3. MÉTODOS
3.4. Procedimentos de coleta de evidências e relatos
Para a coleta das evidências da pesquisa, inicialmente, realizou-se investigação documental em documentos relacionados ao planejamento e à execução de compras públicas no modelo do Simples Nacional, tais como legislações e instruções normativas, manuais institucionais, bases de dados oficiais (com destaque para o Painel de Compras do Governo Federal, acessível por meio do sítio eletrônico “Compras Governamentais”), documentos internos e relatórios de gestão e de órgãos de controle. Por sua vez, a revisão da literatura foi empreendida por meio da seleção, da leitura e da interpretação de artigos científicos e de livros sobre os temas que compuseram a bibliometria, o estado da arte e o referencial teórico desta dissertação.
A coleta de evidências ainda demandou a realização de entrevistas semiestruturadas com 23 agentes públicos envolvidos na elaboração de atos normativos, no planejamento e na execução das contratações federais com MPEs. A realização desse tipo de entrevista, ao invés de instrumentos padronizados (como as entrevistas estruturadas e os questionários), justificou-se pela pretensão de se identificar os pontos de vistas dos entrevistados acerca das dimensões e das variáveis associadas ao desempenho das compras governamentais, o que, na visão de Flick (2004), seria favorecido por entrevistas com o planejamento aberto.
Para reforçar a validade empírica e a credibilidade dos resultados coletados, foi utilizada a técnica do fechamento amostral por saturação teórica. Seguindo essa técnica, promoveu-se a suspensão da inclusão de novos participantes quando os relatos obtidos passaram a apresentar, na avaliação da pesquisadora, certa redundância ou repetição, de modo que não se mostrou relevante persistir na coleta (Fontanella, Ricas & Turato, 2008).
Ademais, ao final de cada entrevista, solicitou-se aos participantes a indicação de outras áreas ou pessoas que pudessem contribuir com as questões listadas no roteiro, cujos nomes foram sendo acrescentados à seleção original. Baldin e Munhoz (2011) esclarecem que a amostragem em “bola de neve” (ou snowball) é empregada em pesquisas sociais e se vale de cadeias de referência (ou de redes), nas quais os entrevistados iniciais indicam novos participantes, que sugerem novos nomes e, assim, sucessivamente até que se atinja o “ponto de saturação”.
Feitos esses esclarecimentos, cabe informar que as entrevistas semiestruturadas foram realizadas nos meses de julho e agosto de 2018, nas dependências das unidades
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72 administrativas selecionadas, em Brasília/DF. Ao todo, foram ouvidos 23 (vinte e três) especialistas em compras governamentais, distribuídos entre os 3 (três) níveis de profissionais responsáveis por questões afetas às contrações federais. Essas entrevistas tiveram uma duração média de 48 (quarenta e oito) minutos, totalizando 18:40 horas de interlocução. Todas as falas foram gravadas e transcritas com a autorização dos entrevistados, bem como com a permissão institucional das respectivas unidades.
O roteiro das entrevistas iniciou-se com a identificação dos participantes, o que foi feito a partir dos seguintes elementos: nome, formação acadêmica, cargo ocupado, tempo de atuação no setor público e na área de compras. De um modo geral, os agentes entrevistados possuem formação em direito, administração, finanças e áreas de tecnologia. Os respondentes também contam com larga experiência na área de aquisições governamentais, tendo sido apurada uma média de aproximadamente 12 (doze) anos e 6 (seis) meses de atuação profissional.
Em seguida, as questões foram pautadas em 3 (três) blocos temáticos, formulados a partir das discussões tecidas ao longo do referencial teórico: a) política pública de contratações com MPEs; b) desempenho de compras governamentais; e c) dimensões e variáveis associadas à avaliação do construto. Os temas, as questões e os objetivos do roteiro das entrevistas estão organizados no Quadro 7.
Quadro 7. Temas abordados no roteiro das entrevistas semiestruturadas
Temas Questões Objetivos
Bloco I: Política pública de contratações com MPEs
Tem conhecimento da proposta e dos objetivos da política pública de contratações diferenciadas com MPEs em âmbito federal? Considera que esta política incentiva o desenvolvimento econômico e produtivo do segmento? Em que medida?
Considera que esta política pública gera efeitos práticos (ou interfere) no desempenho das próprias compras realizadas em seu contexto? Em que medida?
Há alguma diferenciação, em termos de economicidade, qualidade dos produtos e dos fornecedores e etc., entre as compras realizadas com e sem MPEs?
O direcionamento de compras para MPEs vale a pena para a Administração Pública?
Averiguar a familiaridade dos participantes em relação à política pública que contextualiza o estudo. Verificar a percepção dos entrevistados acerca dos impactos da política pública para o segmento de MPEs.
Levantar a percepção dos participantes quanto aos efeitos práticos da política pública no desempenho das próprias compras governamentais.
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73 Desempenho de
compras governamentais
Os órgãos federais avaliam o desempenho das compras públicas? Se sim, quais órgãos e como? Isso é benéfico?
Considera que a Administração federal está pensando na temática da medição do desempenho das compras realizadas com MPEs? Se sim, qual(is) critérios são utilizados para essa avaliação? Se não, qual(is) critérios deveriam ser utilizados? O que você considera uma compra pública bem sucedida (ou de alto desempenho)? Como seria realizada uma compra ideal? Os órgãos públicos aprendem com as próprias experiências de contratações anteriores? E com as de outros órgãos?
Nível C:
Em seu órgão, vocês avaliam o desempenho do desempenho das compras governamentais? Se sim, como? Se não, como isso poderia ser feito?
Tem conhecimento de outros órgãos que façam isso? Se sim, como?
Vocês avaliam o desempenho de suas aquisições com MPEs? Se sim, qual(is) critérios são utilizados? Se não, qual(is) critérios deveriam ser utilizados? Isso é benéfico?
O que você considera uma compra pública bem sucedida (ou de alto desempenho)? Como seria realizada uma compra ideal? Seu órgão aprende com as próprias experiências de contratações anteriores? E com as de outros órgãos?
atualmente, é conferido ao desempenho de compras governamentais pela Administração federal.
Verificar a existência de procedimentos formais de avaliação do desempenho das compras realizadas com MPEs. Investigar os critérios que eventualmente têm sido empregados para a medição de desempenho proposta ou, em caso de inexistência, apurar quais critérios seriam viáveis para tanto, diante da realidade empírica das contratações.
Levantar os parâmetros que são julgados primordiais pelos entrevistados para a mensuração do desempenho das compras públicas com MPEs.
Avaliar a percepção dos entrevistados quanto a uma possível conexão entre avaliação de desempenho e aprendizagem organizacional. Bloco 3: Dimensões e variáveis associadas à avaliação do construto
Para cada uma das 9 (nove) dimensões colacionadas na teoria (eficiência, economia, economicidade e best value, eficácia, efetividade, impacto do uso do poder de compra governamental, satisfação do usuário final, conformidade dos processos administrativos, gestão logística das contratações públicas e interesses dos
stakeholders), foram realizadas as seguintes
indagações: Níveis A e B:
A Administração federal avalia a [dimensão] das compras realizadas com MPEs? Se sim, qual(is) variável(is) são utilizada(s)? Se não, como seria avaliada essa dimensão?
Nível C:
Vocês avaliam a [dimensão] das compras realizadas com MPEs por seu órgão? Se sim,
Averiguar o reconhecimento e a aderência empírica das dimensões e das variáveis teóricas associadas à
performance das compras
governamentais com MPEs.
Coletar possíveis dimensões e variáveis emergentes do campo para a avaliação do construto em tela
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qual(is) variável(is)são utilizada(s)? Se não, como seria avaliada essa dimensão?
Fonte: Elaborado pela autora a partir do roteiro das entrevistas.
Como destacado, nos 2 (dois) últimos blocos temáticos, as questões foram adaptadas ao nível de atuação profissional dos entrevistados, tendo em vista que, para os níveis estratégico e tático (A e B), seria possível realizar indagações de cunho mais genérico (isto é, não restritas às atividades de compras do órgão), com vistas à verificação do tema no âmbito da Administração Pública federal. Assim, ao final desta dissertação, constam 2 (dois) apêndices, sendo o Apêndice A relativo ao roteiro das entrevistas com profissionais dos dois primeiros níveis e o Apêndice B contemplando as questões direcionadas ao nível operacional.