Das famílias inquiridas, apenas 3% (n=60) afirmam não ter facilidade em deslocar-se até aos locais de compra de alimentos habituais, sendo que 35,6% destas famílias não possui um veículo próprio para deslocações.
Quadro 34 - Distribuição das famílias com dificuldade em deslocar-se aos locais de compra de alimentos habituais por região (NUT II) e por tipo de meio (% em coluna)
Urbano Semiurbano Rural
N.º % N.º % N.º % Norte 7 26,9 2 20,0 10 43,5 Centro 3 11,5 2 20,0 8 34,8 Lisboa 13 50,0 5 50,0 0 0,0 Alentejo 2 7,7 0 0,0 3 13,0 Algarve 1 3,8 1 10,0 2 8,7 Total 26 100,0 10 100,0 23 100,0
70 Estas famílias residem maioritariamente nas regiões de Lisboa (30,5%) e do Norte (32,2%), concentrando-se, a norte, em zonas rurais (43,5%) e, em Lisboa, em meios urbanos (50%). Mesmo para as famílias que dizem ter dificuldade nas deslocações, os locais de eleição para as compras de alimentos são os super e hipermercados, onde 76,3% destas famílias afirmam fazer compras muitas vezes ou sempre. Estas famílias distinguem-se das que têm facilidade nas deslocações sobretudo no que respeita ao recurso à produção própria, caça ou pesca (mais frequente nas zonas rurais), e à aquisição de produtos diretamente junto do produtor. Face às tendências genericamente observadas, as famílias com dificuldades nas deslocações até aos locais de compra apresentam uma maior quebra no consumo de produtos congelados (-35,6%), carne (- 30%) e peixe (-35%). No caso do consumo de fruta e legumes, apesar de se registar uma percentagem mais elevada de famílias que apontam uma redução, esta é contrabalançada por uma também maior percentagem de famílias que dizem ter aumentado o seu consumo. Estas famílias distinguem-se também por apresentar uma adesão mais vincada ao conjunto de estratégias adaptativas apresentadas, conforme ilustrado no quadro 35.
Quadro 10 - Adesão a estratégias de adaptação, por facilidade em deslocar-se aos locais de compra de alimentos habituais (sim/não) (% de “sim”)
“Tem facilidade em deslocar-se até aos locais onde costuma comprar
alimentos?”
Sim Não
N.º % N.º %
“Começámos a cozinhar e a preparar refeições de uma forma
diferente para evitar desperdício” 1394 71,8 51 85,0 “Passámos a comprar alimentos em estabelecimentos mais
baratos” 1199 61,9 50 83,3
“Passámos a organizar melhor os alimentos no frigorífico
para evitar que se estraguem” 1452 74,8 55 91,7
“Passámos a transmitir às crianças a importância de não
desperdiçar comida” 1698 87,5 57 95,0
“Trocámos os lanches comprados fora de casa (e.g. pré-
confecionados/embalados) por lanches feitos em casa” 1306 67,5 43 71,7 “As crianças deixaram de comer no refeitório da escola e
passaram a levar almoço de casa (e.g. merenda, marmita)” 237 12,2 12 20,0 “Começámos a utilizar mais o congelador (e.g.
aproveitamento de refeições, porções individualizadas para toda a semana)”
878 45,3 30 50,0
“Passámos a cultivar alguns legumes, frutas ou ervas
aromáticas” 815 42,0 34 56,7
“Recuperámos maneiras de conservar e cozinhar alimentos
do tempo dos nossos pais ou avós” 884 45,6 35 58,3 “Começámos a cozinhar de forma a não gastar tanta energia
(e.g. utilizar menos o forno, desligar o fogão antes de os alimentos estarem completamente cozinhados, optar por refeições frias)”
1266 65,3 44 73,3
71 Trata-se de famílias com níveis de escolaridade mais baixos e com situações profissionais mais frágeis, notando-se uma certa concentração nas classes dos agricultores independentes e agricultores independentes pluriactivos (42,6% no total). Aproximadamente 1/4 destas famílias tem rendimentos mensais médios inferiores a 500 euros e quase 40% recebe até 900 euros por mês. Uma parte considerável destas famílias habita em casa de familiares ou amigos (18,6%), observando-se também que a percentagem de agregados que habita em casas arrendadas é também superior à registada nas outras famílias (28,8% no total).
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5. Vivências da insegurança alimentar e estratégias de adaptação: análise de
entrevistas
As escalas de insegurança alimentar são instrumentos determinantes para aferir a prevalência deste fenómeno, a sua severidade, quais os grupos populacionais mais vulneráveis e as alternativas aos consumos básicos alimentares que encontram. Permitem, para além disso, a realização de estudos longitudinais comparativos que possibilitam a sua monitorização e a formulação de políticas públicas tanto à escala nacional, como global e local. Por sua vez, são compostas por indicadores objetivos sobre as condições de existência das famílias, sobre as suas estratégias de adaptação e, também, por indicadores subjetivos sobre a perceção que as famílias têm das vivências que experimentam (Webb et al., 2006). O fenómeno da insegurança alimentar é dinâmico e internamente diversificado, por exemplo, relativamente ao modo como as famílias experimentam subjetivamente os seus consumos (Dowler, Turner e Dobson, 2001). Na Parte III desenvolvemos uma abordagem alternativa e, de certo modo, complementar, que consiste na análise dos discursos das famílias sobre os seus consumos alimentares por recurso à técnica da entrevista. Ao invés da utilização de uma escala para enquadrar as famílias numa tipologia de experiências de insegurança alimentar, optámos por partir dos seus testemunhos para compreender as alterações ocorridas na sua alimentação, as vivências alimentares quotidianas e as estratégias de adaptação que desenvolvem (Pfeiffer, Ritter e Hirseland, 2011).
Tal como referido na metodologia, os testemunhos são provenientes de 12 representantes de famílias com crianças em idade escolar, sobretudo mulheres a residir na região de Lisboa, com baixos recursos socioeconómicos e, na maioria dos casos, em situação de desemprego e/ou a receber algum tipo de ajuda alimentar. Chamamos a atenção para o facto da identificação e escolha das famílias ter sido possível com o apoio e mediação de um conjunto de intervenientes locais, nomeadamente de associações que prestam algum tipo de apoio, incluindo o fornecimento de alimentos. A sensibilidade dos temas abordados nas entrevistas conduziu a desafios durante a realização das entrevistas. Enquanto algumas estiveram mais dispostas para falar sobre a sua situação, outras demonstraram claramente que se tratava de um assunto sensível e sobre o qual lhes custava falar ao ponto de, em algumas ocasiões, se emocionarem.