B. Uma Proposta de Referencial PromS
B.2. Procedimento – linhas gerais
Em termos da natureza dos procedimentos adoptados, esta componente de investigação poderá ser descrita, de acordo com a tipologia de classificação de estilos de investigação de Miller e Crabtree (1992), como uma pesquisa de campo (“field”), ou qualitativa, adoptando um desenho de tipo estudo ‘tópico’/“topical study” na medida em que se ocupa de uma só esfera de actividade (ou, no caso, de “significado”), visando sobre ela gerar descrições e/ou explicações holísticas e realistas (p. 5). A escolha justifica-se precisamente atendendo às finalidades do estudo, que remetem para a identificação e a descrição qualitativa do fenómeno, ao nível da exploração de concepções leigas e, secundariamente, para o gerar de explicações interpretativas, sobretudo através da identificação/ exploração de hipotéticos padrões e relações destas concepções com outros factores/ fenómenos.
É vastíssima a panóplia de abordagens qualitativas, não facilitando uma visão de conjunto das possibilidades existentes e, consequentemente, o enquadramento da estratégia escolhida. Miller e Crabtree (ob. cit.), por exemplo, referem mais de 20 tradições, e propõem duas vias para a organização do que chamam um “road map” de métodos qualitativos: uma, estruturada por domínios e disciplinas; outra, com base numa perspectiva mais pragmática, assente na forma de recolha de dados e de análise da informação. Esta última será particularmente adequada para situar o presente trabalho – que dificilmente se restringe a um domínio, e é de âmbito multidisciplinar – sendo possível, de acordo com esta classificação, salientar a adopção da técnica de entrevista individual semi-directiva em profundidade, para a recolha de informação, e de um estilo de análise de dados que, no continuum proposto pelos autores, se aproximará sobretudo da “template analysis” (ainda que com vertentes/temáticas que se aproximam mais do estilo “editing analysis”, e, portanto, do pólo mais subjectivo/interpretativo do continuum, como adiante se discutirá). A escolha da técnica de entrevista em profundidade semi-directiva fundamenta-se no objecto do estudo e, nomeadamente, na adopção de uma perspectiva “intensiva”, uma vez que se pretende conhecer mais em profundidade o pensamento dos participantes, em circunstâncias em que não há suficiente informação prévia sobre o tema (Ruquoy, 1997). De resto, a técnica é especialmente apta para o acesso a representações e valores – as temáticas centrais do presente estudo – tendo sido, como se viu, utilizada em boa parte das investigação citadas na introdução ao tema. Ainda que Hughner e Kleine (2004) façam apelo, na sequência da sua revisão de literatura sobre concepções leigas de saúde, a um ênfase não exclusivo em métodos interpretativos, com recurso também, por exemplo, a métodos quantitativos e extensivos, a inexistência de uma base de investigação prévia com a população nacional e, especificamente, com esta
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As razões para tal foram essencialmente de ordem pragmática e ética: a inexistência de um contexto, de tipo institucional ou outro, que pudesse assegurar o enquadramento de um projecto colaborativo com a sustentabilidade (nomeadamente em termos de continuação “interventiva”) que justificasse, eticamente, apelar a uma implicação activa dos participantes; as exigências acrescidas, em termos de tempo, de uma abordagem dessa natureza; insuficiente domínio técnico das metodologias envolvidas para garantir a qualidade necessária na condução de um tal processo.
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faixa etária, desaconselha essa opção no actual contexto. Em qualquer caso, o tipo particular de população em causa exige cuidados acrescidos nas opções metodológicas, por forma a minorar potenciais dificuldades dos participantes com o contexto de investigação e inclusive ao nível da comunicação (atendendo por exemplo, à probabilidade de limitações auditivas, reduzida escolaridade, acentuadas diferenças culturais, sociais, etárias face ao investigador, etc.). Estes são aspectos que militam a favor de um contexto de recolha de dados que não se afaste excessivamente das habituais condições de interacção social dos entrevistados e não acentue, ainda mais, diferenças de estatuto, culturais, etc., face ao entrevistador. Também pela mesma ordem de razões se considerou preferível um formato de entrevista individual, muito embora a modalidade de focus group possa ser interessante em estudos neste âmbito.
Num estudo qualitativo desta natureza, a questão da representatividade da amostra, no sentido estatístico, não se coloca, como salienta nomeadamente Ruquoy (1997), sendo critério de qualidade da mesma a sua adequação aos objectivos da investigação. Neste tipo de amostra não probabilística e intencional23, a selecção dos participantes atendeu ao que se consideraram características importantes para a pesquisa, ou seja, às variáveis a que Ruquoy chama estratégicas (i.e., ligadas especificamente ao tema) e clássicas (v.g., idade, sexo, escolaridade), que se antecipa poderem explicar reacções diversas face às questões abordadas. Estas variáveis são ou neutralizadas (restringindo a sua variação) ou usadas como critério de diversificação da amostra, a qual deverá então ter como regra a heterogeneidade quanto a essas características (ver em Anexo o Quadro 01-III-A1, detalhando a caracterização da amostra de acordo com as variáveis consideradas pertinentes para “restrição” e “diversificação”). A dimensão da amostra foi definida em função de dois critérios: o de assegurar a necessária heterogeneidade face às variáveis mais relevantes e o “princípio de saturação da informação” (Ruquoy, ob. cit.; Ghiglione, Matalon, 2001) - este último resultando da constatação, no decorrer da investigação, de que se atingiu uma plataforma de certa coerência na análise a partir da qual se verifica já uma relação desfavorável entre os ganhos adicionais de nova informação e o “custo” envolvido na sua obtenção.
Relembre-se que esta descrição da estratégia de pesquisa se centra na componente da investigação de que se ocupa prioritariamente esta secção. No entanto, como se referiu, ela é parte de um projecto mais amplo, que inclui outras componentes, quer também qualitativas (breve análise documental de políticas nacionais – Cap. 6), quer quantitativas (designadamente na caracterização da situação de saúde da população idosa portuguesa). A integração do conjunto desses dados – um dos aspectos que, segundo Creswell (2003), importa definir neste tipo de abordagem de “métodos mistos”, – é feita essencialmente na fase final do processo, i.e., no momento da interpretação e discussão global (Cap. 6), mais directamente orientado para o apoio à formulação de políticas PromS65+. Ocorrem, no entanto, também outros momentos de “fertilização” mútua das várias componentes da pesquisa. Designadamente, e no que toca às “concepções leigas de saúde”, algumas das perguntas incluídas no guião são influenciadas pelas primeiras etapas de elaboração do “perfil de saúde”, visando obter informação qualitativa sobre indicadores já escolhidos para inclusão naquela vertente quantitativa da pesquisa. Por sua vez, e no sentido inverso, as áreas iluminadas como prioritárias ou, por outras razões, merecedoras de aprofundamento, em resultado do estudo qualitativo sobre os significados atribuídos pelos idosos à saúde/ bem-estar, informaram uma revisão das áreas/indicadores que interessa incluir na caracterização quantitativa da situação nacional que constitui o objecto do Perfil (Cap. 5). Finalmente, a própria discussão dos resultados das entrevistas será pontualmente enriquecida com a integração de dados quantitativos provenientes essencialmente da análise secundária de estudos que, de um ângulo complementar, numa abordagem extensiva, foquem temáticas afins, com populações nacionais.
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Patton, por exemplo, define assim a amostragem intencional/Purposeful sampling, característica da investigação qualitativa: “Cases for study (e.g., people, organizations, communities, cultures, events, critical incidences) are selected because they are “information rich” and illuminative, that is, they offer useful manifestations of the phenomenon of interest; sampling, then, is aimed at insight about the phenomenon, not empirical generalization from a sample to a population” (2002, p. 40).