O contexto apresentado anteriormente se apresenta como terreno fértil para muitas indagações, tais como: Quem são os docentes atuantes na licenciatura do IFSC – Campus São José? Qual sua formação? Qual sua compreensão sobre o processo educativo e a formação de professores? Quais as concepções e práticas docentes de formadores de educadores são desenvolvidas neste curso de licenciaturas? E como essa compreensão orienta sua prática?
10 Houve raras experiências em alguns CEFETs, não sendo o caso de Santa Catarina. Embora o IFSC tenha manifestado interesse em algumas ocasiões, não chegou oferecer licenciaturas. A instituição somente passou a ofertar formação de professores a partir de 2009, depois de sua transformação em IF, mediante a Lei 11.892/2008.
11 Posteriormente, o curso passou por reformulações e foi transformado em um curso de Licenciatura em Química.
Como se constituem docentes formadores de professores? Têm formação para a docência no Ensino Superior? Como ocorreu ou está ocorrendo a transição de professor da EB para a ES?
A circulação/atuação concomitante entre a educação básica e a educação superior consiste em fator significativo em sua profissionalização? Quais os principais limites/dificuldades/
desafios/complicações enfrentados em sua atuação profissional na formação de professores para a EB? Qual o nível de consciência destes desafios/complicações na docência universitária?
Como são enfrentadas as complicações/desafios?
Dentre essas indagações, instigou-me de maneira mais profunda a necessidade da pesquisa e reflexão sobre as concepções e práticas docentes de formadores de educadores desenvolvida no IFSC, visto que esta formação desempenha papel singular na formação e desempenho dos licenciandos ao longo de suas trajetórias profissionais. Também me instiga a curiosidade como pesquisadora a especificidade de que a oferta de licenciaturas, nos Institutos Federais, é fato recente. Essa oferta foi definida a partir de um dispositivo legal, não a partir de uma reivindicação dos profissionais envolvidos. Assim, a gênese dos cursos não se deu a partir da necessidade e interesse dos profissionais envolvidos, tampouco a partir de suas experiências em formação de professores, uma vez que os IFs não têm tradição nessa área. Diante desta imposição legal, torna-se pertinente buscar compreender como esses professores se constituíram docentes da educação superior na transição que vem ocorrendo no trabalho docente desenvolvido nos IFs, devido aos desafios de uma docência para a formação de profissionais cujo perfil de atuação é na educação básica.
Assim, busco elementos que indiquem uma resposta para a seguinte pergunta: Como a atuação concomitante na Educação Básica e na Educação Superior implica na constituição da profissionalidade dos docentes formadores de professores atuantes na licenciatura do IFSC – Campus São José?
No sentido de auxiliar esta compreensão elenco alguns blocos de questões pertinentes à problemática de pesquisa: 1) Como se constituem docentes formadores de professores no IFSC – Campus São José? A circulação/atuação concomitante entre a educação básica e a educação superior consiste em fator significativo em sua profissionalização? A verticalização do ensino exerce influência na dimensão didático-metodológica do tratamento do conteúdo por estes docentes? 2) Em que medida estes docentes identificam os principais limites/dificuldades/desafios enfrentados em sua atuação profissional? Qual o nível de consciência destes desafios/complicações e como são enfrentadas? 3) Qual o papel da circulação de conhecimento e práticas na profissionalização para a DES?
A partir destes questionamentos, busco compreender quais relações entre a atividade docente desenvolvida na licenciatura e a experiência na EB e no ES, considerando as dimensões teóricas e metodológicas que permeiam as práticas implementadas na DES na licenciatura do IFSC – Campus São José.
Como objetivos específicos elenco os seguintes: a) Delinear como está sendo pensada a formação do docente formador e sua influência na formação dos demais profissionais, ou seja, a DES a partir da literatura; b) Identificar se o coletivo de professores da licenciatura do IFSC – São José tem consciência das complicações que está enfrentando ao formar professores de Química para a EB e quais ações está realizando no sentido de superá-las. c) Discutir aspectos teóricos e epistemológicos relacionados à profissionalização do DES e analisar o papel da circulação intracoletiva e intercoletiva de conhecimentos teóricos e práticos na profissionalização docente de formadores de professores; d) Localizar aspectos relacionados a um processo de formação continuada e indicar possibilidades de potencialização dos espaços de (auto)formação dos docente formadores de professores no IFSC; e) Caracterizar (retomar historicamente) o processo de implantação dos IFs e dos seus cursos de licenciatura neste contexto – em especial, o curso de Licenciatura Química em São José.
Para alcançar os objetivos a que me propus, empreendi uma revisão de literatura em bases de dados e banco de teses e dissertações CAPES, com principal atenção aos trabalhos realizados no PPGECT/UFSC – Programa de Pós-Graduação em Educação Cientifica e Tecnológica da Universidade Federal de Santa Catarina e no PPGE/UFSC – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina que discutem as contribuições da epistemologia fleckiana para a compreensão da constituição da profissionalidade do DES. Também se fez necessário análise documental da legislação de criação dos IFs, do PDI do IFSC e PPC dos cursos, buscando construir um resgate histórico da construção dos IFs, da implantação das licenciaturas e da construção do projeto de curso da Licenciatura em Ensino de Ciências com habilitação em Química do Campus São José. Elaborei um questionário e apliquei-o a todos os docentes da Licenciatura, incluindo alguns docentes já aposentados. A partir dos dados coletados com esse instrumento, foi possível selecionar elementos para subsidiar a seleção dos docentes entrevistados e a construção do roteiro da entrevista semiestruturada. A amostra dos docentes selecionados é composta por um docente da área de Humanas, um docente da área de ensino de Ciências e um docente da área de Química. Assim, este trabalho pode ser caracterizado como um Estudo de Caso (EC), e as várias fontes de informação de dados e sua análise para o EC realizado são apresentados ao longo dos capítulos.
Tomando como contexto de pesquisa uma situação em que a DES ainda não está consolidada, por estarem os sujeitos da pesquisa construindo sua profissionalidade, busco pistas que me possibilitem descrever a profissionalidade do docente de ensino superior e tecer problematizações que auxiliem a pensar sobre ela. Ou seja, busco apreender os fios dessa trama para que nossos leitores possam fazer as compreensões possíveis.