Ao trabalharmos a partir da ideia do índice como hipótese de trabalho (ECO, 1988), conduzimos a pesquisa para atendermos ao objetivo geral deste estudo no conjunto dos capítulos, de modo que os objetivos específicos e o anseio de responder as questões de pesquisa nortearam a operacionalização da mesma. Nesse sentido, firmamos as nossas bases através da leitura, identificação e seleção de textos que pudessem comportar coerentemente a análise adorniana. A escolha dos textos para embasar os desdobramentos da tese deu-se (i) pelas afinidades temáticas, teóricas e/ou filosóficas dos autores seja com os elementos pressupostos do método adorniano, seja com as análises críticas internas às constelações abordadas; (ii) pela pertinência, lugar e mérito teórico da argumentação dos textos para os assuntos analisados.
Embora as constelações, concebidas para a exposição da pesquisa, reúnam autores de vários matizes, todos os que são tratados positivamente têm como referência e determinação a crítica da sociedade capitalista. A dialética negativa de Adorno, como o subtítulo desta tese diz, é a “luz” de fundo que orienta a procura e a direção da crítica. Mas o primado do objeto cobra análises capazes de compreender as particularidades que escapam ao caráter mais abstrato, por isso mesmo mais universal e menos específico ou particular, da teoria filosófica. É por isso que o subtítulo localiza essa tarefa como desenvolvida “pelo pensamento organizacional crítico”. São essas duas mediações que organizam o estudo em forma e conteúdo. De certo modo aqui opera também alguma influência do princípio do não idêntico, na medida em
que pressupomos que não apenas as teorias mais absolutamente afinadas podem colaborar para a potencialização da denúncia do real e de sua crítica.
Diante dos dados levantados, surgiram categorias e categorias derivadas pertinentes. Embora as categorias tenham sido descritas na apresentação final na metodologia e as categorias derivadas apresentadas antecipadamente na introdução de cada capítulo, todas são resultantes das descobertas realizadas em meio ao processo da pesquisa, quando percorremos cada constelação. Da mesma maneira, no encerramento de cada capítulo as categorias e suas derivadas são retomadas para fecharmos o circuito da análise pelo pensamento organizacional crítico à luz da dialética negativa. Em meio a isso, os elementos do método adorniano se mostraram proeminentes à análise categorial, destacando-se em uma ou em mais de uma ao mesmo tempo. Assim, nas idas e vindas de nosso estudo, acreditamos que o esforço inerente à análise constelatória permitiu deslindar o quadro da Gestão Pública danificada.
Dados estes procedimentos, a abordagem dialética negativa foi operada partindo da dimensão histórica ou da historicidade, em que passamos a compreender como se construiu o fenômeno do colonialismo no Brasil e suas consequências simbólicas tardias, como a colonialidade. Por outro lado, tematizar a Gestão Pública brasileira desde o Estado Novo, apontando aspectos do poder pela análise da constelação político-burocrática, possibilitou versar sobre a emergência de elementos da constituição administrativa do Estado, que se sobrepõe às esferas política e social. Veremos como esta constituição cumpre a tarefa de conservar o modo capitalista de produção, firmando uma estrutura que integra a técnica e exclui as contradições de classe. Já pela constelação da ideologia apontamos criticamente formas inautênticas de pensamento e ação que a Gestão Pública desenvolveu ou assimilou como objetivas, naturais e necessárias, encobrindo, entretanto, os fundamentos sociais e históricos contraditórios que lhe dão efetiva sustentação.
Com efeito, se versamos sobre a colonialidade como geradora de um déficit de formação autônoma do pensamento e das instituições burocráticas brasileiras, mas se estas, mesmo assim, impõem-se como dominantes não apenas no terreno material, mas também no discursivo, significa, claramente, que aí tem lugar o fenômeno da ideologia. Neste sentido, a ideologia aparece analisada em nosso estudo como tema correlato ou decorrente dos efeitos negativos da colonialidade e sustentadora da estrutura político-burocrática, pois ela opera como forma de consolidação simbólica de um poder material instituído, assegurando compensação e aceitação para a devida adaptação aos déficits dessa mesma realidade. Nessa lógica, as próprias categorias são concebidas, a partir da visão de Marx (1982), não como malabarismos do espírito, mas como formas de modos de ser, determinações da existência.
Ainda que as ideologias não possam ser suprimidas de todo nas teorias, porque isso significaria pressupor a possibilidade de se alcançar um saber absoluto, a análise crítica do seu papel e da função que cumprem em determinadas estruturas, a exemplo do seu lugar na Gestão Pública, é fundamental para qualquer pensamento que se inscreva na perspectiva crítica. Da mesma forma, na análise da burocracia, os elementos do poder surgem para apontar o grau da racionalidade instrumental do sistema, reforçando a necessidade de um pensamento antissistema. A dialética negativa de Adorno nos fornece a advertência do pensamento efetivamente crítico como uma porta aberta para a frente, uma ‘especulação’ não regressiva. Não como abordagem que toma a crítica como compromisso teórico meramente técnico, mas como intento dialético, que nega e recria, porque para Adorno nenhuma teoria é inteiramente digna se não se importar, em sua motivação de fundo, com a luta contra as condições que perenizam o sofrimento humano. Colocando na conta do saber essa tarefa, ele escreveu: “A necessidade de dar voz ao sofrimento é condição de toda verdade” (ADORNO, 2009, p. 24).
CAPÍTULO 4
DO COLONIALISMO HISTÓRICO À COLONIALIDADE SIMBÓLICA: BASES DA RECUSA DO NÃO IDÊNTICO
O Brasil nasceu e cresceu sem experiência de diálogo. De cabeça baixa, com receio da Coroa. Sem imprensa. Sem relações. Semescolas. ‘Doente’. Sem fala autêntica.
Introdução
Este capítulo trata dos desdobramentos da constelação que nomeamos como colonialidade, visando tematizar os elementos históricos que sustentam as práticas contemporâneas de condução da Gestão Pública no Brasil. A partir da ótica adorniana, servem-nos como subsídios os estudos pós-coloniais, especialmente os desenvolvidos na América Latina por Quijano (2005, 1997), Coronil (2005), Lander (1997, 2005) e Dussel (1993), as aproximações destes em termos de teorização nacional61, feitas por autores isebianos e outros (PINTO, 1960; SODRÉ, 1984; RAMOS, 1996; FREIRE, 1967; FERNANDES, 2004a, 2004b; SOUZA, 2000; IANNI, 2000, 2004a, 2004b) e, entre distintas fontes, as dos estudos organizacionais, em seu veio crítico.
Partimos da ideia de consciência histórica de Pinto (1960, p. 86):
Ao procurar tomar conhecimento dos fatores que a determinam, com o mesmo esforço que faz para descobri-
los, descobre algo mais: a historicidade desse
condicionamento. (...) o real que é o seu objeto, não lhe aparece como coisa “que está aí”, imóvel e idêntico a si mesmo, (...) porém como circunstância objetiva que a envolve a ponto de constituí-la e de nela imprimir a marca indelével da temporalidade que lhe é própria. A consciência crítica pensa temporalmente porque sabe não estar pensando a partir de um vácuo histórico e sim fundada em um contexto concreto.
Portanto, a consciência crítica, como pressuposto inamovível da
61 Maia (2009, p. 156) defende o diálogo entre pensamento social brasileiro e pós-
colonialismo, de modo que se fale não só do Brasil, mas também se abordem “dilemas modernos globais a partir de um ponto de vista distinto daquele formulado no mundo europeu e anglo-saxão”. O pós-colonialismo contribui como posição discursiva alternativa de fundações múltiplas e o pensamento social brasileiro por abarcar o campo das interpretações do país, o qual reúne historiadores e também estudiosos interessados na modernidade brasileira, como Jessé Souza e Luiz Werneck Viana. Segundo Maia (2009), esta integração temática respeita o repertório linguístico nacional ao passo que auxilia no estabelecimento de leituras para adiante deste universo quando promove a abertura cognitiva, além de ampliar o campo teórico do pós-colonialismo. Não pretendemos inventariar essa discussão, apenas nos beneficiaremos de algumas de suas inclinações com vistas a alcançar o objetivo proposto.
dialética adorniana, que é acionada pela inquietude, “não se satisfaz com as aparências” buscando contrapontos à consciência mágica intransitiva e ao sectarismo da consciência ingênua (FREIRE, 1979, p. 22). Seguimos pelo Adorno materialista ou marxista, que vê a história não como um produto do “espírito do tempo” (Zeitgeist), como diria Habermas (2005) à semelhança de uma espécie de mão invisível, mas como expressão material da luta de classes na sociedade. Destarte, enxergamos o colonialismo histórico como um fenômeno multifacetado, enquanto a colonialidade simbólica, envolta em um complexo caleidoscópico, é o seu resultado derradeiro. Pautamo-nos, neste ponto, pela sociologia crítica ao visitar elementos concernentes ao colonialismo para depois compreender o processo de sua convergência à colonialidade.
Assim disposta, esta constelação revela as bases de que precisamos para as apreciações subsequentes. Considerando que nossas dimensões de análise são um complexo profundamente interligado e articulado, na constelação da colonialidade cabe trazer à luz componentes concretos que convergem ao processo de formação da ideologia da identidade que, homogeneizadora, delineia as nuanças do poder e da configuração simbólica autocentrada e
inautêntica da Gestão Pública. A crítica da colonialidade acusa sobremaneira
aspectos políticos e sociais que a explique em dualidades como dominação
versus dependência, ao invés de pensar no nível da simples contraposição entre
o universo nacional e o internacional, às vezes o limite máximo alcançado por alguns estudos.
Ao nos direcionarmos pelo método adorniano empreendemos uma análise sintética, que não visa ser sistemática, mas que seja capaz de revelar aspectos significativos da constelação em tela. Embora seja a denominada fase colonial iniciadora de determinadas categorias, os acontecimentos precisam ser considerados em sua complexidade dada a sua não linearidade. Assim, as categorias inerentes ao colonialismo são aquelas que emergem a partir da
‘descoberta’ do Brasil e agem e se modificam também na fase imperial ou monárquica – que para Lopez (1988) vai de 1806 a 1891 e para Ianni (2004a) perdura entre 1822 a 1889. Atuam elas neste tempo histórico em sua singularidade e, ao subsistirem para além das meras tipologias temporais, assumem novas roupagens que reverberam ao Brasil atual, enquanto impressões da colonialidade propriamente dita, no universo contemporâneo.
Desse modo, a leitura dialética negativa nos permitiu identificar seis categorias principais nessa constelação que, em conjunto com as imagens de estrelas menores, suas categorias derivadas, exprimem a colonialidade como constelação assentada na dimensão histórica brasileira. Como o seu complexo caleidoscópico não permite desenvolver suas facetas ao extremo, apenas colhemos o que pela lente adorniana nos é permitido e logramos alcançar. A nossa descrição desta constelação tomará por base:
(i) A dominação, ao que se conectam a exploração e a identidade, esta como espoliação da ideia do Outro, o não idêntico; também a dependência aqui se impõe como categoria derivada controversa consequente, não só do ponto de vista econômico, mas também cultural;
(ii) O autoritarismo, como um desaguadouro das categorias anteriores, em que pesa o patrimonialismo e seus derivados, como o personalismo, o
coronelismo, o clientelismo, o mandonismo e o favoritismo, denotando
formas peculiares que a gestão do Estado nacional assumiu;
(iii) O estadocentrismo, a que se aliam, como categorias derivadas, as qualificativas do poder historicamente exercido pelo Estado, assumido primeiro pelo imperialismo da coroa portuguesa, depois pelas oligarquias e, mais tarde, pela burguesia, que irrompe com a formação do capitalismo monopolista brasileiro. É marcante a dependência, iniciada na dominação do período colonial e pós-colonial, que se expande posteriormente;
(iv) A desigualdade, imanente a esse conjunto constelatório, mas que também pode ser especificada em três categorias derivadas: desigualdade de
classe, desigualdade racial e desigualdade de gênero; estas constituem a
síntese das desigualdades sociais do país;
(v) A colonialidade do poder, em que podemos considerar como categorias derivadas a segmentação, o controle e a modernidade, que envolve considerar o eurocentrismo, o etnocentrismo e a seletividade, bem como o debate sobre o (sub)desenvolvimento, este definido, no caso do Brasil, a partir do olhar euro e etnocêntrico;
(vi) A colonialidade do saber, que se revela pelas categorias derivadas
naturalização, docilidade, meritocracia, subalternidade e inautenticidade.
Em seu questionamento do instituído, a análise da colonialidade do saber permite avançar para a necessidade de construção de espaços próprios de pensamento, que afirmem a alteridade do Outro frente ao eurocentrismo, num movimento descolonizador (MISOCZKY, 2010).
Conectadas ao colonialismo histórico estão especialmente as quatro primeiras categorias elencadas. Por conseguinte, a colonialidade simbólica, como manifestação contemporânea de uma herança latente da época colonial, além de correlacionada às categorias anteriores, avança nos aspectos atinentes ao processo de constituição da modernidade brasileira, destacada tanto pela colonialidade do poder, como na colonialidade do saber.