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RECORRENTE COMO INSTRUMENTOS PARA A COLETA DE DADOS

Para a pesquisa em questão, tendo em vista que trabalhamos com narrativas dos(as) estudantes com DI sobre seu processo de escolarização, realizamos durante três (03) meses, no período de abril a junho de 2016, no turno matutino, duas (02) vezes por semana, uma observação exploratória em um Centro de Educação Especial4, localizado em Natal-RN, com

4 O Centro promove o Atendimento Educacional Especializado (AEE) aos alunos com deficiência, em sua

36 a finalidade de selecionar os sujeitos da pesquisa, através do contato e interação com alunos (as) com DI, vindos de diferentes escolas regulares da Região Metropolitana de Natal.

Esclarecemos que esse Centro não foi o campo da nossa pesquisa, haja vista o método de história de vida não demandar um campo de pesquisa fixo. Finda a observação exploratória e, após a escolha dos sujeitos da pesquisa, demos início às entrevistas. Essas, por escolha dos sujeitos selecionados, foram realizadas em suas residências.

A pesquisa foi realizada, ainda, mediante a aprovação do projeto junto ao Comitê de Ética em pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), baseado na Resolução Nº CNS 466/12 do Conselho Nacional de Saúde – CNS, com Parecer de Nº 1.538.268, de modo a assegurar o comprimento dos aspectos éticos das pesquisas envolvendo seres humanos.

As observações exploratórias realizadas forneceram dados consistentes para a definição dos potenciais sujeitos da pesquisa, durante essa etapa do trabalho, ao interagirmos com os(as) estudantes com DI, verificamos quais se encaixavam nos critérios de inclusão da pesquisa, anteriormente apresentados, a saber: possuir um amplo uso da linguagem oral (ter um vocabulário razoável, coerente e lógico); estarem matriculados no Ensino Médio ou nas séries finais do Ensino Fundamental, ou que tivessem concluído o Ensino Médio em até dois anos antes da realização da pesquisa.

Concluído esse primeiro momento, fizemos o levantamento de dez sujeitos que se encaixavam nos critérios de inclusão. Quanto à comprovação do diagnóstico de DI, inicialmente, recorremos ao histórico dos alunos no Centro, depois, confirmamos o procedimento do diagnóstico com seus respectivos pais/responsáveis, momento em que tivemos acesso ao laudo médico, todos assinados por neurologistas.

Alguns dos sujeitos previamente selecionados possuíam algum outro tipo de deficiência associada ou não atendiam a faixa de escolaridade selecionada. Obviamente que o desejo de participação na pesquisa dos estudantes e de seus respectivos responsáveis também foi considerado.

A participação dos sujeitos da pesquisa foi de caráter voluntário, informamos a todos, na presença de uma testemunha, a justificativa; os objetivos; os procedimentos; os desconfortos; os riscos; os benefícios e a maneira como os dados seriam coletados, utilizados e posteriormente divulgados, garantindo-lhes o bem-estar, o respeito, à dignidade e a autonomia na execução da pesquisa. Também explicamos a importância de seus depoimentos ao apresentar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

37 Findo o processo de seleção dos sujeitos da pesquisa, passamos a contar com os(as) companheiros(as) de jornada (os nomes utilizados são fictícios e foram escolhidos pelos próprios sujeitos da pesquisa) explicitados no Quadro 3:

Quadro 3 – Idade, escolaridade e diagnóstico dos(as) alunos(as) com DI entrevistados(as)

NOME IDADE ESCOLARIDADE DIAGNÓSTICO5

Bruna 26 anos Ensino Médio Concluído dois anos antes da realização da pesquisa.

DI leve – causa não especificada (CID oscila – F70.06-F70.17).

Rafael 24 anos Cursando a 6ª série do Ensino Fundamental II.

DI leve – causa não especificada (CID F70.0)

Júlia 20 anos Cursando o último ano do Ensino Fundamental.

DI moderada pós-Hipóxia neonatal (CID F71.18).

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Na escolha dos pais/responsáveis dos sujeitos desta pesquisa, levamos em consideração a disponibilidade e abertura para falarem da vida escolar dos estudantes selecionados. Por terem tido uma maior participação na vida escolar desses, as tias/mães dos três estudantes com DI apresentados, colaboraram com este estudo. Elas foram identificadas através das seguintes designações: Tia de Bruna, Tia de Rafael e Mãe de Júlia (Quadro 4):

Quadro 4 – Idade e profissão das tias/mães dos(as) alunos(as) com DI entrevistados(as)

NOME IDADE PROFISSÃO

Tia de Bruna 45 anos Cuida do funcionamento do lar Tia de Rafael 44 anos Autônoma

Mãe de Júlia 42 anos Cuida do funcionamento do lar Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Utilizamos a entrevista como procedimento metodológico para coleta do material empírico. Esse instrumento é definido por Gil (1999, p. 109) como uma técnica de coleta de dados em que pesquisador e entrevistados encontram-se em interação social; o primeiro, com a pretensão de obter dados que lhe interessam para a realização do estudo, formula e dirige perguntas ao segundo, visto como detentor de informações demandadas pela pesquisa.

Oliveira (2003, p. 27) assevera que esse procedimento metodológico acaba “favorecendo as investigações de concepções e práticas sociais e educacionais referentes à

5 Obtido tanto durante as entrevistas quanto colhidos nos laudos dos sujeitos da investigação. 6 Retardo mental leve – menção de ausência de ou de comprometimento mínimo do comportamento.

7 Retardo mental leve – comprometimento significativo do comportamento, requerendo vigilância ou tratamento. 8 Retardo mental moderado – comprometimento significativo do comportamento, requerendo vigilância ou

38 Educação Especial, a partir de dados provenientes da compreensão dos sujeitos envolvidos no processo dessas práticas”.

Sobre a associação entre o uso de entrevistas e o método de história oral de vida, Delgado (2006, p. 18) evidencia: “[...] a história oral é um procedimento integrado a uma metodologia que privilegia a realização de entrevistas e depoimentos com pessoas que participaram de processos históricos ou testemunharam acontecimentos no âmbito da vida privada ou coletiva”.

Fizemos uso da técnica de entrevista recorrente como instrumento para apreender os sentidos atribuídos à vida escolar pelos sujeitos da pesquisa. Esse tipo de entrevista, desenvolvida em 1977 pela professora Carolina Bori, vem sendo adotada por pesquisadores que investigam os diversos processos psicológicos humanos através do relato verbal (MELLETTI, 1997).

Nessa empreitada, Tunes (1981) e Simão (1982a, 1982b, 1989) são considerados percussores desse procedimento, pesquisadores como Zanelli (1992), Larocca (1999), Junckes e André (2012), entre outros, também utilizaram esse procedimento de coleta de dados.

No emprego dessa técnica de entrevista nos estudos no campo da Educação Especial, com foco no processo de profissionalização da pessoa com DM, destacam-se os trabalhos de Goyos (1995), Manzini (1989), Meletti (2003, 1997) e Sadalla et al. (2005).

Na entrevista recorrente não é utilizado um roteiro preestabelecido de perguntas, nessa técnica as entrevistas são estruturadas tendo por base uma questão central, a partir da qual surgem novas temáticas. Para Meletti (2003), tal procedimento permite afirmar que o método vai sendo construído a cada encontro.

As falas dos sujeitos do estudo realizado foram agrupadas em categorias temáticas e organizadas, respectivamente, indicando a posição da fala na entrevista e a seção correspondente, sequencialmente, através do emprego de um esquema de numeração, de modo que onde se escreve, por exemplo: “Bruna 74”, lê-se sétima fala de Bruna localizada na

quarta sessão de entrevista.

Cada participante com DI falou sobre a sua vida escolar, a partir da seguinte indagação: “fale um pouco sobre a sua vida na escola, qualquer coisa que você queira me contar”. Para as suas respectivas tias/mães, fizemos a seguinte pergunta central: “fale um pouco sobre a vida do seu (sua) filho (o) na escola, qualquer coisa que você queira me contar”.

39 Feita essa pergunta-chave aos entrevistados, os deixávamos livres para falar, nossa participação se limitou a pedir em alguns momentos que falassem um pouco mais sobre determinados acontecimentos por eles rememorados, bem como a fazer perguntas que os levassem a aprofundar o relato apresentado.

Na intenção de demonstrar nosso interesse pelo que estava sendo dito pelos entrevistados, seguimos a orientação de Meletti (2003) de utilizar no decorrer das entrevistas expressões que os levassem a perceber a nossa atenção às verbalizações feitas por eles, tais como: “ah”, “é”, “hum”, “que bom”, “e, só isso”, “sei”.

Durante a condução das entrevistas, levamos em consideração o tempo de duração e gravação dos encontros, assumindo a premissa de que “não há duração limite para a entrevista, que varia de acordo com a disposição do sujeito, se encerrando quando o depoente não tem mais nada a acrescentar” (GLAT; PLETSCH, 2009, p. 143).

Realizamos quatro (04) sessões de entrevistas com cada um dos(as) alunos(as) com DI, entre julho e setembro de 2016. As sessões tiveram a duração de aproximadamente 30 a 50 min. Com as mães/tias foram realizadas duas sessões, sendo que com uma delas foi realizada somente uma sessão, cuja média de duração foi a mesma, conforme pode ser observado nos Quadros 5 e 6.

Quadro 5 – Entrevistas com os(as) alunos(as) com DI: sessões, duração e data

Entrevistas com os (as) alunos (as) com DI

No

me Sessão Duração Data

No

me Sessão Duração Data

No

me Sessão Duração Data

B runa 1ª 31 min. 27.07 Ra fa el 1ª 36 min 13.08 J úli a 1ª 29 min. 17.08 2ª 41 min. 03.08 2ª 45 min. 03.09 2ª 36 min. 06.09 3ª 56 min. 10.08 3ª 36 min. 10.09 3ª 24 min. 10.09 4ª 1h33min. 03.09 4ª 37 min. 24.09 4ª 33 min. 26.09 Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Quadro 6 – Entrevistas com as tias/mães dos(as) alunos(as) com DI: sessões, duração e data

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Entrevistas com tias/mães dos (as) alunos (as) DI

No

me Sessão Duração Data

No

me

Sessão Duração Data

No

me Sessão Duração Data

Tia d e Br u n a 1ª 40 min. 27.07 Tia d e Ra fa el 1ª 27 min 15.11 e d e J ú li a 1ª 56 min. 17.08 2ª 31 min. 09.09 --- --- --- 2ª 45 min. 23.08

40 Para não ocasionar stress ou desconforto, prezamos por condições satisfatórias para a tomada de decisões autônomas dos(as) participantes. Buscamos estabelecer um diálogo com os(as) entrevistados(as) de forma que não lhes causássemos constrangimento de qualquer natureza. Também prezamos, conforme Delgado (2006) orienta, pela realização das entrevistas em local onde o entrevistado se sentisse à vontade, evitando a presença de terceiros e de interferências que comprometessem o conteúdo das narrativas.

Utilizamos o gravador de áudio como recurso para captar a voz dos entrevistados, e as entrevistas concedidas foram posteriormente transcritas textualmente de forma integral. Para a gravação de voz foi solicitada autorização dos participantes e dos seus respectivos responsáveis.

Sobre a transcrição das entrevistas, Glat e Pletsch (2009, p. 238) postulam que ela “[...] deve ser imediata e a análise realizada ao longo da pesquisa. Esse procedimento permite ao pesquisador organizar suas ideias na medida em que os dados vão sendo coletados, facilitando a definição do ponto de saturação”.

Em consonância com o procedimento apresentado pelos autores, transcrevemos parte do conteúdo das gravações no intervalo entre as sessões, de modo que ao início de cada entrevista apresentávamos uma síntese do que foi dito no encontro anterior pelo entrevistado.

A narração do conteúdo das entrevistas anteriores apresentadas a cada novo encontro permitiu detectar quais eram os pontos que não tinham ficado claros e necessitavam de aprofundamentos ou esclarecimentos. Também possibilitou aos entrevistados a oportunidade de retificar informações já fornecidas integral ou parcialmente.

Uma das dificuldades com que nos deparamos no momento de transcrever as entrevistas foi a difícil tarefa de tentar incorporar ao texto as pequenas sutilezas dos gestos, do olhar, da entonação, do silêncio, das pausas e risos dos(as) entrevistados(as) que conferem vida as suas vozes. Meletti (2003, p.3) postula que “[...] na passagem do oral para o escrito muito se perde: o tom de voz, a entonação, o ritmo, a linguagem dos gestos, da mímica, da postura corporal”.

Nesse mesmo prisma Meihy e Holanda (2014, p. 14) asseveram sobre o uso da entrevista:

Muito do que é verbalizado ou integrado à oralidade, como gestos, lágrimas, risos, silêncios, pausas, interjeições ou mesmo as expressões faciais – que na maioria das vezes não têm registros verbais garantidos em gravações –, pode integrar os discursos que devem ser trabalhados para dar dimensão física ao que foi expresso em uma entrevista de história oral.

41 É importante apontar que se obteve um total de 89 páginas de falas transcritas dos alunos com DI e 31 páginas de suas tias/mães, totalizando uma média de 120 páginas ao final da transcrição.

Após essa etapa realizamos a textualização do relato oral, momento em que excluímos as verbalizações dos entrevistados que não possuíam elementos suficientes para serem compreendidas e as narrações que fugiam do tema investigado, não se correlacionando à vida escolar destes. Também foram eliminados os trechos truncados, as repetições de palavras, as redundâncias verbais, bem como “vícios de linguagem”, em favor de um texto mais limpo.

Optamos por deixar alguns tiques de linguagem (os “bom” e os “né”), em alguns trechos em que a repetição de palavras não compromete o entendimento e ajuda ao leitor a compreender a ênfase dada pelo entrevistado no momento da narração.

Sadalla et tal. (2005, p. 76) asseveram que “este método implica em categorizar os dados (classificar elementos constitutivos do conjunto, recuperando-os segundo critério previamente definido), fazendo recortes das verbalizações dos sujeitos”.

Glat e Pletsch (2009, p. 144) postulam:

Como se trata de uma metodologia bastante flexível, não há imposições de procedimentos específicos para se realizar à análise de dados. O procedimento básico, porém, consiste em identificar a partir da transcrição das entrevistas os conteúdos ou tópicos mais frequentes que emergem do discurso dos entrevistados, os quais serão posteriormente agrupados em categorias de análise ou núcleos temáticos.

Para analisar o conteúdo das narrativas dos entrevistados, primeiramente, realizamos várias leituras das transcrições textualizadas para identificarmos os temas recorrentes presentes nas verbalizações. Após essa etapa, agrupamos os temas predominantes em categorias de análise.