3. METODOLOGIA
3.4. Procedimentos
Durante o trabalho de campo procuramos ir mantendo um processo de interação constante com as mães em seus contextos sociais, a fim de ir construindo informações sobre as questões da pesquisa, utilizando os procedimentos descritos a seguir.
3.4.1. Observação de situações interativas
Constituíram-se de observações ao longo de todos encontros com as participantes, em suas dinâmicas de interação com os bebês e com suas redes de apoio formal (profissionais que as atendem na instituição) e informal (familiares, amigos, e outras mães) nos ambientes institucional e domiciliar.
3.4.2. Conversação
De acordo com Gonzalez-Rey (2005), “nas conversações, constroem-se verdadeiros trechos de informação entre os participantes que ampliam seu compromisso pessoal com o tema em questão” (p.48). “A conversação é um sistema que nos informa as características e o estado dos que neles estão envolvidos (...), caracterizam todo o processo de pesquisa e podem resultar do desdobramento de outros instrumentos aplicados” (p.49). Nesta perspectiva este procedimento foi bastante valorizado durante toda a pesquisa, desde o momento inicial de contato e convite para colaborar com a pesquisa e durante os demais encontros que passaram a acontecer inicialmente e na maior parte do trabalho de campo, no próprio alojamento conjunto, em seguida no Ambulatório, nas visitas domiciliares, no encontro final de grupo e até mesmo nos contatos por telefone, após a alta das mães.
Esses encontros de conversação no alojamento aconteceram em momentos nem sempre agendados e em períodos diferentes do dia, a fim de observar também diversas dinâmicas ligadas às rotinas e convívios das mães no berçário: como as “visitas médicas”, por exemplo, que acontecem de manhã, em que os alunos de medicina junto aos professores iam de quarto em quarto atendendo e discutindo os casos; as ordenhas em que as mães retiravam leite do seio e levavam ao Banco de Leite; o início da tarde e da noite quando
havia troca de pessoal da enfermagem e comumente interação destas com as mães, o que acontecia é claro em muitos outros momentos; o horário de visitas de familiares e amigos, às tardes; e nos finais das tardes, quando as mães, mais livres das rotinas hospitalares e das visitas, interagiam bastante entre si, conversando e trocando ajudas para que fossem tomar banho, comer ou arrumar seus pertences, por exemplo, o que acontecia, cabe reforçar novamente, ao longo de todo o dia; a oficina de biscuit, que acontecia uma vez por semana. Os diversos encontros no alojamento conjunto tornaram-se espaços de interação dialógica informal, que contribuíram para a relação de confiança entre participantes e pesquisadora e envolvimento constante das mães na discussão e produção de informações, expressão de idéias e sentimentos, que possibilitaram nos acercar de concepções, sentidos e práticas que envolviam suas relações com o bebê e com seu contexto social. A pesquisadora iniciava sempre um contato afetivo e atento às participantes, procurando observar e se inserir nas dinâmicas já em andamento no contexto como as conversas entre as mães e as interações com os bebês, introduzindo em momentos oportunos, perguntas, comentários ou temas que pudessem colaborar na expressão delas sobre os conteúdos explorados no estudo.
As conversações tornavam-se discussão e compartilhamento de idéias entre as pessoas que estavam no quarto 107, não apenas participantes do estudo, mas as outras mães alojadas e em alguns momentos, também pessoas da equipe de enfermagem e da rede de apoio informal. Isso pareceu ser muito bem vindo pelas mães, que sempre pleiteavam um retorno breve, como se esse tipo de conversação ajudasse-as também a construírem conhecimentos, a compreenderem a situação, a si mesmas, sua relação com os bebês e redes de apoio, questões que surgiam sistematicamente.
Também aconteceram momentos mais formais de conversação, durante a utilização dos instrumentos que descreveremos adiante. Esses momentos foram agendados em data e local mais viável para as participantes, de acordo com a etapa de atendimento institucional em que estavam inseridas.
Conversas das mães com as pessoas de seu convívio também foram observadas e valorizadas como informações importantes, assim como alguns diálogos informais que ocorreram entre a pesquisadora e familiares das participantes da pesquisa e entre pessoas da equipe de profissionais que as acompanhavam no hospital. Cabe citar que foram realizadas
algumas conversas informais por telefone entre a pesquisadora e as colaboradoras do estudo, que também auxiliaram na construção de pistas acerca de como estavam vivenciando a alta hospitalar, nos seus diversos aspectos.
Foram feitas anotações diversas e constantes em um diário de campo a partir das observações e conversações realizadas. Além disso, utilizou-se um gravador portátil para registrar os relatos das participantes durante as conversações formais (entrevistas).
3.4.3. Entrevista inicial (Anexo 1 ) e Entrevista após a alta (Anexo 2)
Como mais um recurso para a construção de informações sobre os casos, tentando permear também o caráter processual e contextual do objeto de estudo, foram realizadas, além dos diversos encontros de conversação informal, duas entrevistas semi estruturadas com as mães, em momentos diferentes de seu processo de constituição materna. A primeira foi realizada numa salinha de reuniões do berçário, depois de alguns encontros de conversação informal no quarto 107, quando as mães estavam ainda no hospital aguardando a recuperação e alta dos bebês. A segunda foi realizada numa sala de reuniões do Ambulatório, em dias coincidentes com consultas dos bebês, após a alta hospitalar.
A entrevista inicial envolveu duas partes. A primeira parte foi constituída de um tópico com perguntas objetivas sobre dados pessoais da mãe, e outro tópico, com perguntas mais abertas sobre o atendimento na instituição e os acompanhantes das mães. A segunda parte envolveu perguntas abertas que pudessem auxiliar no diálogo, expressão de idéias e sentimentos e a partir disso, construção de indicadores sobre a vivência concreta e simbólica das mães, tendo como referência os momentos envolvendo a gestação, o parto, o pós-parto e os primeiros cuidados com a criança após o nascimento.
A entrevista realizada após a alta hospitalar foi composta de perguntas abertas com intuito de estimular a produção de idéias e sentimentos das mães sobre esse momento de vivência de sua maternidade.
As conversações suscitadas nas entrevistas, junto a outros indicadores construídos ao longo da pesquisa, de fato forneceram pistas sobre processos sociais e subjetivos envolvendo as redes de apoio (formal e informal); as características da mãe e do bebê; de seus contextos de vida; dos cuidados e vínculos com o bebê; sentimentos e vivências a
partir do contexto hospitalar e familiar e das relações mantidas neste; e sobre concepções das mães sobre desenvolvimento.
3.4.4. Encontro de discussão temática
Este momento foi utilizado para aprofundamento das informações e indicadores construídos, principalmente sobre as concepções de desenvolvimento das participantes, bem como observar a dinâmica do grupo de mães, a fim de construir indicadores sobre seu potencial como proposta de intervenção educativa.
O encontro constituiu-se como um espaço de interação entre as participantes do estudo após todas terem recebido alta com seus bebês. Ele aconteceu no final da pesquisa de campo numa sala do Ambulatório, momento em que as participantes mostraram muito contentamento em se encontrar, se abraçando, pegando os bebês umas das outras e trocando desde este momento inicial, informações entre si. Esse momento inicial, por si só, sem a intervenção da pesquisadora, foi utilizado espontaneamente pelas participantes como espaço dialógico e afetivo de trocas de experiências, em que falavam umas para as outras do processo que estavam vivenciando junto com os bebês. Foi pedido que discutissem sobre o tema: “Eu e o desenvolvimento de meu filho”, momento em que surgiram pistas sobre como percebiam seu lugar no desenvolvimento, como atuavam, aparecendo indicadores sobre redes de apoio e informações gerais que auxiliaram na construção de indicadores acerca de todos os aspectos que o estudo pretendia investigar. Para estimular a continuidade das reflexões e troca de idéias das participantes, foram introduzidas perguntas e temas ao longo das discussões, como: “As crianças se desenvolvem do mesmo jeito”; “O que é preciso para uma criança se desenvolver?”
Esse encontro de discussão temática indicou ser uma estratégia importante de reflexão, socialização e construção de conhecimentos através de diálogos entre as mães e a pesquisadora.
3.4.5. Identificação e exploração de conteúdos expressivos a partir de fotos
As mães foram incentivadas a organizar com a pesquisadora, as fotos que produziram desde a gravidez até o final da pesquisa de campo. Esse instrumento foi realizado nas duas visitas domiciliares após a alta hospitalar. A pesquisadora procurava observar as reações e os relatos das mães diante das imagens, procurando envolvê-las ao mesmo tempo em diálogos relacionados aos temas de interesse para a pesquisa.
A utilização de fotografias mostrou ser um recurso muito interessante para a presente pesquisa, dada a especificidade do objeto de estudo em questão, visto que esses registros são muito realizados no momento de chegada de um novo membro da família, sobretudo, inferimos, quando este é bem acolhido, aceito e as pessoas a sua volta mantém expectativas positivas quanto ao seu desenvolvimento. Foram importantes para indicar relações sociais e vínculos afetivos, já que as fotografias comumente têm esse fim, de registrar as pessoas do convívio coletivo, além de ser uma atividade culturalmente compartilhada e atualmente facilitada por uma diversidade de aparelhos portáteis, como celulares. Dessa forma contribuiu ainda mais para o envolvimento das mães na produção de informações importantes, constituindo um instrumento motivador a interações, conversações e observações constantes junto às participantes.