PARTE II – Metodologia
1. Problemática e Questões Orientadoras do Estudo
A formulação do problema do presente estudo, emerge da experiência profissional, em vários contextos institucionais e sociais, dos valores em que acreditamos, bem como, de todo um quadro de referências teóricas, que suportam o trabalho desenvolvido com as crianças do nível Pré-Escolar. A prática docente, implica necessariamente uma atitude reflexiva, sobretudo na fase de autoavaliação. Esta reflexão, bem como a oportunidade de observar o trabalho desenvolvido por profissionais de educação de infância, tem-nos trazido um conhecimento experiencial a partir de uma dada realidade, que nos leva a afirmar que alguns educadores, não reconhecem todo o potencial e riqueza da Educação Artística/Expressão Plástica, no desenvolvimento integral da criança. Se para alguns, a arte é algo valorizado de per si ou abordado de uma forma interdisciplinar, para outros, ela tem um lugar marginal, pouco compreendido e valorizado. Quais serão os fatores implicados nesta última forma de olhar o papel da arte/expressão plástica, na educação? Estarão relacionados com o acesso à informação e com a formação dos docentes? Serão várias as perguntas que poderemos colocar, no entanto, esse é um campo de pesquisa, acerca do qual não nos iremos deter no presente trabalho.
A par das questões atrás referidas, começa cada vez mais a verificar-se, ao nível do Pré-Escolar, uma fragmentação curricular, característica de outros níveis de ensino. A abordagem à construção do saber, delineada, por exemplo, nas Orientações Curriculares, é alicerçada num modo de aprender de forma articulada e integrada, onde os conteúdos não estão em compartimentos estanques ou artificialmente relacionados. Por outro lado, essa fragmentação curricular, não está em sintonia com as investigações de vários autores que se debruçaram sobre o estudo do desenvolvimento infantil. Os conhecimentos acerca do desenvolvimento das crianças, mostram que este ocorre de uma forma globalizante. Numa perspetiva Walloniana a educação deve atender às necessidades do ser humano, de forma integrada: corpo, inteligência e emoção. Tendo em conta autores como Wallon (1999) ou Arquimedes da Silva Santos, (2008) vemos o papel do educador, como sendo o de um agente facilitador do desenvolvimento integral da criança, onde a educação tem um importante papel, ao nível do desenvolvimento das capacidades cognitivas, da sensibilidade e dos valores.
Sendo a arte/expressão plástica, uma expressão do ser humano nas suas múltiplas dimensões, refletindo todo o contexto pessoal, social e histórico por ele experienciado, não
A ARTE/EXPRESSÃO PLÁSTICA NUMA INTER-RELAÇÃO COM A MATEMÁTICA/GEOMETRIA Um Projeto no Jardim de Infância
42 será também passível de, num contexto educativo, ser expressão e reflexo, de todo o conhecimento, e de todas as emoções?
Ao longo do nosso percurso profissional, a forma como é fundamentado e planeado o chamado projeto curricular de turma, ao nível da expressão plástica, foi sendo alterado. Em educação nada é estático e não existem verdades absolutas. Numa fase inicial, acreditávamos que o simples facto de proporcionar às crianças os materiais adequados era suficiente para estimular toda a sua criatividade, sendo o fator mais importante, a livre expressão de experiências, sensações e sentimentos. Atualmente, julgámos ser fundamental a apropriação por parte das crianças, de conhecimentos e técnicas próprios de uma gramática das artes visuais, podendo enquadrar todas estas mudanças nos paradigmas da educação pela arte e da educação artística. Como nos diz João Pedro da Ponte (2002), “os problemas da gestão e construção do currículo, bem como os problemas emergentes da prática profissional nos seus diversos níveis, requerem do professor capacidades de problematização e investigação, para além do simples bom senso e boa vontade profissionais.” (p.7). Tendo em conta esta perspetiva, sentimos uma grande curiosidade e empenho, em explorar a riqueza e potencial de uma abordagem interdisciplinar de dois domínios que num primeiro olhar pouco se tocam: a arte/expressão plástica e a matemática. Interessa-nos portanto, aferir e explorar o potencial da arte em si mesmo e como possível fator desencadeador da aquisição de conhecimentos e competências, noutros domínios do saber, em particular no domínio da matemática.
Tendo perfeita noção das limitações e constrangimentos que se nos deparam ao realizar um trabalho de investigação/ação, na tentativa de dar resposta à problemática que atrás identificámos, apresentou-se-nos a necessidade de delimitar o campo de estudo. Assim, partindo do paradigma de Educação Artística/Expressão Plástica, procurámos realizar um trabalho interdisciplinar de articulação com um domínio específico do saber: a matemática/geometria.
A apresentação da problemática do presente estudo, implica necessariamente a definição de determinadas linhas orientadoras, permitindo dessa forma, encontrar um “rota” mais segura que permita orientar e balizar todo o desenvolvimento do presente trabalho de dissertação. Assim, na procura de bases teóricas que nos permitissem clarificar conceitos contidos na problemática definida, são apontadas as seguintes questões orientadoras:
A ARTE/EXPRESSÃO PLÁSTICA NUMA INTER-RELAÇÃO COM A MATEMÁTICA/GEOMETRIA Um Projeto no Jardim de Infância
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1.1 – Questões orientadoras
Qual o papel desempenhado pela Educação Artística/Expressão Plástica, no desenvolvimento global da criança, em idade pré-escolar?
Como se processa o desenvolvimento global das crianças em idade pré-escolar?
Quais as questões mais importantes a ter em conta pelo educador, quanto à didática da matemática/geometria?
O que se entende por literacia visual e qual o seu papel na educação, ao nível do pré- escolar?
Relativamente ao trabalho desenvolvido ao nível das sessões com as crianças, procurámos respostas para as seguintes questões específicas:
Quais as possibilidades de explorar uma relação entre a Arte/Expressão Plástica, e a Matemática/Geometria, num paradigma de Educação Artística?
Como poderão as sessões planeadas numa perspetiva de fruição, apreciação e criação, onde se utilizam obras de arte selecionadas segundo um critério, produzir um impacto positivo no desenvolvimento das crianças, ao nível da sua educação artística?
Como poderão as sessões planeadas numa perspetiva de fruição, apreciação e criação, onde se utilizam obras de arte selecionadas segundo um critério, produzir um impacto positivo no desenvolvimento das crianças, em articulação com objetivos preconizados para a matemática/geometria?