2 METODOLOGIA 2.1 Participantes
2.2 Procedimentos de coleta de dados 1 Instrumento
Os dados foram coletados utilizando-se a entrevista narrativa semiestruturada conduzida a partir de roteiro pré-estipulado que foi submetido a teste (Flick, 2004). O roteiro foi utilizado em três pré-testes com a finalidade de verificar a adequada compreensão das questões pelos participantes e para aferir sua capacidade de gerar respostas compatíveis com os objetivos da investigação (Rosa, 2006). Confirmada sua adequação e feitas algumas adaptações, as entrevistas definitivas foram iniciadas.
O roteiro de entrevista, estruturado para os participantes residentes no campo, foi estabelecido de modo a destacar suas peculiaridades. As perguntas foram direcionadas especificamente para o cotidiano desse indivíduos. Considerando que a grande maioria dos entrevistados residentes na sede do município já viveram no campo, ou tem contato frequente com parentes que residem no campo, o roteiro de entrevista utilizado com eles conjugava questões relativas ao seu cotidiano com outras referentes a população rural e ao ambiente do campo (Biasoli- Alves & Dias da Silva, 1992; Weber & Dessen, 2009).
Trabalhar com as respostas de dois grupos que apresentam diferenciações resultantes das condições em que vivem, mas que foram construídas a partir de uma mesma base cultural, pode ter grande valor heurístico, no sentido de ressaltar informações que interessam diretamente aos objetivos do estudo, relativas a aspectos de identidade social.
Dentro de tal estrutura geral de coleta de dados, é importante esclarecer que a estratégia de utilizar as respostas de tal grupo de descendentes, que vive hoje relativo distanciamento das condições originais nas quais os imigrantes iniciaram suas atividades no novo país, foi adotada
93 como complementação e também como contraponto confirmatório ou crítico em relação aos temas para os quais existisse risco elevado de respostas distorcidas por excesso de prudência, com o objetivo de não expor demasiadamente o próprio grupo ao olhar externo. O roteiro também incluiu algumas perguntas feitas exclusivamente a tal grupo, uma vez que perderiam o sentido se apresentadas aos residentes no campo.
Todas as entrevistas foram realizadas pela pesquisadora responsável pela coleta de dados ou em sua presença, nos casos em que houve participação de tradutor. A abordagem dos potenciais participantes e a explicação sobre a pesquisa foram feitas, em todos os casos, com a mediação de um(a) tradutor(a) e guia da região, que acompanhou todas as viagens ao ambiente rural. Em dois casos de participantes que não se comunicavam na língua portuguesa a entrevista foi conduzida por tradutor(a) vinculado(a) à própria comunidade e residente na sede de Santa Maria de Jetibá. Esse recurso foi utilizado por não haver disponibilidade de tradutores sem ligação com a comunidade, uma vez que a língua pomerana é falada basicamente pelos descendentes nas colônias do Espírito Santo e do sul do país (Seyferth, 2004).
Foram utilizados dois roteiros de entrevistas. O primeiro deles, direcionado aos participantes que ainda residem na “colônia” (Seyferth, 2004), designado como grupo CAMPO. O segundo roteiro, diferente em diversos pontos, tinha como foco os participantes residentes fora do campo, na cidade de Santa Maria, identificado como grupo SEDE e está reproduzido no Apêndice I. É relevante lembrar que os roteiros serviram ao direcionamento das entrevistas, admitindo variações na condução das entrevistas com o propósito de instigar maior participação dos entrevistados, quando isso fosse necessário.
Como alguns assuntos que podem interessar à investigação, tal como ocorre em qualquer grupo, são comumente revestidos de aspectos de proteção quanto à exposição do grupo (por exemplo: alcoolismo, suicídio), houve a preocupação de incluir no roteiro algumas questões que, mesmo sem qualquer referência direta a tais assuntos, pudessem facilitar o aparecimento de relatos nos quais eles figurassem.
94 2.2.2 Abordagem e seleção de participantes
No primeiro momento da pesquisa foi feito o trabalho de identificação das residências de famílias de descendentes do grupo CAMPO, com a colaboração de líderes comunitários das regiões visitadas no município de Santa Maria de Jetibá, e a seguir foram agendados encontros para solicitar participação e realizar as entrevistas. Esses mesmos líderes comunitários foram as pessoas responsáveis pela apresentação do pesquisador e da pesquisa, e atuaram como tradutores de perguntas e respostas nos casos em que tal mediação se fez necessária. Nos casos de entrevistas em língua pomerana foi adotada a seguinte sistemática: as perguntas foram apresentadas em português pela pesquisadora e imediatamente traduzidas para o entrevistado; as respostas fornecidas também foram traduzidas de imediato para o português, para que a voz do tradutor constasse da gravação original. Participantes residentes na sede de Santa Maria de Jetibá, que compõem o grupo SEDE, foram contatados em suas residências a partir de indicações iniciais de funcionários da Prefeitura Municipal, exceto nos casos em que já eram conhecidos dos responsáveis pela pesquisa. A cada entrevistado foi solicitada a indicação de outros possíveis participantes, utilizando “amostra de conveniência” (procedimento de constituição do conjunto de participantes por bola-de-neve, Turato, 2003). Todo o processo foi gravado, mediante autorização do entrevistado, e as transcrições (apenas dos trechos em português, evidentemente) foram providenciadas nos dias seguintes.
Alguns obstáculos tiveram que ser superados na abordagem aos entrevistados, tanto no campo como na sede, e são mencionados aqui porque tal explicitação pode constituir contribuição a pesquisadores interessados no desenvolvimento de estudos com características semelhantes ao que aqui está sendo relatado. No caso dos participantes do Grupo CAMPO, condição na qual os indivíduos trabalham nos arredores de suas residências, foi muito comum encontrar os indivíduos trabalhando no dia da abordagem, em qualquer horário. Dessa forma, sempre havia o constrangimento de estar forçando a interrupção do trabalho para poder interagir e marcar as entrevistas.
95 Um segundo obstáculo foi a ausência de domínio da língua pomerana por parte da entrevistadora, mesmo quando o entrevistado se expressa em português. Isso ocorre porque o conhecimento do pomerano indica que o indivíduo (no caso dele não ser descendente de pomeranos) desenvolveu o que poderia ser considerado um interesse genuíno naquele grupo, o que aproxima tais pessoas, de forma que os entrevistados se mostram mais interativos, confiantes e solícitos. Um aspecto bastante similar, relacionado a essa mesma fronteira imaginária que pode aproximar ou afastar o entrevistador do grupo, pode ser relatado. Em vários casos ficou evidente que após ter sido vencida a barreira do primeiro contato e assim que a própria entrevistadora foi identificada como descendente de pomeranos, embora residente em outra localidade, o que via de regra constituiria dificuldade se transformou em aproximação, na maioria das entrevistas feitas no campo. Isso, com certeza, contribuiu para que grande parte de tais entrevistas resultassem extensas e muito informativas.
No caso de abordagens a indivíduos unilíngües para o pomerano houve dificuldade óbvia que só pode ser superada com a participação de um tradutor, como já foi mencionado. A condução de tais entrevistas, portanto, é dificultada por não haver domínio da língua, resultando, em comparação com as demais entrevistas, prejuízos na fluência da interação.
As recusas de entrevistas também podem ser vistas como exemplos das dificuldades envolvidas. Ocorreram vinte episódios desse tipo durante o processo de coleta de dados. Em alguns casos houve dificuldade até mesmo na autorização para que o entrevistador e o tradutor se aproximassem das residências. Fatos desse tipo inviabilizaram a realização de maior número de entrevistas ao longo do período de coleta de dados do Grupo CAMPO, que teve a duração de um ano. Nesse período, a pesquisadora fez cerca de três viagens mensais ao município no qual residem os entrevistados, que dista 87 km da capital do estado, perfazendo um total de 36 viagens durante o ano de 2009. Ao longo do primeiro semestre do ano de 2010 foram realizadas as entrevistas na sede do município, o que gerou 18 novas viagens ao município.
96 Até mesmo durante algumas entrevistas aconteceram situações que geraram constrangimento, como, por exemplo, algum familiar do participante manifestar resistência à presença da entrevistadora e insatisfação com a perspectiva de seu eventual retorno à propriedade.