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2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

2.4 PROCEDIMENTO DE ANÁLISE DOS DADOS

As análises seletivas dos textos produzidos na primeira etapa foram feitas considerando as características que configura um conto, segundo Gotlib (1998), e organizadas no Quadro de análise (Apêndice E). Portanto, das treze produções textuais, sete adequavam-se à configuração do gênero discursivo conto.

Após, a etapa anterior, dos sete textos que foram considerados contos, três participaram das etapas posteriores de análise (a Sintaxe discursiva e a Semântica discursiva). Os outros quatro textos não participaram, pois o fenômeno discursivo manifestado foi o da embreagem

da enunciação, fenômeno esse, que possui uma composição textual que afasta das produções

textuais, ocorrências necessárias para que os objetivos desta pesquisa fossem contemplados. Assim, os três textos, então, selecionados (Anexo D), não sofreram nenhum tipo de revisão de ordem ortográfica e/ou sintático- discursiva no momento de sua reprodução digitalizada, além de que, tiveram suas linhas enumeradas para fins de organização e fácil identificação.

Analisou-se, portanto, nos textos selecionados a manifestação da perspectiva teórica da enunciação (BENVENISTE, 1976; BARROS, 1988; FIORIN, 2010; 2011), no campo da Linguística Enunciativa, como também se consideraram as negociações do sujeito com a realidade (cultural) na busca da construção de significados através das narrativas. Assim, para esse estudo, também, convidou-se para verificar o conhecimento de mundo e a

interdiscursividade a partir da leitura da imagem, Bruner (1997a; 1997b) com o seu olhar

sobre a constituição social da realidade psicológica e cultural que permeia a história dos participantes a partir do pensamento narrativo e das narrativas.

Este estudo organizou-se em dois tipos de análises baseadas no modelo de análise dos textos pela perspectiva enunciativa de Fiorin (2010; 2011). Primeiramente, fez-se a análise da

Sintaxe discursiva e, em segundo momento, a análise da Semântica discursiva. Nessa

integralização, a análise se construiu em dois olhares, objetivando nem só a forma/estrutura, mas também nem só a individualidade e o contexto.

Nessa análise, a estrutura∕forma e a individualidade recebem duas outras designações:

Sintaxe discursiva e Semântica discursiva, respectivamente. Assim, limitando-se uma, aos

elementos discursivos, propriamente, linguísticos (tipo de narrador; construção das

personagens, uso de recursos discursivos), e outra, considerando os efeitos variáveis

(elementos linguísticos, interdiscursos e o conhecimento de mundo). Essa distinção, em dois momentos não tem a intenção de promover a bipolarização de eventos (elementos constitutivos/linguísticos X singularidade do leitor – produtor), mas tentar reconhecer que produzir narrativas escritas (contos) é seguir a alguns traços peculiares que as distinguem de tantas outras formas de narrativas (fábula, mito, romance, crônicas, novelas e outras), mas ao mesmo tempo é evidenciar que todas elas são dotadas de uma narratividade que as configura como episódios de vida entrelaçados num tempo, num espaço (Fiorin, 2010) e por uma cultura (Bruner; 1997a; 1997b).

Nos tópicos a seguir tem-se uma explanação acerca dos constituintes da primeira análise dos textos, a Sintaxe discursiva e, logo depois, a segundo análise nos moldes da Semântica discursiva.

2.4.1 Análise pela Sintaxe discursiva

Esta etapa da análise corresponde ao momento de se investigar a partir dos enunciados, isto é, a materialidade linguística, a presença e implicações de certos recursos discursivos textuais os quais foram organizados em três tópicos: o primeiro que corresponde ao momento de identificação do Mecanismo discursivo da enunciação manifestado no texto:

debreagem enunciva ou debreagem enunciativa; o segundo, é o momento de identificação do

Foco narrativo; o terceiro se define e se organiza as categorias de Tempo(s) e espaço(s) da

enunciação.

O primeiro tópico corresponde ao momento de explanar como as categorias de pessoa (narrador e/ou personagem); tempo (sistema de tempo e expressões/categorias temporais) e lugar (uso de advérbios de lugar, demonstrativos).

O segundo, a depender do mecanismo discursivo manifestado, subdivide-se em: pessoa desdobrada – Narrador; pessoa desdobrada – Personagem; ou pessoa desdobrada –

Narrador- personagem.

Os critérios utilizados para a análise dos subtópicos, pessoa desdobrada – Narrador; pessoa desdobrada – Personagem; ou pessoa desdobrada – Narrador- personagem, buscaram do produtor do texto, o desdobramento e o prolongamento dele durante a leitura da imagem e a produção do evento narrado a partir dela. Deste modo, através (1) da análise objetiva e/ou subjetiva do evento narrado; pela (2) onisciência ou concentração do saber narrativo, demonstrados pelo (3) controle sobre a passagem do tempo; pelos (4) comentários, avaliações e julgamentos e (5) pela delegação de vozes, observadas no uso do discurso direto (fala), do discurso indireto ou discurso, a projeção da enunciação evocada pela imagem foi revestida por uma intencionalidade comunicativa, também, instalada por recursos linguísticos.

Cabe ressaltar que a fim de que muitas interpretações desses critérios fossem possíveis, a ficha de Produção textual (Apêndice D) foi fundamental. Isso porque algumas perguntas davam conta dos motivos que fez o produtor escolher o narrador- observador ou o narrador- personagem, como também a identificação com alguma personagem, etc.. Da mesma forma a ficha Interpretativa (Apêndice C) contribuiu para se entender, por exemplo, a preferência do uso de certos objetos ou cenários, pessoas da imagem (cena) na produção textual escrita.

Quanto ao terceiro e último tópico desta etapa, ou seja, a apreciação e implicações de ordem linguística, mas também cultural sobre o Tempo (s) e espaço(s) da enunciação, está organizado de modo a evidenciar a passagem da temporalidade dos acontecimentos sobre as ações e estados da(s) personagem(s). Logo, as noções de (1) concomitância ou não concomitância de ações e/ou estados sobre o evento narrado; (2) o uso pelo sistema de Tempo pretérito, do (3) Tempo presente, (4) do Tempo futuro e suas relações com a cultura (Bruner, 1997a) e o uso de (5) de expressões e categorias (preposição, conjunção, etc.) que potencializam os o Sistema de tempos verbais.

Quanto ao(s) espaço(s) da enunciação, este(s) não só no sentido explicito de lugar

físico, mas, principalmente, na sua (1) relação com a temporalidade dos eventos narrados que

posiciona através dos (2) demonstrativos; dos (3) advérbios, quem está dentro ou fora da enunciação, isto é, o deslocamento (4) espaço temporal de narrador para personagem ou vice- versa, da enunciação evocada pela leitura da imagem para a produção textual escrita e de produtor para enunciador.

2.4.2 Análise pela Semântica discursiva

Para a realização desta etapa de análise apresentada em um único tópico, intitulado de Pessoa desdobrada – Enunciador desdobrou-se, o produtor textual em enunciador, isto é, de quem enuncia discursos, faz interdiscursos, convida conhecimentos de mundo e dirige-se a enunciatário(s), todos, provocados pela leitura da imagem.

Para isso, nesse momento de análise, evidencia-se (1) os efeitos culturais da posição sócio- histórica que o sujeito ocupa, assim como, a partir dessa posição juntamente negociada com a leitura da imagem, propôs uma reflexão: (2) sobre as escolhas temáticas, como também a (3) concretização delas a partir de figuras; (4) sobre a seleção de cenários, personagens, ações e quebra de um estado normal; sobre a intencionalidade comunicativa, seja pelo (5) uso de adjetivos, seja sob (6) carga psicológica que constroi os personagens, enfim, nesta etapa tentou-se explicitar a capacidade que a leitura de imagem, materializada pela produção textual escrita, tem em convidar discursos enraizados socialmente e conhecimentos de mundo partilhados/experienciados, mobilizados pela busca de uma negociação, de um fazer entender (enunciador) e ser entendido (enunciatário).

Assim, uma vez escolhidos os indicadores acima, faz-se a seguir uma breve explanação acerca do que consiste a análise pela Semântica discursiva.

Nesta etapa teve-se como unidade de análise cada produção textual, conto, narrado a partir da leitura de imagem.

A análise pela Semântica discursiva é, segundo Fiorin (2011), uma análise que se assenta numa concepção que visa estudar o sentido, porém não através de descrições minuciosas, significados cristalizados por uma cultura, mas por uma análise que se debruça sobre o texto. Nesta pesquisa, teve-se como unidade de análise cada produção textual, conto, narrado a partir da leitura de imagem.

Nesse sentido, o olhar sobre o texto deve ser gerativo, ou seja, “deve apreender os níveis de variância crescente de sentido” (Fiorin, 20112, p. 16), isto é, os elementos da superfície textual podem significar diferentes sentidos, pois são gerados pela individualidade de cada produtor textual; sintagmático, isto é, em termos de produção e interpretação, qual o papel das unidades lexicais, em especial a dos adjetivos; e, por fim, geral, que busca a unicidade de sentido, que pode ser manifestada por diferentes planos (narrador; personagem; enunciador).

Portanto, cada produção textual analisada é em si uma totalidade organizada e singular. A dinâmica própria de cada texto escrito faz com que os indicadores adaptem-se ao repertório social/econômico/linguístico/ histórico e social de cada indivíduo. Logo, a língua, enquanto sistema está orientada/manipulada pelo seu usuário, ou seja, é um exercício diário da(s) experiência(s) humana(s) (Benveniste, 1989). Desta forma, o uso da língua (Sistema) corresponde ao momento de atualização da(s) experiência(s) social(ais), como também organiza os discursos e os conhecimentos de mundo.

Para corroborar, portanto, com a visão proposta pela Semântica discursiva sobre os fenômenos investigados, foi indispensável a presença das fichas Interpretativa (Apêndice C) e de Produção textual (Apêndice D) e mais a entrevista (Apêndice F).

Logo, o processo de análise contou com a integralização de todos os instrumentos produzidos pelo estudo, ampliando o olhar sobre os discursos e conhecimentos de mundo evocados pela leitura de imagem.

Os resultados da análise pela Sintaxe discursiva e pela Semântica discursiva são expostos no próximo capítulo e seguindo esta mesma ordem.

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