• Nenhum resultado encontrado

Procedimento de análise dos episódios representativos do processo terapêutico

Estudo da experiência e mudança em psicoterapia na perspectiva dos clientes

6.5. Procedimento de análise de dados

6.5.2. Procedimento de análise dos episódios representativos do processo terapêutico

A análise das narrativas episódicas acerca do processo terapêutico seguiu os procedimentos sugeridos pelo modelo de análise gramatical de histórias proposto por Mandler (1984). Previamente à utilização deste modelo de análise gramatical, utilizaram-se alguns procedimentos de grounded analysis.

A transcrição de conteúdos narrativos, decorrentes do Protocolo para Recolha de Episódios Representativos do Processo Terapêutico, constituiu o primeiro momento da análise. Os procedimentos de análise gramatical das narrativas episódicas representativas da experiência em psicoterapia sustentaram-se na emergência de uma questão orientadora da investigação:

a) Que significados sobre o processo terapêutico são veiculados nas histórias que os clientes contam acerca das suas experiências em psicoterapia?

Recorreu-se, de seguida, a alguns procedimentos de grounded analysis, que se iniciaram pela codificação aberta, ou seja, cada narrativa foi decomposta em unidades de análise, tendo como critério a representatividade de uma ideia. Para facilitar este processo, tal como para a entrevista de mudança, diferentes cores foram utilizadas para representar as diferentes unidades de análise. Cada unidade de análise foi codificada pela ordem com que surgia ao longo da narrativa e na sequência da codificação dos dados da entrevista de mudança. Ou seja, a codificação da primeira unidade de análise da narrativa episódica decorreu da codificação de toda a entrevista de mudança. Assim, por exemplo, P1-30 corresponde à primeira unidade de análise da narrativa episódica do participante 1 na medida em que a última unidade de análise da entrevista de mudança foi P1-29. A segunda unidade de análise foi codificada por P1-31 e assim sucessivamente.

Procedeu-se, de seguida, à categorização descritiva, ou seja, a uma categorização próxima do discurso dos participantes. Para tal, questionava-se, acerca dos episódios representativos do processo terapêutico, O que é isto? O que representa esta unidade de análise? e geravam-se diversas categorias descritivas não mutuamente exclusivas. Consequentemente, uma unidade de análise podia ser associada a diferentes categorias descritivas, como uma categoria descritiva podia ser associada a diferentes unidades de análise. Nesta fase, tal como sucedeu com a grounded analysis das entrevistas de mudança, procedeu-se à comparação sistemática das unidades de análise entre si para compreender as semelhanças e diferenças nos significados atribuídos, considerando a ligação lexical dos dados.

Tendo por base estas categorias descritivas, seguiu-se a categorização de acordo com a estrutura da gramática narrativa para pequenas histórias, proposta por Mandler (1984). Nesta fase, questionava-se, acerca dos episódios representativos do

processo terapêutico, O que é isto? O que representa esta unidade de análise?, mas agora tendo como quadro de referência as sete categorias propostas pelo modelo: (1) Contexto – circunstâncias em que decorre a história, com referência a elementos estáticos como personagens, espaço e tempo; (2) Acontecimento precipitante – acontecimento que determina uma reacção do protagonista; (3) Respostas internas – respostas cognitivas e emocionais desencadeadas pelo acontecimento precipitante; (4) Objectivo – propósito determinado pelo acontecimento na sequência das respostas; (5) Acções – aquilo que o protagonista faz para realizar o objectivo; (6) Resultado – sucesso ou insucesso na realização do objectivo e (7) Finalização – reacções finais ou significado atribuído ao episódio.

Neste momento, desenvolvia-se nova comparação sistemática agora das categorias descritivas, averiguando semelhanças e diferenças na atribuição de significados, considerando todavia a possibilidade de uma categoria descritiva poder ser associada a diferentes elementos da gramática narrativa, como diferentes categorias descritivas poderem ser associadas ao mesmo elemento.

A organização dos dados decorrentes desta análise foi facilitada pela elaboração de um quadro que especifica as unidades de análise e seu código, as categorias descritivas e os elementos da gramática narrativa (Quadro 5).

e.g. Participante 1

Unidade de análise Categorias descritivas Elementos da gramática narrativa e.g. P1-30 … … e.g. P1-31 … … … Narrativa Episódio Representativo do Processo Terapêutico e.g. P1-32 … … …

Quadro 5 – Exemplificação da organização dos dados narrativos para a categorização das narrativas episódicas sobre o processo terapêutico

Após a categorização das narrativas segundo o modelo de Mandler (1984), procedeu-se à organização de categorias emergentes. Esta é a fase, designada por Strauss e Corbin (1990, 1998) de memoing, pela qual se procede à identificação das categorias mais comuns em cada elemento da gramática narrativa, considerando a totalidade dos protocolos de episódios representativos do processo terapêutico. Os dados decorrentes do memoing foram organizados num quadro de dupla entrada, que articula os participantes e os elementos da gramática narrativa (Quadro 6).

Elemento gramatical (e.g. Contexto) Categoria emergente (+ abstracta) Categoria emergente (+ abstracta) Categoria descritiva Categoria descritiva Categoria descritiva Categoria descritiva

Elementos da gramática narrativa Contexto Aconteci.

Precipit.

Respostas Internas

Objectivo Acções Resultado Finaliza ção P1 CE CE CE CE CE CE CE P2 CE CE CE CE CE CE CE P3 CE CE CE CE CE CE CE P4 CE CE CE CE CE CE CE P5 CE CE CE CE CE CE CE P6 CE CE CE CE CE CE CE P7 CE CE CE CE CE CE CE P8 CE CE CE CE CE CE CE P9 CE CE CE CE CE CE CE P10 CE CE CE CE CE CE CE

Quadro 6 – Exemplificação da organização de categorias emergentes (memoing) (P = Participante; CE = Categorias Emergentes)

O passo posterior envolveu a parcimónia (Strauss & Corbin, 1990, 1998), ou seja, a abstracção de comunalidades entre as categorias emergentes e a sua organização hierárquica. Toda a informação do quadro organizador das categorias emergentes foi analisada, explorando-se regularidades e ideias centrais, no âmbito de cada elemento da gramática narrativa. Esta análise permitiu a derivação de diagramas que representam esta hierarquia das categorias, organizadas segundo os elementos da gramática narrativa (Figura 2).

Partindo das categorias hierárquicas identificadas, a etapa final consistiu na construção de uma narrativa protótipo que integra os sete elementos gramaticais, num esforço de assegurar a verosimilhança com os dados.

Toda a análise foi inicialmente efectuada pelo investigador e depois revista pelo consultor do estudo, para garantir a fundamentação das compreensões dos dados e a validação da análise.

Em síntese, as narrativas representativas do processo terapêutico foram analisadas por via da (1) identificação de unidades de análise, (2) subsequente categorização narrativa, (3) organização hierárquica e (4) construção da narrativa protótipa.

VII. Resultados

Como referido anteriormente, os dados decorrentes das entrevistas de mudança foram sujeitos a grounded analysis (Glaser & Strauss, 1967) e as narrativas episódicas acerca do processo terapêutico foram analisadas segundo procedimentos de análise gramatical de pequenas histórias (Mandler, 1984). Neste módulo, apresentamos os resultados decorrentes das duas análises qualitativas e a subsequente síntese sob forma de discussão.