Foto 1.4.1 Situação do lixo e esgoto
2. Contextualização da Pesquisa
2.2 Adensamento Urbano e Lixo
2.2.1 Problemática Local
Campinas, como todas as grandes cidades brasileiras, não foge à regra, possuindo características desumanas como a desigualdade social, o alto custo imobiliário e a falta de planejamento e intervenção do poder público. Existem diversas ocupações humanas – formas desordenadas e caóticas de uso do solo para moradia – justamente em áreas de mananciais, margens de córregos e várzeas. A razão desta forma de ocupação é histórica e já foi comentada.
Ainda hoje a especulação imobiliária pressiona o poder público a alterar leis e zoneamentos da cidade para expandir seus horizontes. Temos, como exemplo, a tentativa de alteração do perímetro urbano para favorecer a implantação do megacondomínio:
A hipótese de se permitir uma aposentadoria calma e confortável nem passa pela cabeça do ex-banqueiro Aloysio Faria. Dono de uma das maiores fortunas do País, o bilionário resolveu estrear aos 82 anos em um setor inédito em seu currículo como empresário. Faria está debutando na construção de residências. Seu projeto de estréia é um megacondomínio em Campinas, a 126 quilômetros de São Paulo. Não é um empreendimento tímido, do tipo que se espera de um iniciante. O terreno comprado para o projeto tem 4,83 milhões de metros quadrados, área quase igual à do Distrito Federal (sic25). (KASSAI, 2003, s/n)
A Prefeitura, por força do investimento, apresentou um Projeto de Lei Complementar (PLC) para alteração do perímetro urbano na área do condomínio planejado, incluindo neste
25 Certamente houve um erro no dimensionamento da área, o Distrito Federal é maior que o município
projeto outras áreas de interesse do setor imobiliário. O Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMDEMA)26, ao tomar conhecimento de tal PLC, pronunciou-se, exigindo esclarecimentos:
Informo que a Comissão de Análise do Território do COMDEMA, em sua reunião realizada em 19 de Novembro de 2003, efetuou um levantamento dos aspectos e dados que deverão acompanhar o Projeto de Lei Complementar PLC nº 04/03, de autoria do poder executivo municipal, a fim de possibilitar a elaboração, por este Conselho, de parecer consubstanciado da matéria. Verifica-se, portanto, a necessidade de esclarecimentos, por parte do autor do projeto, dos itens abaixo: 1. Quais os motivos que ensejam a alteração pontual do perímetro urbano em desacordo com o Plano Diretor instituído pela Lei Complementar nº 04/96 em região classificada como “imprópria à urbanização” e em desacordo com o Plano Local de Gestão Urbana de Barão Geraldo que classifica a referida região como “zona rural”. 2. Quais os levantamentos do meio-físico e do ecossistema efetuados e os critérios ambientais adotados para a delimitação da área a ser inserida no perímetro urbano (e excluída do perímetro rural), bem como as diretrizes ambientais que seriam atendidas para a sua urbanização, incluindo-se a avaliação do impacto da impermeabilização gerada, com a acentuação das condições de inundação e drenagem em área de planície de inundação do Atibaia e seus afluentes; [...] (COMDEMA, 2003)27
Após diversas discussões e análises, o COMDEMA deliberou por pronunciar-se desfavoravelmente ao PLC. Mesmo com esse parecer, foi levado adiante o processo na Câmara dos Vereadores. Porém, como foram constatados alguns equívocos nas emendas ao projeto, este teve sua votação adiada algumas vezes. No entanto sempre ficou a impressão de que era questão de tempo ser aprovado.
Campos [Campos Filho, vereador de Campinas] desconfia que apesar da relutância das comunidades e da própria Prefeitura, serão mantidas as emendas mais polêmicas, que tratam da permissão para a instalação de comércios e edifícios em áreas residenciais e em Área de Preservação Ambiental (APA). (LIMA, 2004, s/n)
Esta suposição aconteceu por definitivo, contrariando pareceres da própria Prefeitura, além dos emitidos pelo COMDEMA e pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano (CMDU). Planejam-se novos loteamentos para as classes ricas até em áreas de proteção ambiental, expandindo a área urbana acima da capacidade operacional da Prefeitura e contrariamente ao interesse da própria população, que, muitas vezes, é surpreendida com as mudanças.
26 O COMDEMA é um conselho com participação paritária entre Prefeitura e sociedade civil organizada,
com poder de deliberação nos assuntos de interesse Ambiental no município.
As mudanças pontuais atendem ao interesse específico de um proprietário: em um ponto pode prédios, no outro apenas casas; há locais onde o comércio é liberado ao lado de um lugar em que é proibido. Existem ainda os casos em que porções de terra da zona rural são transformadas em perímetro urbano, sem sequer o conhecimento dos proprietários que, da noite para o dia, ao chegar o carnê, descobrem ser contribuintes do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). (LIMA, 2004b, s/n)
Temos um imenso vazio nas áreas urbanas; antes de expandi-las, faz-se necessário seu adensamento, otimizando os recursos já instalados: viários, de saneamento, de iluminação e de equipamentos públicos (escolas, creches, postos de saúde etc). Cabe ressaltar que o adensamento urbano deve ser planejado adequadamente para não se tornar aglomeração28, uma vez que esta tem resultado na fonte geradora de problemas diversos, muitas vezes irreversíveis para o desenvolvimento urbano e qualidade de vida da população. Tampouco a idéia de adensamento urbano deveria ser confundida com a de criação de megalópoles – cidades totalmente inviáveis do ponto de vista não só urbano, mas também ambiental, uma vez que os meios para sua manutenção e a de seus habitantes exaurem os recursos locais, sendo necessário retira-los de outras regiões. Um exemplo é o abastecimento de água da região metropolitana de São Paulo, desviando a água de regiões densamente habitadas como a metropolitana de Campinas e de Piracicaba, meramente transferindo o problema para estas regiões.
Resultante das políticas de desenvolvimento industrial e do crescimento urbano acelerado e desordenado das últimas quatro décadas, há em Campinas algumas dezenas de casos de contaminação ambiental, vários de conhecimento público (CETESB, 2002) e com estudos de mitigação em andamento; outros ainda sem perspectiva de solução, nem mesmo a longo prazo. Mais graves são as contaminações ainda desconhecidas, que só vêm a público depois que a área foi ocupada, isto é, casas ou mesmo prédios já foram construídos e seus moradores afetados. São descuidos que aumentam o caos urbano da cidade.
No município de Campinas, são poucos os locais favoráveis para a implantação de um aterro sanitário para o lixo doméstico, de catação de rua e hospitalar. Para aqueles resíduos industriais mais tóxicos e perigosos, não há local algum. O aterro atual está chegando à sua
28 Entende-se por aglomeração a situação urbanística que impede o arejamento e iluminação adequada às
residências, exterminando as áreas verdes e de lazer, dificultando o acesso viário ou impondo um fluxo de veículos maior que o suportado pela infraestrutura instalada, saturação do sistema de água e esgoto, impermeabilização excessiva do solo, falta de áreas para instalação de aparelhos públicos (postos de saúde, escolas, polícia etc.)... Enfim, tudo o que temos assistido acontecer nos grandes centros urbanos que não planejaram sua expansão.
capacidade limite de operação. Tudo isso demonstra as dificuldades do poder público com o gerenciamento do lixo em Campinas. Tentativas de implantação de coleta seletiva para reduzir o volume de material despejado no aterro têm sido realizadas, mas envolvem um trabalho educacional, mudanças de hábitos da população. Porém é imprescindível que se continue e invista-se na conscientização, porque a reciclagem gera muitos benefícios: menor volume nos aterros e na contaminação do Ambiente, otimização das matérias primas, preservação de recursos naturais, geração de renda e trabalho, entre tantos outros.
Políticas públicas com fins sócio-ambientais são, mais do que desejáveis, imprescindíveis para uma vida com perspectiva de futuro.
Tratarei a seguir dos riscos ambientais decorrentes de aterros sanitários, esclarecendo melhor este tema.