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3. CONSCIÊNCIA TEXTUAL: UMA ATIVIDADE METALINGUÍSTICA

4.4. PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DOS DADOS

4.4.4. Procedimentos de análise para as Etapas 3 e 4

Os dados obtidos na terceira e na quarta etapa foram analisados quantitativa e qualitativamente, a partir da avaliação das três versões do texto escrito, da análise do processo e do nível de consciência nele envolvido. Os textos produzidos pelos alunos foram avaliados por dois juízes, a partir dos critérios estabelecidos no quadro abaixo e foi determinado o grau de confiabilidade entre eles.

Quadro 16 – Critérios para avaliação dos textos

Nota: Nº = Identificação do item a ser avaliado. Fonte: A autora (2017).

O quadro 16 foi elaborado a partir de cinco componentes: adequação à tarefa proposta, superestrutura, coerência, coesão e convenções da escrita. No primeiro componente, avaliava- se a adequação do texto produzido à tarefa proposta. Nesse sentido, tendo em vista o gênero textual pretendido para essa pesquisa – o relato pessoal–, devia-se verificar se havia, no texto, a definição de algum fato a ser relatado, além da apresentação de dados concretos/ precisos/

Componente Descrição Nº

Adequação à tarefa

Tema Há a definição de um fato a ser relatado. 1

Interlocutor O texto apresenta dados concretos/ precisos/ específicos, que dão condições ao possível leitor para compreender o relato. 2 Linguagem A linguagem utilizada está adequada ao possível leitor do texto. 3 A linguagem utilizada está adequada a um relato pessoal 4

Superestrutura

Apresentação Há a contextualização do fato a ser relatado para situar o leitor. 5 Complicação O texto apresenta um conflito, um momento em que há o

rompimento do equilíbrio das ações. 6

Resolução O texto apresenta a solução do problema, o reestabelecimento

do equilíbrio das ações. 7

Avaliação Apresenta uma reflexão, um comentário ou a repercussão dos acontecimentos na vida do narrador, configurando-se uma conclusão, um fechamento do texto.

8

Narrador O texto apresenta um narrador em primeira pessoa. 9 Tempos verbais O texto apresenta a relação pretérito (para narrar) e presente

(para comentar) adequadamente. 10

Coesão

Coesão lexical Evidencia-se coesão por meio de relações lexicais, a partir de (1) associações entre itens (contiguidade) e/ou (2) recursos de substituição lexical (sinônimos, hiperônimos, nomes genéricos) para evitar a repetição de palavras.

11

Coesão gramatical

Evidencia-se o uso adequado de elementos de referência (pronomes pessoais, demonstrativos, etc) e de mecanismos como a substituição e a elipse (em que a informação pressuposta pode ser recuperada no texto), para evitar a repetição de um determinado item (ou de uma oração).

12

O texto apresenta conexões adequadas entre seus componentes (frases, orações), a partir do uso de conjunções e de locuções conjuntivas.

13

A pontuação é utilizada adequadamente, de forma a contribuir

para o estabelecimento das relações semânticas no texto. 14

Coerência

Repetição (manutenção

temática)

O texto se desenvolve a partir de um mesmo eixo temático

(unidade temática). 15

Progressão

textual Há inserção adequada de informações novas. O texto apresenta um avanço sequencial do tema. 16 17 Não contradição Não há presença de informações contraditórias no texto. As referências temporais (correlação verbal, advérbios e 18 locuções adverbiais) e pessoais são utilizadas adequadamente. 19 Relação As informações contidas no texto representam a realidade a que

se reportam. 20

Convenções da escrita

específicos, ou seja, de informações suficientes para que o possível leitor tivesse condições de compreender o que se relatava. Por fim, nesse componente, também era avaliada a linguagem utilizada, tendo em vista sua adequação ao possível leitor do texto, bem como ao gênero textual esperado.

O segundo componente do quadro refere-se à superestrutura. Nela, estão presentes os elementos que constituem a “moldura” do texto, os traços que o definem como um relato pessoal. Para tanto, indicou-se a verificação dos elementos da estrutura narrativa: (1) apresentação, em que o narrador situa os fatos a serem narrados; (2) complicação, com o surgimento de um conflito, com o rompimento do equilíbrio que existia; (3) resolução, em que há a apresentação de uma solução para o problema estabelecido; e (4) avaliação, uma conclusão/ fechamento do texto, em que se expõe uma reflexão, um comentário ou a repercussão dos acontecimentos na vida do narrador. Além disso, considerou-se a existência de um narrador de primeira pessoa no texto, assim como o uso adequado de tempos verbais e indicadores de tempo; como previsto por Weinrich (1974), em narrativas: o tempo pretérito é utilizado para narrar e o tempo presente, para comentar.

O terceiro componente é a coesão, isto é, mecanismos responsáveis pelo estabelecimento de relações entre ideias no texto. Nele, foram avaliados mecanismos de coesão lexical e de coesão gramatical. No primeiro, a proposta era verificar se havia coesão por meio de relações lexicais, sendo elas originadas a partir do estabelecimento de associações entre itens, também conhecida como associação por contiguidade, e/ou a partir de recursos de substituição lexical (envolvendo o uso de sinônimos, hiperônimos, nomes genéricos, etc), a fim de evitar a repetição de palavras no texto. Já na coesão gramatical foram três os critérios de avaliação. O primeiro referia-se ao o uso adequado de elementos de referência, como pronomes pessoais, demonstrativos, entre outros, bem como de mecanismos, como a substituição e a elipse – em que a informação pressuposta pode ser recuperada no texto –, para evitar a repetição de um determinado item (inclusive de uma oração). O segundo seria a conjunção, um recurso não referencial que estabelece conexões entre os componentes de um texto (como frases e orações). A avaliação sobre esse aspecto levava em consideração o estabelecimento adequado dessas relações por meio de conjunções e de locuções conjuntivas. O terceiro, referente à pontuação, previa a verificação do uso desse recurso coesivo, visto que colabora para a construção das relações de significado no texto.

O quarto componente é a coerência e envolve princípios das quatro metarregras propostas por Charolles (1988): a repetição (manutenção temática), a progressão textual, a não contradição e a noção de relação. A repetição, também conhecida como manutenção

temática ou unidade temática, é a qualidade discursiva que prevê o desenvolvimento do texto em torno de um único eixo temático. A progressão temática diz respeito à ordenação, em que informações novas são agregadas a antigas para dar continuidade ao texto, porém sem fugir do tema proposto inicialmente. Assim, propôs-se um item para a inserção adequada de informações e um para a presença de um avanço sequencial do tema na narrativa. O aspecto referente à não contradição previa a ausência de informações contraditórias e o uso adequado de referências temporais, como correlações verbais, advérbios e locuções adverbiais, assim como de referências pessoais. Para finalizar esse componente, propôs-se a verificação da noção de relação, ou seja, para avaliar se as informações contidas no texto podiam representar a realidade a que se reportavam.

O último componente a ser avaliado diz respeito às convenções da escrita. Nesse item, contemplou-se apenas a ortografia, pois o foco principal do trabalho está no arranjo e nas relações entre as ideias para a composição do texto.

Os critérios estabelecidos no quadro 16 foram avaliados por dois juízes30 a partir de uma escala Likert de sete pontos.

Figura 23 – Escala Likert utilizada na avaliação dos textos

1 2 3 4 5 6 7

Discordo

totalmente em grande Discordo parte

Discordo

em parte Não concordo nem discordo Concordo em parte Concordo em grande parte totalmente Concordo

Desse modo, os juízes, ao lerem o texto, deviam se posicionar acerca de cada uma das assertivas que compunha os critérios de avaliação, dizendo se concordavam (plenamente, em grande parte ou em parte), se discordavam (totalmente, em grande parte ou em parte) ou se não concordavam nem discordavam, isto é, percebiam-se em uma posição neutra. Essas impressões foram expressas em números, os quais possibilitaram a comparação entre os textos e também a atribuição de um escore total do texto, que varia de 21 a 147. Os resultados das avaliações passaram uma análise estatística, a fim de determinar o grau de confiabilidade entre os juízes; após, calcularam-se as médias para realizar as correlações e comparações entre os dados.

Com relação ao processo de escritura, os áudios do protocolo verbal foram transcritos

e, posteriormente, analisados. Para a verificação da consciência textual, foram mantidas as mesmas categorias de análise referentes à avaliação dos textos, como pode ser observado no quadro a seguir.

Quadro 17 – Categorias de análise dos protocolos verbais

Componente Descrição

Adequação à tarefa Tema Definição de um fato importante

Interlocutor Consideração ao possível leitor

Linguagem Adequação ao leitor

Adequação a um relato pessoal

Superestrutura Apresentação Contextualização do fato

Complicação Apresentação do conflito

Resolução Solução do problema

Avaliação Conclusão (Reflexão, Comentário ou Repercussão na vida do autor)

Narrador 1ª pessoa

Tempos verbais Relação pretérito/ presente

Coesão Coesão lexical Reiteração ou colocação

Coesão gramatical Referencial Referência/ Substituição/ Elipse

Não referencial Conjunção Pontuação Coerência Repetição (manutenção

temática) Unidade temática

Progressão textual Informações novas

Sequenciação de informações Não contradição Ausência de informações contraditórias

Não contradição de referências temporais e pessoais Relação Representação da realidade a que se reporta

Convenções da escrita Grafia Ortografia

Fonte: A autora (2017).

Como especificado na seção sobre o levantamento dos dados, para a análise da consciência textual nos processos de produção e de revisão, foram retirados das transcrições trechos que estivessem relacionados às categorias apresentadas. Após, analisaram-se as falas selecionadas, a partir dos descritores referentes aos níveis de consciência estabelecidos no quadro 6. A cada um desses níveis foi atribuída uma pontuação, conforme mostra o quadro 18.

Quadro 18 – Critérios de avaliação dos níveis de consciência textual

Níveis de

consciência Descritores Pontuação

Inconsciente

Não menciona. Não faz julgamentos acerca desse tópico. 0 Faz julgamento ou referência ao tópico equivocadamente. Não apresenta

justificativa ou análise. 1

Faz julgamento ou referência ao tópico equivocadamente. Apresenta justificativa

ou análise equivocada. 2

Pré- consciente

Faz julgamento ou referência ao tópico equivocadamente. Apresenta justificativa plausível.

3 Faz julgamento ou referência ao tópico adequadamente (ou de forma

parcialmente adequada). Apresenta justificativa ou análise equivocada. 4 Faz julgamento ou referência ao tópico adequadamente (ou de forma

parcialmente adequada). Não apresenta justificativa ou análise. 5 Faz julgamento ou referência ao tópico adequadamente (ou de forma

parcialmente adequada). Apresenta justificativa ou análise sem consistência, com critérios vagos..

6

Consciente

Faz julgamento ou referência ao tópico adequadamente. Apresenta justificativa ou análise com consistência parcial; com critérios definidos, mas de forma incompleta.

7

Faz julgamento ou referência ao tópico adequadamente. Apresenta justificativa

ou análise com consistência plena; com critérios precisos. 8 Fonte: A autora (2017).

Após conferidas as pontuações aos componentes avaliados, os dados passaram por uma análise quantitativa e comparativa com outros dados. O escore total da consciência textual na escrita variava de zero a 168 (referentes a 21 itens avaliados).