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6. O pároco

6.3. Problemas das côngruas e projectos de reforma

De acordo com o Mapa estatístico das côngruas dos párocos e coadjuctores do

continente do reino, publicado em 1839-40, existiam no Continente 3749 párocos e 294

coadjutores, que recebiam uma côngrua que ultrapassava os 600 contos. Para esse montante contribuíam os rendimentos dos passais e dos foros (100 contos), do pé de altar e de outros direitos paroquiais (260 contos) e das derramas (310 contos). Contudo, as dificuldades económicas dos párocos persistiam. Por essa razão, o problema voltou à Câmara do Deputados, em finais da década de 40, onde se debateu um projecto apresentado pela Comissão Parlamentar Eclesiástica, que se destinava a por fim ao conflito entre o povo e os párocos. Para vários deputados a solução passava pela funcionalização completa do clero tal como acontecia na Madeira e nos Açores. Porém as dificuldades financeiras do Estado não permitiam a concretização da hipótese.

A deficiente aplicação da legislação sobre as côngruas, a irregularidade na cobrança do imposto nalgumas regiões, as assimetrias económicas, as desigualdades dos rendimentos entre os párocos criava inúmeras situações de injustiça e suscitava várias polémicas. O ministro da Justiça denunciou a irracionalidade da divisão paroquial resultante das disparidades na dimensão geográfica das freguesias. Mas devido à recente revolta da Maria da Fonte, era impossível reduzir o número de paróquias, pois o país não suportava novas tensões sociopolíticas.

O Governo adiou a questão, pois considerava a reforma do sistema tributário mais importante. Assim os párocos continuaram a ser sustentados pelos paroquianos, enquanto bispos e membros dos cabidos das dioceses eram sustentados pelo Estado.

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O sustento dos párocos foi muito debatido na imprensa e no Parlamento. Na Concordata de 1848, reconhecia-se a necessidade de alterar o sistema. Contudo, não houve alterações na legislação e o problema só voltou a ser abordado na década de 60. Com a expropriação dos bens das ordens religiosas femininas pensou-se em aplicar uma das suas partes à sustentação do culto e do clero, mas não chegou a concretiza-se. Em 1862, o ministro da Justiça, Gaspar Pereira da Silva, apresentou uma proposta lei que acabava com as côngruas. O Estado passaria a subsidiar os eclesiásticos, através dos impostos directos dos cidadãos e rendimentos dos passais, foros e pensões. Mas para tal havia que reformar a divisão paroquial e classificar as paróquias em quatro categorias. As remunerações dos párocos seriam proporcionais à dimensão das suas freguesias. O projecto não chegou avançar por falta de interesse dos deputados.

Em 1865, o deputado Levy Maria Jordão, também apresentou uma proposta. Havendo uma religião oficial cabia ao Estado sustentar os membros da Igreja e financiar o culto. A estrutura da Igreja devia ser racionalizada e coincidir com a divisão da administração judicial. Para isso deveriam-se reduzir o número de dioceses e de cabidos. As freguesias deveriam ser divididas em quatro classes de acordo com a população. As côngruas, os direitos de estola, pé de altar e outros rendimentos dos párocos eram abolidos e substituídos por uma remuneração mensal, proporcional à importância das freguesias e paga a nível concelhio. Esta remuneração deveria provir dos bens das ordens religiosas femininas à medida que os conventos fossem extintos e a propriedade das irmandades ou confrarias fosse suprimida. Como estas verbas seriam insuficientes, tinham de ser complementadas com impostos directos pagos pelos cidadãos. A proposta também previa a melhoria da situação material dos bispos, membros dos cabidos da diocese e o direito de aposentação para todos os eclesiásticos. Caso tivesse sido aprovado o projecto teria transformado os párocos em funcionários do Estado. Mas tal também não suscitou o interesse dos deputados.

Em 1868, Sá da Bandeira defendeu a funcionarização dos párocos tal como acontecia em França e na Bélgica. O debate sobre esta questão era cíclico, e em 1883, Júlio Marques de Vilhena apresentou um projecto de lei sobre a dotação do culto e clero. Vilhena defendia que o Estado deveria sustentar os párocos, acabando com os conflitos com as populações e as desigualdades económicas. Em algumas regiões os párocos viviam na pobreza e abandono, enquanto noutras obtinham rendimentos elevados através dos passais. Daí a grande ambição de muitos párocos consistir na

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obtenção de um bom passal. Esta disparidade de rendimentos também se passava entre os bispos.

Para Vilhena o Estado devia financiar a Igreja através de verbas consignadas no orçamento do Estado. Segundo este, a despesa anual com a religião rondava os 1. 500 contos. Este montante seria custeado com a incorporação de todos os bens e direitos imobiliários das mitras, cabidos, fábricas das catedrais, colegiadas e passais dos párocos

na propriedade do Estado212. Vilhena propunha a desamortização das propriedades das

congregações e a sua utilização nas despesas com o culto e clero. As populações deveriam continuar a pagar as côngruas e o pé de altar (como um imposto directo), ou seja, pagavam ao Estado. O valor destas contribuições, cerca de 580 contos, seria para custear uma parte das despesas com a religião. Por fim, 137 contos seriam prescritos no orçamento geral do Estado para a dotação do clero, os quais seriam incluídos no novo sistema de financiamento da Igreja.

Como a questão era muito complexa e as opiniões dos políticos se dividiam, o projecto não foi aprovado. Os políticos estavam divididos, alguns aceitavam que os párocos fossem funcionários públicos; outros preferiam que fossem assalariados para os libertar da sujeição dos paroquianos; enquanto outros defendiam a liberdade de culto, assim o sustento dos padres deveria caber aos indivíduos da religião a que pertencessem. Os Republicanos por seu lado criticavam as relações político-económicas entre o poder civil e os párocos, dizendo que os párocos se encontravam dependentes dos Administradores de Concelho e Regedores, acabando por os transformar em agentes eleitorais da luta político-partidária.

Periodicamente, alguns bispos levantavam o problema das côngruas na Câmara dos Pares para tentar melhorar a situação dos párocos, mas sempre sem efeito.

O problema da união e supressão de freguesias arrastava-se desde 1840. Foram publicadas várias leis para racionalizar a estruturação eclesiástica. No entanto, as populações sempre se opuseram a qualquer reorganização local. O ministro da Justiça, Campos Henriques, reconheceu a exiguidade das côngruas e prometeu alterar o processo de retribuição paroquial. Pensava que para resolver o problema era prioritário estabelecer uma nova divisão paroquial. Para isso criou, em 1903, uma comissão presidida pelo cardeal patriarca e na qual fazia parte Júlio de Vilhena. Sabendo da

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complexidade da questão, o Governo não estava verdadeiramente empenhado na

resolução do problema, apenas vinha fazer com que se arrastasse213.