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2.5 Procedimentos de análise

Na análise utilizei os dados dos diferentes instrumentos de pesquisa apontados no item anterior para verificar o progresso das participantes ao longo do curso. Esses instrumentos foram: questionários inicial, intermediário e final; tarefas realizadas ao longo das unidades; e, mensagens de fóruns e e-mails enviadas durante o curso.

A análise de dados foi feita considerando letramento digital sob dois ângulos: a) tipos de letramento; e

b) níveis de letramento.

Em relação ao que denominei tipos de letramento, os seguintes critérios foram estabelecidos:

a) uso da Internet;

b) conhecimento dos programas de computador utilizados pelo usuário; e c) aplicação pedagógica dos recursos computacionais.

Por sua vez, cada um desses três aspectos foi examinado, considerando-se diferentes níveis de letramento. Parece-me que, da mesma forma que no ensino de línguas é possível ter diferentes níveis de proficiência em diferentes habilidades lingüísticas, o mesmo pode ocorrer no letramento digital. Seguindo essa mesma argumentação, estabeleci níveis diferentes de letramento em cada um dos tipos de letramento.

Para uma análise mais criteriosa, estabeleci escalas14 de níveis de letramento, que serão explicadas a seguir. De modo geral, na literatura não parece haver escalas e indicadores que avaliem, de forma mais objetiva, o nível de letramento digital (Grigorovici et al, 2002), menos ainda de professores. Assim, vi a necessidade de adaptar ao meu estudo escalas já existentes ou propor escalas de letramento, quando não existiam.

A primeira escala proposta refere-se ao nível de letramento em termos de utilização da Internet. Essa escala apropriou-se do Índice COQS (Communicating, Obtaining, Questioning and Searching in the Internet), desenvolvido pela Comunidade Européia, que se baseia na auto-avaliação dos usuários. O COQS é uma medida que combina quatro diferentes habilidades na utilização da Internet, inserida em um sistema de pontuação de letramento digital geral. As habilidades são:

• comunicar (communicating) com outros (por e-mail, fórum, sala de bate-papo, por exemplo);

• obter (obtaining) (ou baixar) e instalar programas em um computador; • questionar (questioning) a fonte de informação na Internet; e

• selecionar (searching) uma informação necessária utilizando motores de busca. Na presente pesquisa, comunicar-se com outros é entendido como a capacidade de comunicar-se através de e-mails, fórum e sala de bate-papo. Existem outras formas de comunicação na rede, como, por exemplo, lista de discussão, MSN, Voicemeeting, Skype que não foram consideradas por não fazerem parte dos

14 Para mais informações sobre escalas, consultar: Trochim (2006), Stangor (1998), Nation (1997),

recursos desta pesquisa, mas que, em um estudo mais abrangente, poderiam ser incluídos.

Do índice COQS, só há duas habilidades – comunicar e selecionar – que são perceptíveis na presente pesquisa, e a partir delas, estabeleci uma escala de uso da Internet por parte das participantes, baseadas nos componentes do curso que se identificam a essas duas habilidades.

A escala proposta, que denominei de escala Letramento na Internet, possui quatro níveis – idéia retirada do índice COQS –, variando de 0 a 3, no qual 0 representa o mais baixo nível possível de letramento digital e 3, o mais alto. Cada nível inclui os itens do nível anterior (cf. escala de Guttman na Fundamentação Teórica). Lembro que, na presente pesquisa, as participantes já possuíam algum nível de letramento digital, pois era um dos pré-requisitos para participar do experimento, conforme explicitado no capítulo da metodologia. Por esta razão, o nível zero, neste estudo, indica o grau mais baixo, mas com definição diferente da usada na escala do índice COQS.

A escala Letramento na Internet foi, assim, composta:

0 = envia e recebe e-mails para/de amigos, colegas de trabalho e alunos;

1 = utiliza a Internet para enviar e receber e-mails com anexos (ex. exercícios trabalhos de e para alunos), procurar imagens e ilustrar o próprio material criado, pesquisar assuntos e buscar informação na rede;

2 = participa de salas de bate-papo, fórum ou lista de discussão;

3 = utiliza a Internet para pagar contas, fazer compras e reservar passagens e publicar Webpages.

Uma segunda escala de letramento proposta está relacionada ao uso dos programas de computador, que denominei escala Letramento em Programas. Essa escala possui cinco níveis. Ela varia de A a E, em que A implica o menor nível de letramento digital e E, o mais alto. Cada nível inclui os itens do nível anterior (cf. escala de Guttman na Fundamentação Teórica). Os programas computacionais abordados no curso ministrado foram: Word, Paint/Paintbrush, PowerPoint e Webpages. Para verificar o nível de letramento digital inicial e final de cada

participante, criei grades para cada programa, baseadas no que foi ensinado no curso. As grades foram elaboradas por programas, considerando os recursos abordados (formatação básica, índice analítico e remissivo etc) e os itens explorados nesses recursos. Além disso, os recursos dos programas foram divididos em básicos e avançados. A única exceção ocorreu com o Paint/Paintbrush por ser um programa menos complexo que não possui essa diferenciação. Saliento que no Programa de autoria de Webpages, apenas os recursos básicos foram abordados no curso, por uma questão de definição de conteúdo e de tempo disponível. Haveria necessidade de mais semanas de aulas para se ensinar e consolidar conhecimentos mais complexos e avançados na criação de Webpages.

Para a auto-avaliação do estágio inicial de letramento digital das participantes, também considerei a informação sobre a utilização de planilha eletrônica, apesar de não ter sido abordada no curso. Essa informação foi considerada na auto-avaliação feita por cada participante para determinar seu letramento digital inicial por acreditar ser importante saber se elas já tinham esse conhecimento e faziam uso de planilhas eletrônicas antes do início do curso, na medida em que é um programa que requer um maior grau de letramento digital.

A seguir, apresento a escala Letramento em Programas. Nessa escala o programa ‘planilha eletrônica’ estará presente apenas quando relacionado ao questionário inicial, para poder estabelecer mais precisamente o nível de letramento digital inicial percebido por cada participante. Posteriormente, no decorrer da análise, como esse componente não fez parte do curso, ele não é mais considerado.

Neste trabalho, o nível A é entendido como:

A = utiliza recursos básicos de processador de texto, isto é, digita textos em Word (como cartas, documentos, provas, exercícios, etc.); utiliza formatação básica (como alteração de fonte, tamanho, incluir negrito ou itálico).

Quadro 2.10 – Escala Letramento em Programas: nível A

Programa Nível Recursos itens

Tipo de fonte Tamanho de fonte

Word Básico Formatação básica

Negrito; itálico; sublinhado

O nível B é compreendido como:

B = utiliza recursos avançados de processamento de texto (paragrafação, réguas, endentação); utiliza o Paint; utiliza recursos básicos de planilhas eletrônicas (que não foi tratado no curso).

A seguir, apresento a grade do nível B:

Quadro 2.11 – Escala Letramento em Programas: nível B

Programa Nível Recursos itens

Paragrafação Réguas Formatação avançada Endentação marcar entradas inserir índices Índice analítico atualizar índices marcar entradas inserir índices Word Avançado Índice remissivo atualizar índices caixa de ferramentas estilo de linha Operação paleta de cores Paint _ Arquivos de imagem bipmap;jpeg,gif,tif

Excel Básico Planilhas Utilzação de planilhas

O nível C é entendido como:

C = utiliza recursos básicos do programa PowerPoint e recursos avançados de planilhas eletrônicas (que não foi tratado no curso).

Quadro 2.12 – Escala Letramento em Programas: nível C

Programa Nível Recursos Item

escolher layout slide configurar página inserir texto inserir novo slide alterar seqüência slide apagar slide

salvar arquivo abrir arquivo

PowerPoint Básico Operação básica

duplicar slide

Excel Avançado Planilhas Utilização de planilhas/cálculos

Já o nível D corresponde a:

D = utiliza recursos avançados do programa PowerPoint. A grade do nível D é:

Quadro 2.13 – Escala Letramento em Programas: nível D

Programa Nível Recursos Item

inserir fundo slide inserir figura

colocar transição slide

animar slide (som e movimento) ordenar animação

Operação avançada

automatizar animação opções de impressão Impressão quantidade slides p/ folha

inserir wordart inserir texto alterar estilo Formatar mudar formato girar texto altura das letras

alternar texto horizontal e vertical alinhar texto (justificar/centralizar)

PowerPoint Avançado

WordArt

espaçar caracteres

Finalmente, o nível E é compreendido como: E = cria, publica e atualiza Webpages.

Quadro 2.14 – Escala Letramento em Programas: nível E

Programa Nível Recursos Item

criar e salvar pasta

formatar texto (fonte/tamanho/cor) salvar arquivos

criar página index criar hiperlink

mudar plano de fundo criar efeito especial

inserir imagens (clip-art e texto comum)

Produzir Webpages

inserir e formatar tabelas inscrever site gratuito Publicar

Webpages upload arquivos fazer download index modificar página Programa de Autoria de Webpages 15 Básico Fazer Manutenção

da Webpages fazer upload index

Por último, para a análise do processo de letramento das participantes referente ao uso dos recursos computacionais para aplicação pedagógica, foi proposta uma terceira escala, denominada de escala Aplicação Pedagógica dos

Recursos Computacionais. Ela está relacionada à aplicação dos recursos

computacionais na prática docente. Propus uma escala de três níveis, variando de I a III. Antes de mostrar a escala, acredito ser pertinente esclarecer que a palavra tarefa é usada neste trabalho com dois significados diferentes. O primeiro relaciona- se às tarefas solicitadas às participantes pela professora durante o curso. O segundo, relaciona-se com o último nível da escala proposta.

Os níveis da escala Aplicação Pedagógica dos Recursos Computacionais são:

I = exercício, ou seja, é um exercício lingüístico, preocupado com a forma, de modo isolado, isto é, descontextualizado, e não com o significado no mundo real; pois entende língua como um conjunto sistêmico de regras que, se dominado, permite ao aprendiz usar a língua; normalmente são exercícios de vocabulário, gramática e pronúncia,

II = atividade comunicativa;

Atividades comunicativas são entendidas aqui como:

activities that resemble both linguistic and pedagogical tasks in that they provide manipulative practice of a restricted set of language items, and also have an element of meaningful communication. (Nunan, 2005: lesson 4)

III = tarefa;

Tarefa é definida como:

a piece of classroom work that involves learners in comprehension, manipulating, producing or interacting in the target language while their attention is focused on mobilizing their grammatical knowledge in order to express meaning… The task should also have a sense of completeness, being able to stand alone, with a beginning, a middle and an end (Nunan, 2004:4),

A composição das três escalas associadas às informações sobre o conhecimento prévio das participantes em relação às teorias de aprendizagem e aplicação pedagógica dos recursos computacionais (informação constante no questionário inicial) permitiu avaliar o grau de letramento inicial e final das participantes da pesquisa e perceber se houve mudança no nível de letramento das participantes.

No próximo capítulo, discorro sobre os resultados da análise dos dados coletados ao longo do curso ministrado.