A fim de identificar qual é a influência da probabilidade na descrição dos fenômenos e na obtenção de informações sobre a Natureza, no contexto que estamos estudando, vamos analisar quais assuntos utilizam argumentos probabilísticos, com qual função e qual é a reação ao seu uso.
A probabilidade e suas aplicações foram objeto de interesse de muitos estudiosos ao longo do tempo. Joseph Fourier,91 em uma sessão pública da Academia Real de Ciências, em 1829, menciona que:92
Essa arte [análise de probabilidades] nasceu de um traço único do gênio claro e fecundo de Pascal; foi cultivada, desde a origem por Fermat e Huygens. Um geômetra filósofo, Jacques Bernoulli, foi seu principal fundador. Uma descoberta singularmente feliz de Stirling, os estudos de Euler e, sobretudo, uma aplicação engenhosa e importante devida a Lagrange aperfeiçoaram essa doutrina. Ela foi esclarecida pelas próprias objeções de D’Alembert e pelas concepções filosóficas de Condorcet. Coube a Laplace reunir e fixar seus princípios. Então, ela tornou-se uma ciência nova, submetida a um só método analítico e com uma extensão
91 Joseph Fourier ou, ainda, Jean-Baptiste-Joseph, Barão Fourier (1768-1830), foi um estudioso nas
áreas de Ciências Físicas e Matemáticas, autor da teoria analítica do calor. Em 1829, desempenhava a função de secretário permanente da seção de Ciências Físicas e Matemáticas na Academia Real de Ciências.
92 Tal pronunciamento aconteceu em 15 de junho de 1829, durante a sessão de Elogio histórico de
Laplace, realizada por Joseph Fourier. O texto completo encontra-se disponível na parte inicial do livro
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prodigiosa. Fecunda em aplicações usuais, um dia ela esclarecerá com viva luz todos os ramos da filosofia natural.93 [...]
Podemos identificar no trecho supracitado que há confiança quanto à ação efetiva da probabilidade como ferramenta que ajudaria na explicação dos fenômenos da natureza. Tal concepção vai ao encontro da reflexão sobre Lógica e Probabilidade que Maxwell apresenta em uma carta enviada a Lewis Campbell, em 1850.
[Junho ? 1850] […] Como é sábado à noite, não irei escrever muito. Hoje estava pensando nos deveres da faculdade cognitiva. É universalmente aceito que deveres são voluntários, e que a vontade governa o entendimento ao dar ou reter atenção. Eles dizem que o entendimento deve funcionar de acordo com as regras da razão correta. Essas regras são ou devem estar contidas na Lógica; mas a ciência real da lógica está familiarizada apenas com coisas certas, impossíveis ou inteiramente duvidosas, nenhuma das quais (felizmente) temos que argumentar. Portanto, a lógica verdadeira para este mundo é o Cálculo das Probabilidades, que leva em consideração a magnitude da probabilidade (que é, ou que deveria estar na mente do homem razoável). Este ramo da matemática, que geralmente é considerado favorável aos jogos […] é a única “Matemática para os Homens Práticos” como deveríamos ser. […]94
Laplace compartilha a concepção defendida por Fourier e Maxwell, como é possível verificar na citação a seguir.
[...] Pode-se mesmo dizer, rigorosamente, que quase todos os nossos conhecimentos são apenas prováveis; e no pequeno número de coisas
93 Fourier, “Elogio Histórico de Laplace,” 31. 94 Campbell, Life of James, 80.
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que podemos saber com certeza, mesmo nas ciências matemáticas, os principais meios para se chegar à verdade – a indução e a analogia – são fundados nas probabilidades; por isso o sistema completo dos conhecimentos humanos se liga à teoria exposta aqui.95
Isso reforça os indícios de que os cálculos probabilísticos no século XIX eram tidos por diferentes estudiosos como um ferramental a ser considerado e pertinente naquele contexto científico.
Outra perspectiva que podemos analisar diz respeito à aceitação do uso da probabilidade no estudo de fenômenos naturais. Vejamos alguns casos a seguir.
Em 1850, J. Forbes publica um artigo96 que critica o uso de argumentos probabilísticos pelo Rev. John Mitchell para inferir a existência de uma conexão física entre estrelas binárias.
Em tal artigo, Forbes menciona que Mitchell, em seu artigo97 publicado em 1767, estabelece a existência de uma conexão física entre estrelas binárias com base na probabilidade encontrada ao analisar tal disposição das estrelas no céu, ou seja, considerando como fator determinante a posição aparente das estrelas, sem a indicação de provas de que havia uma ação sensível ou outra influência recíproca. Mitchell relaciona o alto valor de probabilidade encontrado à conclusão de que as estrelas binárias não eram apenas opticamente duplas.98
95 Laplace, Ensaio Filosófico, 41.
96 Forbes, On the Alleged Evidence for a Physical Connexion between Stars Forming Binary or Multiple
Groups, Deuced from the Doctrine of Chance. The London, Edinburgh and Dublin Philosophical
Magazine and Journal of Science, 1850.
97 Mitchell, An Inquiry into the Probable Magnitude and Parallax of the Fixed Stars from the Quantity
of Light which They Afford to Us, and the Particular Circumstances of Their Situation. Philosophical
Transactions, 1767.
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No próprio artigo, Forbes menciona que tal conclusão foi aceita e utilizada em estudos posteriores sobre o assunto: “[...] desde a época de Mitchell, e para mais de oitenta anos, adotaram [tanto os princípios quanto os resultados obtidos] sem (tanto quanto eu sei) uma voz dissidente”.99
Com isso, podemos identificar o uso que resulta do cálculo das probabilidades de um evento como fonte de informação que possibilitaria inferir características de um fenômeno natural, que tal abordagem foi aceita e que seus resultados foram utilizados em outros estudos. Além disso, vale destacar que, ao questionar o uso da probabilidade em um artigo em uma revista científica de amplo alcance, Forbes nos mostra que a probabilidade era assunto de relevância que valia ser discutido.
Por meio desse conjunto de informações, podemos verificar que, mesmo antes do século XIX, a probabilidade já era utilizada como ferramenta para o estudo de fenômenos físicos. Além disso, é possível identificar que, por meio dos resultados obtidos nos cálculos probabilísticos, os estudiosos propunham conclusões sobre os fenômenos, não restringindo a probabilidade ao âmbito de quão provável é o evento em análise.
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