Capítulo III: O Problema de Newton
3.2. O Problema de Newton como o Problema de se Explicar a Causa da Gravidade
A identificação por parte dos cartesianos das proposições (a) e (b) acima a hipóteses não chega a ser propriamente uma crítica deles à teoria newtoniana. De fato, para os adeptos da física cartesiana, estes ou quaisquer outros princípios dos quais se possam derivar explicações físicas deveriam, inevitavelmente, ter um caráter hipotético, uma vez que esses partidários de Descartes defendem a impossibilidade do conhecimento da verdadeira natureza do mundo visível e, por conseguinte, a necessidade do recurso a hipóteses nas explicações físicas. Veremos adiante que, frente a isso, Newton irá procurar insistentemente afastar qualquer possibilidade de identificar o seu princípio de gravitação universal a uma hipótese. No entanto, no tocante aos movimentos planetários segundo as leis de Kepler, poderia parecer-nos, ao menos num primeiro momento, não haver desacordo inicial entre o autor do Principia e os cartesianos em entender tais movimentos como sendo como hipóteses, visto que, na
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Nessa direção, podemos citar, ainda, um outro trecho, desta vez retirado de uma carta de Huygens a Leibniz em 8 de novembro de 1690: “Não estou de modo algum satisfeito com aquilo que Mr. Newton oferece como sendo Causa das Marés, nem com todas as Teorias que ele construiu a partir do seu Princípio de atração, que me parece absurdo” (Apud NEWTON, 1959-1977, v.3, p.81-2, nota 8; grifo nosso).
primeira edição da obra, o próprio Newton dava aos enunciados desses movimentos o título de “Hipóteses”.
A crítica propriamente dita é o fato de que esses cartesianos consideram essas proposições (a) e (b) como possuindo um caráter arbitrário, o que, como vimos anteriormente, implicaria que elas seriam ininteligíveis e, portanto, inaceitáveis na física. A acusação da arbitrariedade de (b), os “movimentos que [Newton] supôs”, fundamenta-se na quase generalizada omissão ou recusa das leis de Kepler123 nos tratados astronômicos e de filosofia natural da segunda metade do séc. XVII124.
Por sua vez, a arbitrariedade da proposição (a), “[o] princípio de que todos os planetas pesam [ou gravitam] uns sobre os outros”, era devida em grande medida à impossibilidade de se explicar esse princípio de gravitação newtoniano pelas propriedades da substância material cartesiana (mobilidade, divisibilidade e capacidade de transmitir movimento por meio de colisões). Segundo pensamos, este parece ser o tipo de “prova” requerida pelo autor da resenha do Journal des Sçavans para que pudesse inteligir a “suposição” de Newton e, assim, aceitá-la enquanto uma boa explicação física125. Assim, a acusação da ininteligibilidade da gravitação universal passou a ser um lugar comum e o ponto fundamental nas investidas mais contundentes dos cartesianos contra a teoria da gravitação126. Pretendemos, daqui a diante, analisar
123 Whiteside apresenta-nos as três “hipóteses” (ou leis) de Kepler como sendo as seguintes: (1ª) os
planetas movem-se em órbitas elípticas fixas em torno do Sol, localizado em um dos focos; (2ª) os raios vetores que unem os planetas ao sol descrevem áreas proporcionais aos tempos nos quais eles percorrem arcos orbitais correspondentes; (3ª) os quadrados dos tempos periódicos das trajetórias dos planetas são proporcionais aos cubos de suas ditas distâncias médias a partir do sol. Cf. WHITESIDE, 1964, pp. 120-1
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A este respeito, Cf. BARRA, 1995, p. 236. Para saber mais sobre a questão da aceitabilidade das leis de Kepler na filosofia natural do século XVII, Cf. FRENCH, 1989, p. 39 e WHITESIDE, 1964, pp. 121.
125 Neste ponto, estamos, mais uma vez, apoiando a nossa interpretação naquela proposta por Barra (1995,
p. 239).
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Nessa direção, podemos citar, ainda, um outro trecho, desta vez retirado de uma carta de Huygens a Leibniz em 8 de novembro de 1690: “Não estou de modo algum satisfeito com aquilo que Mr. Newton oferece como sendo Causa das Marés, nem com todas as Teorias que ele construiu a partir do seu Princípio de atração, que me parece absurdo” (Apud NEWTON, 1959-1977, v.3, p.81-2, nota 8; grifo nosso).
em detalhes como essa crítica decorre de algumas das questões intrincadas no Problema de Newton. Passemos, então, a tal análise.
Conforme dissemos, a questão mais difícil a ser enfrentada por Newton para sustentar a matéria como essencialmente inerte no Principia, conforme ele desejava, era a sua postulação da atração gravitacional entre os corpos. O autor afirma existir realmente esse poder de atração dos corpos pesados uns sobre os outros, entretanto, em nenhum momento, ele atribui à gravidade que diz atuar nesses corpos uma causa extrínseca a eles. Isto, de imediato, dá ensejo aos cartesianos para que passem a entender a força gravitacional de Newton como uma qualidade essencial e inerente à matéria, isto é, que entendam a matéria no Principia como sendo ativa por sua própria natureza. Mas suposta atividade está em flagrante oposição com as concepções dos cartesianos sobre o que poderia ser aceitável na física; apoiados em Descartes eles entendem que a matéria deve ser pura e simplesmente extensão e, portanto, redutível às seguintes propriedades essenciais: mobilidade, divisibilidade e capacidade de transmitir movimento por meio de choques mecânicos e inércia. Desta forma, os corpos não podem apresentar outras qualidades ditas essenciais e/ou inerentes127 além dessas listadas por Descartes. Está claro, portanto, que, para os cartesianos, a matéria não pode ser essencialmente ativa, isto não seria algo inteligível dentro dos padrões da física cartesiana. Assim, a causa da gravidade que atua nos corpos deve lhes ser uma designação absolutamente extrínseca; pensar contrariamente, como eles julgavam que Newton tinha feito, implicaria um absurdo, e, para eles, princípios absurdos não podem ser aceitos na física. Por outro lado, a hipótese de Descartes da “matéria inicial”, enquanto uma causa material extrínseca aos corpos, seria, para esses cartesianos, plenamente inteligível e, por sua vez, perfeitamente aceitável como explicação física.
127 Conforme vimos anteriormente, as características da “matéria inicial” explicam porque, para
Além disso, essa ausência de uma explicação, por parte de Newton, para a causa da gravidade faz, ainda, com que os cartesianos infiram uma outra conseqüência absurda da teoria do inglês: uma ação à distância entre os corpos. Tomar a matéria como sendo essencialmente atrativa, conforme fazem os cartesianos ao considerar a teoria newtoniana, sugere que nenhum outro intermediário é necessário para que a atração opere. Assim, mesmo que dois corpos estejam separados por um vácuo (isto é, um “meio” desprovido de qualquer matéria), eles podem agir um sobre o outro128. Mas, segundo os padrões epistemológicos adotados pelos cartesianos, a gravidade que atua nos corpos pesados (sejam eles planetas ou objetos terrestres) deve ser explicada por meio da colisão ou, se preferirmos, a choques mecânicos entre as partículas destes corpos e os corpúsculos invisíveis (as partículas da “matéria inicial”)129. É, portanto, justificável que, para os adeptos da física de Descartes, falar uma ação sem mediação de
qualquer natureza (o que a falta de uma causa para a gravidade na teoria de Newton
parecia implicar) envolva, indiscutivelmente, uma idéia ininteligível e, por isso, absurda, que se afigura, consequentemente, como inaceitável na física.
Após todas essas considerações, temos, finalmente, que a principal crítica dos cartesianos à teoria newtoniana consistia, em suma, na dificuldade de se atribuir uma causa à gravidade que atua nos corpos dentro da dinâmica do Principia. Assim, essa dificuldade passa a ser o principal problema a ser enfrentado por Newton para que possa consistentemente sustentar, frente a seus críticos, a matéria enquanto um princípio passivo do movimento na referia obra. Baseados nessas considerações, nós pensamos ter razões suficientes para concluir que: responder satisfatoriamente a crítica de que o princípio de gravitação universal seria uma hipótese absurda equivaleria a dar uma
128 E, a propósito, Newton não precisa mesmo lidar com nenhum tipo de corpúsculo invisível
preenchendo o espaço entre os corpos para estabelecer a sua teoria.
129 Sobre essa questão dos corpos como sendo extensão, e as conseqüências que disse se segue, Cf.
resposta aceitável ao Problema de Newton, e vice-versa. Mas será que Newton consegue realmente dar uma boa resposta aos partidários da física de Descartes? Isto é precisamente o que analisaremos a seguir.