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PARTE I – PROPOSTA DE ABORDAGEM DO TEMA

1.1 Problema

Muitas são as divergências encontradas na literatura especializada sobre a contribuição do IDE para o maior dinamismo tecnológico brasileiro.

A maior exposição internacional a partir da década de 1990 gerou a expectativa de que as empresas estrangeiras incrementassem a competitividade brasileira através de esforços tecnológicos internos. Neste contexto, o ingresso do IDE promoveria tanto uma maior concorrência quanto traria consigo modernização e tecnologias capazes de serem transferidas, promovendo um efeito transbordamento e elevando o nível de conhecimento e desenvolvimento tecnológico da atividade produtiva local.

Comparando o modelo econômico seguido até o final da década de 1980 e o iniciado na década de 1990 no Brasil, Franco (1996) argumenta que numa economia protegida, o mundo empresarial reluta em dedicar recursos escassos a investimentos em qualidade e produtividade.

Num outro contexto, onde existem competidores estrangeiros ávidos para ocupar maiores fatias do mercado, o investimento em tecnologia, qualidade e produtividade se torna uma necessidade.

Quanto ao tipo de atividade tecnológica desenvolvida por empresas transnacionais (ETs) nos diferentes países, De Negri e Laplane (2009, p. 9) ressaltam:

Adaptação de produtos versus busca tecnológica constituem os dois extremos no conjunto possível de motivos que levariam à internacionalização das atividades tecnológicas das ETNs. Por um lado, a adaptação de produtos seria uma atividade

“menos nobre”, já que não está relacionada à produção de conhecimento novo e seria capaz de gerar poucas externalidades para o país receptor. Também estaria mais associada aos investimentos realizados em países em desenvolvimento, com poucas capacitações tecnológicas e tradição inovadora. Por outro lado, o monitoramento das atividades tecnológicas de outros países seria feito nos países mais desenvolvidos e com tradição tecnológica em algumas áreas específicas. Esse seria o investimento mais “nobre” do ponto de vista da geração de conhecimentos e externalidades.

Assim, segundo esses autores, a contribuição das ETs ao processo inovativo dos países em desenvolvimento limitar-se-ia a adaptação de produtos e processos originários dos países desenvolvidos, enquanto os investimentos em pesquisa básica e aplicada, quando realizados externamente, se dariam nos países desenvolvidos.

Complementarmente, quanto ao custo da transferência tecnológica, Teece (1977) salienta que este deve incluir tanto o custo de transmissão quanto o custo de absorção. Este último deve ser considerável quando a tecnologia é complexa e a firma receptora tem baixa capacidade de absorção tecnológica. Isto implica que o potencial de absorção suficiente para permitir a própria adaptação de produtos e processos requer, em alguma medida, investimentos em busca tecnológica, por parte das empresas.

Neste contexto, pesquisas sobre a atividade tecnológica desenvolvida por ETs no Brasil têm apresentado resultados não conclusivos, senão contraditórios.

Cassiolato e Lastres (1999) apontaram que, durante os anos 1990, houve um processo de downgrading no Brasil, na medida em que as aquisições das firmas nacionais por firmas estrangeiras engendraram efeitos negativos no potencial de inovação das empresas. Nas firmas de alta tecnologia, as atividades de P&D foram igualmente reduzidas após a incorporação por multinacionais. O “resultado é que o capital tecnológico assim como parte importante da capacitação dos recursos humanos gerados e acumulados desde o período de substituição de importações tornaram-se obsoletos no período atual” (CASSIOLATO e LASTRES, 1999, p. 23).

Entretanto, pode-se questionar se este processo não foi específico do momento inicial, logo após a incorporação, de tal forma que a partir de uma melhor percepção das empresas sobre as especificidades do mercado brasileiro, passou-se a justificar, pelo menos, a manutenção das atividades tecnológicas relativas à adaptação de produtos.

Pesquisa coordenada por Matesco in SOBEET (2000), baseada em entrevistas realizadas em uma amostra de 85 firmas multinacionais, correspondentes a 5% do produto interno bruto

brasileiro e 15% do produto industrial brasileiro, distribuídas em indústria automobilística (12,9%), máquinas e equipamentos (18,8%), eletroeletrônica (20,2%), química (24,7%), instrumentos de medição (3,5%), têxtil e vestuário (3,5%) e plástico e borracha (3,5%), concluiu que as atividades inovativas que envolvem concepção de novos produtos ou processos de produção são integralmente realizadas no centro de pesquisa da matriz ou nos centros de pesquisa contratados pelo primeiro. No Brasil, as atividades tecnológicas mais frequentes destinavam-se ao suporte tecnológico e de controle de qualidade. Quanto às atividades de P&D, dedicavam-se fundamentalmente à adaptação de produtos e de processos. O principal objetivo do investimento tecnológico das firmas multinacionais foi o aumento da participação no mercado nacional. Esta também foi uma das conclusões da pesquisa de Hasenclever e Matesco (2000, p. 188), “a maioria das empresas realiza inovação com o objetivo de buscar maior participação no mercado, adaptando a mesma linha de produto de sua matriz”.

O trabalho da SOBEET (2000) concorda que, de um modo geral, não faz parte da estratégia das firmas multinacionais aumentar a produção de conhecimento em países como o Brasil (carentes de conteúdos científicos e tecnológicos), cujo interesse concentra-se na exploração comercial e modernização das instalações das filiais. Os deslocamentos das atividades de P&D destinados à geração de conhecimentos direcionam-se, notadamente, aos países identificados pela qualidade de seus sistemas nacionais de inovação (CASSIOLATO e LASTRES (2005); SOBEET (2000); MELO e MOREIRA (2002)).

Outro estudo realizado nesta linha é o de Melo e Moreira (2002), neste observa-se que os países em desenvolvimento, como o Brasil, não se inserem nas estratégias das ETs de construção de redes mundiais de produção tecnológica. No que se refere às alianças estratégicas, destaca-se o fato de que somente duas alianças foram efetuadas por empresas sediadas no Brasil com empresas de outros países (Canadá e México) no total de 870 acordos inter-empresas realizados no período 1992-1995, no mundo. Contudo, admite que no caso dos acordos que implicam em transferência de tecnologia, tais como os de licença e de joint venture, a participação do Brasil foi importante nos anos 1990.

Em pesquisa desenvolvida por Arbix, De Negri e Salerno (2004), baseada em dados da Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC), indicou-se que empresas transnacionais instaladas no Brasil investem parcela maior de seu faturamento em atividades inovativas do que a média da indústria brasileira e concluiu que o IDE implica não apenas em reduzir custos, ganhar escala e

acessar matérias-primas, mas principalmente na criação de valor adicionado, na difusão de novas tecnologias, na exposição às melhores práticas gerenciais e na inovação em escala global (ARBIX, DE NEGRI e SALERNO, 2004; SOBEET, 2008).

Ressalta-se também o estudo de Araújo (2005) cuja pesquisa se destinou, dentre outros objetivos, a observar os esforços tecnológicos de ETs no Brasil. Foram utilizados dados da PINTEC 2000 para comparar a participação das ETs com a das empresas domésticas nas atividades tecnológicas brasileiras. As firmas são divididas por origem do capital (domésticas e transnacionais) e por nível de atividade tecnológica (firmas que inovam e diferenciam produtos;

firmas especializadas em produtos padronizados; firmas que não diferenciam produtos e têm produtividade menor).

Dentre os resultados desta pesquisa, destaca-se a conclusão de que as firmas domésticas estão concentradas nas categorias das firmas especializadas em produtos padronizados e das firmas que não diferenciam produtos e têm produtividade menor. Já para as filiais das firmas transnacionais, nota-se que estão concentradas nas firmas que inovam e diferenciam produtos e firmas especializadas em produtos padronizados.

Outro ponto destacado por Araújo (2005) é que o nível de escolaridade médio da mão-de-obra das firmas transnacionais, independentemente da categoria, é maior do que o das firmas domésticas.

O esforço inovativo que teve maior nível de gastos, sem nenhuma surpresa, foi a aquisição de máquinas e equipamentos, seja para as domésticas, seja para as ETs. Esse tipo de esforço exige naturalmente níveis de gastos maiores e boa parte das empresas que inovaram declarou que adquiriu algum tipo de máquina ou equipamento especificamente voltado para inovação. Percebeu-se também que, em geral, as ETs inovam com mais frequência que as firmas domésticas. Porém, ao que tudo indica, os dispêndios de P&D efetuados pelas ETs são mais voltados para adaptação de produtos e processos do que necessariamente à criação de novas soluções tecnológicas. Entretanto, alguns esforços realizados por essas empresas foram destinados para atender não somente ao mercado local, mas também a mercados regionais como o MERCOSUL.

O World Investment Report (WIR) da UNCTAD (2005) divulgou estudos sobre as perspectivas dos fluxos mundiais de IDE para 2005-2009. Os estudos sugeriram crescimento dos fluxos aos países em desenvolvimento, estando o Brasil entre os cinco mais atraentes do globo.

Esta posição privilegiada contrasta com os resultados desta pesquisa sobre as intenções de investimento em P&D. Neste aspecto, o Brasil foi citado como possível destino de investimentos em P&D por apenas 1,5% das 68 ETs consultadas. Esta baixa atratividade chamou maior atenção pelo fato de 13,2% destas empresas serem reconhecidas como investidoras em P&D no Brasil.

O World Investment Prospects Survey 2009-2011 da UNCTAD (2009) divulgou pesquisa na qual revela que o Brasil passou para a quarta posição no ranking dos destinos preferidos do IDE para o período 2009-2011. Quanto aos fatores de atratividade deste investimento, destacaram-se positivamente o tamanho e crescimento do mercado, enquanto a eficiência governamental e a qualidade da infraestrutura local encontram-se abaixo da média mundial.

O menor potencial de atratividade referente à eficiência governamental e infraestrutura local podem estar revelando precariedade destes fatores e, consequentemente, reduzindo o interesse do IDE em realizar atividades mais complexas que necessitem de maior interação com a infraestrutura disponível, as instituições e agentes produtivos locais. Ou seja, estes investimentos teriam baixo potencial em desenvolver atividades tecnológicas de maior complexidade no país.

Entretanto, observações empíricas sobre as movimentações do IDE, no atual contexto de abertura comercial e financeira, levaram ao surgimento de estudos, tais como o de Moreira e Almeida (2012), que questionam o próprio potencial do IDE em contribuir para a transformação da estrutura produtiva e para a promoção do aumento sistêmico de produtividade das economias emergentes. Na verdade, ao identificar uma orientação prioritariamente financeira a guiar as decisões relativas ao IDE, este, acarretaria, muitas vezes, no fechamento de empresas com atividades intensivas em tecnologia e/ou na supressão de geradoras de alto valor agregado, de tal forma que as possíveis melhorias nos níveis de produtividade, em decorrência da introdução de inovações, poderiam ficar restritas às próprias empresas sem grandes efeitos secundários sobre a produção e tecnologia locais.

Neste contexto, caracterizado por um assunto que apresenta visões e dados controversos e carentes de maiores esclarecimentos; devido à forte presença das ETs nos mais diversos setores da economia brasileira - fundamentalmente nos setores mais dinâmicos - e por se admitir a importância da atividade inovativa para a promoção do desenvolvimento econômico de um país, é que a pesquisa de tese propõe, como principal objetivo, identificar se houve avanço ou recuo na realização de atividades tecnológicas das empresas transnacionais no Brasil nos anos mais recentes.