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Procedimento de Coleta e Análise de Dados

3. Capítulo 3 Aportes Metodológicos

3.4 Procedimento de Coleta e Análise de Dados

Antes de iniciarmos a pesquisa de campo, após aprovação do projeto pelo Comitê de Ética, elaboramos Termo de Concordância em que solicitamos autorização a DISAM (Diretoria de Saúde Mental do DF) e aos Gerente dos CAPSi para realização dos grupos focais com os trabalhadores e usuários e familiares. Em seguida elaboramos o TCLE agendamos dia, horário e local de 8 grupos focais, dois em cada CAPSi. Como dito anteriormente não conseguimos realizar dois grupos focais referentes ao CAPSADi de Taguatinga em virtude de não ter gerente a quase um ano neste serviço, o que ocasionava uma instabilidade na equipe. Quanto aos grupos de trabalhadores foi orientado que todos participassem, assim como o gerente do serviço, e para isto agendamos no horário das reuniões de equipe de cada serviço.

No grupo dos usuários e familiares orientamos que as equipes divulgassem para todos os usuários e familiares que desejassem participar de uma pesquisa sobre o serviço poderiam vir. Sugerimos que esse grupo ocorresse em alguma reunião que os pais estivessem acostumados a ir ou na assembleia dos usuários.

Não tivemos amostragem inicial, pois o interesse é que todos os usuários do serviço participassem da pesquisa e também devido à baixa adesão dos familiares as atividades propostas para eles nos CAPSi, dado informado pelos gerentes dos serviços. Os grupos tiveram a duração de 2 horas a duas horas e meia. Percebi que mais do que duas horas e meia, não era muito produtivo para os participantes. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi lido, conjuntamente com os participantes dos grupos focais de profissionais e de usuários e familiares, informando-os sobre a desistência a qualquer momento, a disposição de prestar todo e qualquer esclarecimento solicitado, o sigilo, o anonimato e a privacidade, assim como também foram esclarecido quanto aos objetivos da pesquisa e sua utilização.

Quanto ao procedimento de análise dos dados foi realizada a transcrição das gravações dos grupos focais e problematizado os relatos e vivências de cada serviço, dentro de uma perspectiva dos trabalhadores e usuários sobre o que pensam da clínica nos CAPSi. Os dados das questões do FormSUS do Avaliar CAPS Centro-Oeste/Norte foram analisados juntamente com os dados coletados nos grupos focais e apresentados nas discussões gerais da pesquisa.

Como sabemos a análise, dos dados de uma pesquisa-intervenção que se propõe qualitativa, avaliativa e participativa é complexo, ainda mais quando o objeto a ser estudado envolve a subjetividade tanto dos que são cuidados como dos cuidadores. Assim, a escolha pela hermenêutica de profundidade como referencial teórico-metodológico desta pesquisa foi a

trilha para seguir esse caminho. Thompson (1995), o criador da hermenêutica de profundidade, como análise qualitativa, destaca que o objeto de análise é sempre uma construção simbólica, o que exige, portanto, um esforço de compreensão que se desdobra em uma interpretação. Para o autor as formas simbólicas constituem-se em ações, falas e textos que, por serem construções significativas, podem ser compreendidas e interpretadas. Neste trabalho analiso como os trabalhadores e usuários entendem a clínica em que estão inseridos.

Justamente por considerar que toda forma simbólica está estruturada internamente de várias formas, possuindo características próprias e, ao mesmo tempo, inserindo-se em contextos sociais e históricos diversos, surge, para Thompson (1995), a exigência de utilizar vários métodos de análise que podem ser inter-relacionados de forma sistemática. O esforço do autor é mostrar que a hermenêutica de profundidade, mais do que uma alternativa aos atuais métodos de análise, é “um referencial metodológico geral, dentro do qual alguns desses métodos podem ser situados e ligados entre si” (Thompson, 1995, p. 356).

Por isso, de acordo com o autor, é um ponto de partida indispensável para a pesquisa uma hermenêutica da vida cotidiana, isto é, uma interpretação de como as formas simbólicas são compreendidas e interpretadas pelas pessoas que constituem o campo. É um momento etnográfico no qual o pesquisador procura reconstruir o modo como as pessoas percebem a realidade ao seu redor (Thompson, 1995).

As contribuições de Demo (2006) alargam esta ideia ao propor, além das opiniões e crenças, a busca pela compreensão das histórias de vida, os projetos sociais coletivos e individuais, “o entorno das tradições culturais que demarcam os sentidos comuns e os duplos sentidos, modos de relacionamento com os outros e constituição do grupo de relações mais próximas, e assim por diante” (p.38).

Para Veronese e Guareschi (2006), na hermenêutica da profundidade está em jogo não apenas a constatação, a descrição pormenorizada do fenômeno, mas uma produção nova do pesquisador baseada em um referencial teórico. Thompson (1995) propõe um referencial metodológico que compõe três fases, que se distinguem mais por serem dimensões diferenciadas de análise do que por serem estágios cronológicos: análise sócio histórica, análise formal ou discursiva e interpretação/reinterpretação. É importante salientar, inclusive porque farei uso desta prerrogativa, que Thompson (1995) afirma que, a depender do objeto específico de análise e das circunstâncias próprias de cada trabalho, o pesquisador deve escolher e avaliar o modo como cada fase de análise será mais eficientemente aplicada e quais métodos podem ser mais adequados.

A análise sócio histórica consiste no esforço em reconstituir as condições sociais de produção e circulação das formas simbólicas, afinal, estas não surgem em um vácuo (Thompson, 1995). Ao considerar que é nas relações sociais cotidianas que os processos de valorização simbólica se materializam, Veronese e Guareschi (2006) destacam que resgatar os campos de interação, as instituições sociais, a estrutura social para, em especial, identificar as assimetrias e diferenças na distribuição de poder e recursos, permite abordar temas como gênero, etnia, classe, geopolítica. Assim, estar-se-ia contemplando tanto uma interpretação dos padrões de significado incorporados pelos sujeitos como uma análise das implicações de poder e conflitos a eles subjacentes, através da atenção aos modos de operação da ideologia, que o autor define com o uso das formas simbólicas para sustentar relações de dominação, assimétricas, desiguais ou opressoras (Veronese & Guareschi, 2006, p. 88).

Já a análise formal ou discursiva sustenta-se na ideia de que toda dinâmica, por mais complexa que se pretenda, apresenta alguma estrutura (Demo, 2006). “Os objetos e expressões que circulam nos campos sociais são também construções simbólicas complexas que apresentam uma estrutura articulada” (Thompson, 1995, p. 369). O esforço da hermenêutica de profundidade é que a análise formal ou discursiva não seja um exercício abstrato e descontextualizado das condições de produção e recepção das formas simbólicas (Thompson, 1995), mas é um momento de desconstrução dos elementos internos que constituem a forma simbólica (Veronese & Guareschi 2006).

Várias são as possibilidades de análise formal ou discursiva (análise semiótica, da conversação, discursiva, sintática, da estrutura narrativa, argumentativa, etc.), o que se enseja nesta fase é descrever padrões de relações, o que é recorrente, regular ou repetitivo (Veronese &Guareschi, 2006; Demo, 2006). “Essa abertura da fase da análise formal, onde o analista pode utilizar qualquer padrão formal, o mais indicado para seu tipo de material (texto, imagem, som, etc.), propicia uma rica gama de possibilidades que torna o método da HP bastante abrangente” (Veronese & Guareschi, 2006, p. 89). Segundo os autores, qualquer experiência humana pode ser descrita em uma narrativa.

A terceira fase é intitulada por Thompson (1995) de interpretação/reinterpretação. Nesta fase, a análise sócia histórica e a análise formal ou discursiva serão integradas, em um trabalho de síntese que visa a construção criativa de novos e possíveis significados. Para Thompson (1995);

Por mais rigorosos e sistemáticos que os métodos da análise formal ou discursiva possam ser, eles não podem abolir a necessidade de uma construção criativa do

significado, isto é, de uma explicação interpretativa do que está representado ou do que é dito. (p. 375).

É, segundo Veronese e Guareschi (2006), uma tentativa de explicação fundamentada em um referencial teórico consistente. Esta interpretação é, de fato, uma reinterpretação se lembrarmos que o campo objeto-sujeito já é uma pré-interpretação. Por isso, para Thompson (1995), faz parte intrinsecamente do processo de interpretação a possibilidade de um conflito, posto que necessariamente parcial e, portanto, sujeita sempre a novas reinterpretações. O controle intersubjetivo – estar aberto à discussão – e o potencial crítico da intepretação respondem a este conflito e, no mesmo movimento, revelam o potencial da hermenêutica de profundidade no trato da informação qualitativa (Thompson, 1995; Demo, 2006). Thompson (1995) demarca uma distinção entre tentar provar uma interpretação – apresentar razões, fundamentar – e impor, forçar os outros a aceitar ou silenciar as discordâncias e questionamentos.

Quando Thompson (1995) utiliza a hermenêutica de profundidade para a análise da ideologia, o que se destaca é o esforço para compreender como e em que circunstâncias as formas simbólicas servem para estabelecer e manter relações de dominação. Neste sentido, a intepretação da ideologia pode ter como efeito estimular uma reflexão crítica sobre as relações de poder, que pode incluir, em princípio, a reflexão também dos sujeitos que estão inseridos nestas relações.

Demo (2006) acrescenta que esta visão crítica da análise hermenêutica não se limita à ideologia, podendo gerar reflexão crítica e autocrítica que sustentem estratégias emancipatórias orientadas pelo bem comum, ao invés de reforçar a dominação. O autor, com o objetivo de propor a hermenêutica de profundidade como metodologia útil não apenas para “o mundo da mídia, mas de toda e qualquer informação qualitativa” (Demo, 2006, p. 45), faz uma reinterpretação da proposta de Thompson. Segundo o autor, fenômenos qualitativos intensos – práxis históricas, dinâmicas e desempenhos qualitativos – podem se beneficiar da hermenêutica de profundidade.

No caso da presente pesquisa, a clínica e suas questões teórico-ética-política- institucional em um CAPSi pode ser considerada um fenômeno qualitativo intenso. Em especial, duas reconstruções do autor interessam ao escopo deste trabalho. Primeiro, o destaque que Demo (2006) dá ao quadro teórico: “qualquer interpretação está referenciada a um quadro teórico que “constrói a possibilidade explicativa da análise (...) e desenha hipóteses de trabalho” (p. 46). Sem dispensar o necessário contato concreto com a realidade, a teoria, ainda que apenas

instrumento, ajuda na análise, na definição de categorias centrais e no estabelecimento de um caminho sempre aberto (Demo, 2006). “A trama teórica bem tecida permite não só reconstruir categorias mais sólidas e definidas, como sobretudo imprimir capacidade crítica que leve a interpretações tanto mais criativas” (Demo, 2006, p. 48).

Esta conceituação de Demo (2006) nos auxilia a entender como vem se desenvolvendo a clínica no DF principalmente devido a inclusão da análise sócio histórica, que em nossa pesquisa tem grande importância devido o recorte territorial que fazemos no DF, levando em conta suas particularidades e seu atraso no estabelecimento da reforma psiquiátrica se comparado com outros estados brasileiros.

Para sintetizar sua reinterpretação da hermenêutica de profundidade de Thompson, reproduzo o quadro organizado por Demo (2006):

Quadro 4. Referencial Metodológico Fonte: (Demo, 2006, p.58)

Demo (2006, p. 109), em uma “interpretação da interpretação da interpretação” deste roteiro, destaca ainda mais alguns importantes aspectos. Apesar de esquematizado em três camadas, a análise qualitativa não usa exatamente “camadas”, bem como não necessariamente precisam ser três. Embora, faça um esforço para mesclar dinâmica e forma, é preciso reconhecer que nenhum procedimento dá conta de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Em sua proposta, o segundo passo está mais voltado para a forma, enquanto no primeiro e terceiro o foco está na dinâmica. Reitera a importância da discussão aberta, da autoridade do argumento e não do argumento de autoridade (Demo, 2005), em um esforço para não exigir nem de mais nem de

menos da intepretação: nem pretensão de certeza, nem uma “libertinagem interpretativa” (p. 110), como se fosse válido dizer qualquer coisa sem argumentação consistente.

De maneira geral, farei o esforço para orientar a análise dos grupos focais de acordo com o esquema proposto por Demo (2006). No entanto, como Demo (2006) afirma, “este esquema não deve ser tomado como algo “bíblico”, porque fenômenos dinâmicos não-lineares, pela própria tessitura, precisam ser captados flexivelmente, sempre emprestando prioridade ao fenômeno, não ao método” (p. 59). Neste sentido, utilizarei a contextualização sócio-histórica devido sua importância para o recorte territorial que faço nesta pesquisa e a interpretação e reinterpretação em virtude da escuta e intervenções que faço nos grupos (trabalhadores e usuários) em apenas um momento de encontro.

Para a análise dos dados desta pesquisa tomaremos cada grupo focal feito nos serviços como um caso, tendo em vista compreender as singularidades da clínica nos diferentes CAPSi que participaram deste estudo, através da trajetória e da experiência de cada serviço, de cada grupo de profissionais, de usuários e familiares e as relações entre eles e o contexto da rede de atenção em saúde mental infanto-juvenil do DF. No final proponho uma discussão geral dos dados colhidos comparando-os com os dados do avaliar CAPS e com a teoria dos discursos em Lacan e sugiro uma modalidade de intervenção nestes serviços a partir desta experiência de escuta feita através de uma pesquisa.