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2. POLÍTICA EXTERNA DAS DITADURAS

2.1. POLÍTICA EXTERNA PORTUGUESA

2.1.3. PROBLEMA COLONIAL

A crise colonial presenciada em Portugal, sobretudo a partir de 1924, gerou um profundo descontentamento em importantes sectores nacionais, sobretudo o têxtil e o vinícola. No centro do problema, encontrou-se a quebra do mercado colonial para a produção portuguesa, agravada pela precária situação financeira existente em Angola – uma inflação descontrolada e uma intensa crise nos pagamentos externos. No entanto, a crise colonial portuguesa remontava a períodos anteriores à República mas as razões desta, estão longe de serem apenas de natureza económica61.

Desde os finais do século XIX que os territórios ultramarinos portugueses no continente africano, eram alvos de permanente cobiça de potências europeias como a Grã- Bretanha ou a Alemanha. Isso ficou bem patente com a tentativa de acordo secreto em 1898 ou em 1912-1913, quando estas mesmas nações tentaram chegar a um compromisso face à partilha entre si dos territórios de Angola e Moçambique.

Com a I Guerra Mundial, o problema colonial veio novamente ao de cima; como forma de tentar fortalecer a posição do país no sistema internacional e salvaguardar os territórios ultramarinos de eventuais compensações do pós-guerra, Portugal participou no conflito. Seguiu-se a Conferência de Paz em 1919 e depois a Sociedade das Nações, ambas a estabelecerem focos de desestabilização no que respeitava às colónias.

Todavia, foi em 1924 que a situação atingiu um ponto crítico, quando Norton de Matos, o alto-comissário de Angola, referenciou num relatório os «tremendos perigos» que cercavam este território, os quais só podiam ser eliminados através de uma política de colonização efectiva, reforço da rede administrativa e de desenvolvimento económico – em síntese, as bases do seu projecto governativo62. Norton de Matos foi no entanto forçado a

61 TELO, António José, Decadência e Queda da I República Portuguesa, Vol. II, Lisboa, A Regra do Jogo,

1980, p. 22.

62 MARTINS, Fernando, “A Questão Colonial na Política Externa Portuguesa: 1926-1975” in ALEXANDRE,

deixar a governação de Angola, devido às muitas críticas oriundas de Lisboa e às dificuldades que o seu plano encontrou nesta colónia63.

Para agravar ainda mais a situação, em finais de 1924, chegaram rumores a Lisboa de uma eminente acção de separatismo por parte dos colonos brancos em Angola. Saliente- se que aquilo que era imaginado em Portugal como um «separatismo branco», mais não foi do que um simples descontentamento face ao caos financeiro existente e um desejo de maior autonomia face à metrópole64.

No ano sequente, irrompeu uma nova inquietação no plano internacional quando o sociólogo norte-americano Edward Ross entregou em Genebra, um relatório que acusava as autoridades portuguesas em Angola e em Moçambique, de práticas de trabalho forçado, muito próximas às de escravatura. Este relatório provocou enormes repercussões quer a nível nacional, quer a nível internacional. Em Portugal, sentiu-se uma vez mais a ameaça de desmembramento do seu Império ultramarino65.

Com a Ditadura Militar, persistiram os problemas coloniais legados da I República. A complicada situação económica e financeira em que estavam mergulhados os territórios ultramarinos portugueses neste período, fez ressurgir a ameaça de uma intervenção internacional, desta vez executada pelo governo da União Sul-Africana que nunca havia escondido as suas pretensões sobre os territórios portugueses de Moçambique e de Angola.

Desde 1919 que a União Sul-Africana efectuou pressões relativamente aos corredores de passagem portugueses para o interior da África austral66. Para a consolidação da sua hegemonia nesta zona do continente africano, a gestão do corredor de Lourenço

63 ROSAS, Fernando, O Estado Novo nos Anos Trinta: Elementos para o Estudo da Natureza Económica e

Social do Salazarismo (1928-1938), Lisboa, Estampa, 1986, p. 89.

64 ALEXANDRE, Valentim, “Ideologia, Economia e Política: A Questão Colonial na Implantação do Estado

Novo” in Análise Social, n.º 123-124, Vol. XXVIII, 1993, p. 1119.

65 TELO, António José, Economia e Império no Portugal Contemporâneo, Lisboa, Cosmos, 1994, pp. 225-

226.

66 TELO, António José, Economia e Império no Portugal Contemporâneo, Lisboa, Cosmos, 1994, pp. 227-

Marques – quer do porto, quer do caminho-de-ferro para o Transval – afigurava-se essencial67.

Perante as pressões em 1927 do governo de Pretória para a constituição de uma comissão conjunta com vista a administrar o porto e o caminho-de-ferro de Lourenço Marques, o ministro das Colónias João Belo retorquiu em finais de Maio com a publicação de um conjunto de decretos que visou reduzir a emigração moçambicana para as minas do Rand, assim como fomentar a indústria açucareira a sul do rio Save. Estas medidas mais não foram do que uma tentativa do ministro, de dar início a um projecto para libertar a economia colonial de Moçambique da sua dependência dos sul-africanos68.

Nesta questão, Portugal contou sempre com um discreto mas muito importante apoio da Grã-Bretanha, sendo que face a este contexto, a União Sul-Africana, como retaliação, apressou-se a desviar o tráfego marítimo para os portos de Natal e do Cabo em detrimento do de Lourenço Marques69.

Os diferendos entre Lisboa e Pretória relativamente ao corredor meridional e à mão- de-obra moçambicana só foram devidamente resolvidos através da assinatura de uma convenção que teve lugar na capital sul-africana a 11 de Setembro de 1928. No que se referiu ao corredor de Lourenço Marques, a União Sul-Africana abdicou de modo definitivo de o gerir directamente, em compensação de vantagens económicas e de estabilidade na zona; sobre a emigração para mão-de-obra, ficaram estabelecidas as condições de recrutamento dos trabalhadores indígenas, como a fixação de limites geográficos para o recrutamento, ou mesmo a redução da duração dos contratos.

Quase em simultâneo, e com a finalidade de proteger o acesso internacional ao interior do continente africano, foi igualmente assinado uma convenção para a gestão do corredor de Benguela. Pese embora as linhas de caminhos-de-ferro só tenham chegado aos limites orientais de Angola no início da década de 1930, rapidamente esta se transformou

67 MARTINS, Fernando, “A Questão Colonial na Política Externa Portuguesa: 1926-1975” in ALEXANDRE,

Valentim, O Império Africano (Séculos XIX e XX), Lisboa, Colibri, 2000, p. 147.

68 ALEXANDRE, Valentim, “Ideologia, Economia e Política: A Questão Colonial na Implantação do Estado

Novo” in Análise Social, n.º 123-124, Vol. XXVIII, 1993, p. 1129.

69 TELO, António José, “Política Externa” in Dicionário de História do Estado Novo, Vol. II, dir. por

na principal via de escoamento dos minérios provenientes do Catanga – a mais importante região mineira do Congo belga – e da Rodésia do Norte70. Para Portugal, estes acordos não só funcionaram como uma importante fonte de rendimento para os cofres do Estado, como também permitiram resistir melhor às pressões internas oriundas dos colonos em Angola, descontentes com a situação financeira da colónia, e às pressões externas, designadamente na Sociedade das Nações, onde alguns países ambicionavam uma nova divisão do mapa do continente africano71.

Outro dos pontos sensíveis em relação às colónias portuguesas consistiu no trabalho indígena. Desde o ano de 1926 que se acentuaram cada vez mais as pressões da Sociedade das Nações a Portugal, no sentido de abolir o trabalho forçado nos seus territórios coloniais – uma prática comum onde as autoridades portuguesas, intervinham directamente no recrutamento de mão-de-obra indígena, quer para fins públicos, quer para fins particulares.

Como tentativa de tornar a posição portuguesa menos vulnerável no panorama internacional face a este assunto, foi publicado a 6 de Dezembro de 1928, o Código do Trabalho dos Indígenas. Com a principal finalidade de contemporizar o assunto face às tensões com Genebra, o Código de 1928 retirava ao Estado português, a actividade do recrutamento dos indígenas, passando este para domínio dos privados.

Nos territórios coloniais, o novo código provocou momentaneamente alguma insatisfação, com as muitas críticas dos colonos portugueses de não conseguirem «satisfazer as suas necessidades de mão-de-obra sem a intervenção das autoridades»72. Não obstante, depressa os administradores voltaram novamente a intervir junto dos sobas, levando estes a cederem trabalhadores de modo a poderem pagar um imposto.

As tensões com a Sociedade das Nações em relação ao assunto do trabalho indígena iriam continuar a subsistir, sendo que em 1930, atingiram novamente outro ponto crítico. Em Janeiro desse ano foi divulgado no Boletim da Agência Geral das Colónias, um

70 MARTINS, Fernando, “A Questão Colonial na Política Externa Portuguesa: 1926-1975” in ALEXANDRE,

Valentim, O Império Africano (Séculos XIX e XX), Lisboa, Colibri, 2000, p. 148.

71 TELO, António José, “Política Externa” in Dicionário de História do Estado Novo, Vol. II, dir. por

ROSAS, Fernando e BRITO, José Maria Brandão de, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, p. 770.

72 ALEXANDRE, Valentim, “Ideologia, Economia e Política: A Questão Colonial na Implantação do Estado

inquérito realizado pela Organização Internacional do Trabalho, a pedido do organismo de Genebra sobre o trabalho forçado ou obrigatório. Além de criticar a Sociedade das Nações pela sua constante intromissão nos assuntos coloniais portugueses, o Boletim alertava ainda a identificação desta instância internacional entre trabalho forçado e trabalho obrigatório, situação que colocava em causa Portugal, visto que o governo português concedia a legalidade deste último73.

Com o principal propósito de tornar o Império ultramarino um todo indissolúvel da metrópole e protegê-lo das inconveniências internacionais que pudessem afectar a soberania colonial portuguesa, António de Oliveira Salazar, ministro interino das Colónias, apressava-se a publicar em finais de Abril de 1930 o Acto Colonial74. Este diploma definiu uma linha de política colonial que determinava uma centralização política e administrativa, concedendo à metrópole, o controlo de todas as decisões nas colónias. Além destes aspectos, o diploma estabeleceu ainda o «estatuto do indigenato», o qual classificava os indígenas como parte integrante das colónias portuguesas75.

O Acto Colonial de 1930 reafirmou a soberania do Império colonial português face às ameaças e intromissões provenientes do exterior. Imediatamente à sua publicação, o governo português defendeu-se com este diploma, recusando-se categoricamente por isso a ratificar uma conferência da Sociedade das Nações sobre a questão do trabalho indígena nas colónias.

73 ALEXANDRE, Valentim, “Ideologia, Economia e Política: A Questão Colonial na Implantação do Estado

Novo” in Análise Social, n.º 123-124, Vol. XXVIII, 1993, p. 1133.

74 O Acto Colonial foi aprovado a 8 de Julho de 1930 e substituiu o título V da Constituição de 1911 referente

às colónias. Para mais informações, vide Diário do Governo, I Série, n.º 156, 8-7-1930.

75 SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal. Do 28 de Maio ao Estado Novo (1926-1935), Vol.

2.2. POLÍTICA EXTERNA ESPANHOLA