reúnem recursos de um ou mais investidores para
investimento de longo prazo. Nos meados dos anos 1990, aconteceu uma explosão no mundo nas atividades de PE/VC, particularmente nos EUA.
No Private Equity e Venture Capital, os investidores não aguardam passivamente os resultados. Os gestores passam a ser sócios ativos da organização, mesmo quando possuem posições minoritárias. O impacto do
Private Equity e Venture Capital na economia dos países onde a atividade é
usada há mais tempo é notável sob vários pontos de vista. Nos EUA, onde a atividade teve sua origem, empresas financiadas pelo Private Equity e Venture
Capital fecharam o ano 2003 como responsáveis pelo crescimento de cerca de
10% dos empregos, com receitas que atingiram 10% do PIB norte-americano. Pesquisas apontam conclusão semelhante na Europa.
A atividade de Private Equity e Venture Capital surgiu no Brasil no início da década de 1980, período em que o modelo norte-americano de Private
Equity e Venture Capital estava em sua fase final de formatação e começava a
atrair um volume expressivo de investimentos. Após o Plano Real, plano de estabilização da moeda brasileira que foi instituído pelo governo de Itamar Franco em 1994, começa o grande ciclo da indústria de Private Equity e
Venture Capital no Brasil. Em 1998 e início de 1999, com a crise cambial,
acontece uma interrupção no ciclo de crescimento da indústria de Private
Equity e Venture Capital pela não entrada de grandes organizações de Private Equity e Venture Capital no mercado brasileiro, correlacionada com o
surgimento da crise.
A grande expansão do período 1999 a 2000 mostra forte correlação com o barateamento dos ativos domésticos quando mensurados em dólares e a bolha especulativa da nova economia. (RIBEIRO, 2005).
Os primeiros negócios em Private Equity e Venture Capital no Brasil têm seu inicio nos meados dos anos 1990. A maior parte das instituições que investiram no Brasil começou a operar após 1997. O auge da nova economia veio com a promessa de altos lucros, e trouxe diversas instituições com interesse neste mercado no período de 1999 e 2001. No ano 2000, com a entrada de 13 organizações de Private Equity e Venture Capital no mercado, foi criada uma associação, Associação Brasileira de Venture Capital e Private
Equity (ABVCAP), fundada em julho de 2000. Nesse momento, oficializa-se a indústria de Private Equity e Venture Capital no Brasil.
Foram criadas na década de 1970, pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), quatro subsidiárias para investir no setor de Private Equity e Venture Capital, com participações em empresas privadas já em funcionamento, como: Ibrasa, Ibramec, Fibase e Abico. No início dos anos 1980, as três primeiras se fundiram, dandoa origem à BNDES Participações S/A (BNDESPAR). A primeira empresa de PE/VC no Brasil surgiu em 1975, Brasilpar. Nos dias de hoje, a empresa não atua mais como gestora de Private Equity e Venture Capital (RIBEIRO, 2005).
A partir de 1981, surge no Brasil um grupo de investidores de 12 empresas nacionais e estrangeiras, entre elas o Unibanco, IFC, Paribas, Pão de Açúcar, Brasmotor, Vilares e outros, e criam a Brasilpar. Até sua existência, em 1984, a Brasilpar participou de 33 empresas diferentes, com uma participação na maioria das vezes minoritária. Na década de 1980, foi criada a Companhia Rio-Grandense de Participações (CRP), e nas de 1980 e 1990, seus gestores conseguiram levantar diversos outros fundos (SANTOS, 2007).
Ao comparar os modelos brasileiro e americano dessas formas de capitalização, Ribeiro (apud SONODA, 2008, pág. 23) explica que as similaridades acontecem em função da origem da indústria nos Estados Unidos e o relacionamento entre a indústria americana e brasileira. Enquanto as diferenças acontecem em razão da adaptação à realidade econômico-industrial brasileira, bem como pelo estágio recente em que se encontra a indústria de
Private Equity e Private Capital nacional, dentre as similaridades, destacam-se:
setor composto por organizações independentes; concentração regional e numérica; e gestores qualificados. As principais diferenças são: investimentos mais tardios nas empresas; poucas transações de LBO; e baixo grau de especialização setorial.
No Brasil, ainda há pouca informação sobre esta indústria de Private
Equity e Venture Capital, apesar da importância dessa atividade para a
economia (RIBEIRO, 2005). Mesmo apontando uma grande diferença na comparação com os EUA, o Brasil faz parte dos países emergentes pioneiros na criação de suas indústrias de Private Equity e Venture Capital.
A modalidade de financiamento de Private Equity e Venture Capital, no Brasil, tem como tendência o crescimento nos próximos anos, de forma que vão sendo divulgados os resultados de empresas que receberam este tipo de financiamento e um maior conhecimento por parte dos empreendedores que necessitam destes recursos.
As formas de investimentos Private Equity e Venture Capital, no Brasil, às vezes são conhecidas como capital de risco e são tratadas conjuntamente.
A indústria de Private Equity e Venture Capital é relativamente recente no Brasil, ainda pequena se comparada à de outros países, mas tem desempenhado um papel importante no mercado acionário brasileiro. Segundo Siqueira e Gioielli (2007), conforme informações extraídas dos prospectos de oferta pública de ações das empresas que ingressaram na BOVESPA nos anos de 2004, 2005 e 2006, 19 dos 42 IPO do período foram de empresas que haviam recebido investimentos do tipo Private Equity ou Venture Capital.
Contudo, essa indústria tende a crescer. Tem-se como exemplo pesquisas feitas pela Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP). Segundo uma delas:
Impulsionando os investimentos nas empresas inovadoras, com elevados padrões de gestão e altas taxas de crescimento, despontam as operações de Private Equity e Venture Capital (PE/VC) no Brasil. O estudo Panorama da Indústria Brasileira de Private Equity e Venture Capital 2008, realizado pelo GVcepe – Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da Fundação Getulio Vargas - EAESP, demonstrou que o total de recursos dos fundos de PE/VC no Brasil vem crescendo desde 2004 à assombrosa taxa de 46% ao ano e atingiu US$31 bilhões em dezembro de 2008.
[...]
As organizações gestoras de PE/VC brasileiras foram capazes de investir US$11 bilhões entre 2005 e 2008 em diversas empresas, nas maioria pequenas e médias; mudar e fazer evoluir seus modelos de negócios; transformá-las em plataformas empresariais e consolidar setores tão diversos quanto o de diagnósticos médicos e odontológicos, educacional superior, logística, higienização (lavanderias industriais) e telecomunicações, para citar alguns. Quase 40% dos investimentos beneficiaram indústrias tradicionais e variadas, 24% a de alimentos e bebidas, 17% na construção civil, 8% no varejo e 14% em setores de ponta como agronegócios, energia, informática e eletrônica, biotecnologia, comunicação e mídia.
[...]
Do volume total de ações vendidas em aberturas de capital, as empresas geridas pelas organizações de PE/VC levantaram R$
27 bilhões, 31% do total vendido ao público investidor entre 2005 e 2008. (FURTADO e RAMALHO, 2009).
Através do Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da FGV-EAESP, foi realizado o primeiro censo brasileiro da indústria Private
Equity e Venture Capital. O tamanho de uma indústria de intermediação
financeira depende tanto da demanda de oferta de capital quanto de sua capacidade de ofertá-los (CARVALHO, RIBEIRO e FURTADO, 2006).
Essa oferta de capital também inclui todos os fatores que influenciam na decisão dos investidores, tais como: a taxa de retorno dos ativos, a compatibilidade do investimento e o risco percebido. O investidor para maximizar o preço da ação de uma organização deve conhecer pelo menos dois fatores importantes, o risco e o retorno do investimento. Risco é a possibilidade de perda financeira. O retorno é o ganho ou a perda total sofrido por um investimento em um determinado período. O risco de um ativo pode ser mensurado levando em consideração a sua amplitude e medido quantitativamente com uso da estatística (GITMAN, 2004, p. 184 e 189). A mensuração do retorno do investimento (ROI) envolve pelo menos duas maiores preocupações: a correta mensuração do lucro operacional e do ativo total a serem utilizados no cálculo (ASSAF NETO e LIMA, 2009, pág. 254).
O Private Equity e Venture Capital, por muitas décadas, foram considerados uma classe de ativos com risco significativamente maior do que os investimentos tradicionais. Recentemente essa percepção tem-se modificado. Pode-se dizer que nos pais economicamente mais avançados, o
Private Equity e Venture Capital deixaram de ser um ativo especulativo. Pode-
se dizer, também, que está havendo um consenso que o investimento de
Private Equity e Venture Capital apresenta uma amplitude de diversificação e
que uma carteira bem variada pode apresentar risco moderado. No Brasil esta percepção também vem ocorrendo e está sendo questionado. Os principais fundos de pensão nos últimos dez anos vêm obtendo retornos realizados em renda variável superiores aos retornos de renda fixa (CARVALHO, RIBEIRO E FURTADO, 2006, pág. 128).
O primeiro censo da indústria de Private Equity e Venture Capital é o resultado concreto de mais de dois anos de trabalho e de esforço de várias pessoas, contando com a liderança acadêmica de Antonio Gledson de
Carvalho (CARVALHO, RIBEIRO E FURTADO, 2006, pág. 15). Com plena certeza de que as informações são um dos requisitos para promover o fluxo de investimentos e o interesse dos investidores nessa classe de ativos, os autores oferecem ao mercado uma primeira imagem da indústria de Private Equity e
Venture Capital no Brasil, diante de tópicos como: estrutura das organizações
gestoras, investidores, natureza das formas de investimento, empresas investidas e práticas de governança (CARVALHO, RIBEIRO E FURTADO, 2006, pág. 15).
Dessa forma, as pesquisas feitas pela Fundação Getulio Vargas, como o Primeiro Censo Brasileiro sobre Private Equity e Venture Capital, são muito importantes para uma melhor compreensão da dimensão e características do setor brasileiro desses fundos. Outras pesquisas sobre o tema também são necessárias, principalmente aquelas que permitam analisar sua evolução no mercado brasileiro, bem como a vantagem competitiva e o desempenho financeiro que trazem para as organizações.