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3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.6. Procedimentos de coleta dos dados

O guia de entrevistas contemplou vários constructos teóricos (categorias), assim como fizeram Eisenhardt & Bourgeois (1988). Os dados da pesquisa foram coletados em fontes primárias e secundárias. Primeiramente foi realizada uma análise documental da política em implementação para compreensão do grau de discricionariedade da política e previsão da existência ou não de modelos de gestão que envolvessem controles administrativos formais aplicados aos implementadores. Discricionariedade e controle também fazem parte do conjunto de fatores analisados, posteriormente, na etapa da pesquisa de campo. As fontes desta análise documental foram a lei de criação da política, suas normas e instruções de implementação, bem como as publicações oficiais e estudos científicos sobre a implementação. Os dados oficiais foram acessados em bases de dados do governo e suas agências, e os dados de estudos científicos foram obtidos em bases de dados indexadas desde a criação da política, ou seja, nos últimos 12 anos.

A pesquisa de campo foi realizada por meio de entrevistas aplicadas aos implementadores, precisamente dos assistentes sociais e psicólogos que são profissionais que atuam diretamente com a população-alvo do PAIF. As entrevistas foram gravadas para posterior transcrição na fase de organização e análise dos dados. De acordo com Flick (2009), no caso de dados de entrevista, é necessária a gravação das manifestações orais para posterior transcrição.

Como instrumento de coleta de dados dessa etapa, foi utilizado um protocolo de pesquisa, instrumento essencial para quem está realizando um estudo de casos múltiplos (Yin, 2010). Para Yin (2010), o protocolo é a maneira mais importante de aumentar a confiabilidade da pesquisa de estudo de caso e tem a finalidade de orientar o pesquisador na realização da coleta de dados.

Yin (2010) sugere que esse protocolo tenha as seguintes seções:

 uma visão geral do projeto de estudo de caso (objetivos e patrocínios do projeto, assuntos do estudo de caso e leituras relevantes sobre o tópico sendo investigado);

 procedimentos de campo (apresentação de credenciais, acesso aos locais do estudo de caso, formas de proteção dos participantes, fontes de dados e advertências de procedimentos);

investigador deve ter em mente na coleta de dados, estrutura das tabelas para série específica de dados e potenciais fontes de informação para responder a cada questão) e;

 um guia para o relatório de estudo de caso (esboço, formato para os dados, uso e apresentação de outra documentação e informação bibliográfica) (pp. 106–107).

O protocolo utilizado na pesquisa consta como Apêndice 1 desta tese.

3.6. 1. Instrumentos de coleta de dados

Para Yin (2010), as fontes de evidências do estudo de caso podem ser de seis tipos: documentos, registros em arquivos, entrevistas, observação direta, observação participante e artefatos físicos. Para Godoi (2010), é possível reunir as fontes citadas por Yin (2010) em três grupos principais: observação, entrevistas e documentos. Tomando como base a afirmação da autora, para a coleta de dados da presente proposta de pesquisa foram utilizadas duas dessas três fontes de evidências de pesquisa: a fonte documental e a entrevista. Yin (2010) recomenda que os estudos de casos não se restrinjam a uma única fonte de evidência e observa que a maioria dos melhores estudos de caso conta com mais de uma fonte. Nesta pesquisa fez-se a opção por mais de uma fonte de dados.

Mesmo que não seja sempre precisa e possa apresentar parcialidades, a informação de fonte documental é útil, sendo que, de acordo com Yin (2010, p. 128) nos “estudos de caso, o uso mais importante dos documentos é para corroborar e aumentar a evidência de outras fontes”. O autor enumera muitas vantagens da fonte documental: é estável e pode ser revista repetidamente; é exata: contém nomes, referências e detalhes de um evento; ampla cobertura, pois pode cobrir longo período de tempo, muitos eventos e muitos ambientes. Yin (2010) ainda destaca que dado o valor global que os documentos representam, esta fonte tem um papel explícito em qualquer coleta de dados para os estudos de caso.

Nesta pesquisa a análise documental foi fundamental para a compreensão do marco normativo da política de interesse, sendo este marco composto de muitos documentos, tais como os textos das leis e suas regulamentações, as normas e regras que orientam a implementação e os registros e instruções que o próprio Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e os respectivos municípios

dispõem para orientar a gestão da política. Todos os documentos foram analisados antes e depois de iniciar a pesquisa de campo, pelo fato de que essa análise também serve para informar e orientar as demais etapas do estudo. Na etapa de análise dos resultados da pesquisa foram feitas novas leituras dos documentos para se compreender como as normas influenciam o comportamento de decisão e ação do implementador do nível de rua, confrontando a norma formal com o comportamento reportado.

Outra fonte de dados que Yin (2010, p. 135) considera fundamental para os estudos de caso é a entrevista. Esta técnica é constituída por conversas guiadas ou seja, por um conjunto de questões que deve ser fluído. Para o autor, no geral, as entrevistas constituem-se em fontes essenciais de evidências do estudo de caso “porque a maioria delas é sobre assuntos humanos ou eventos comportamentais” e, neste caso, os entrevistados, se são bem informados, podem fornecer insights importantes sobre os assuntos ou eventos de interesse (Yin, 2010, p.135). Entre os tipos de entrevistas, Yin (2010) aponta a entrevista focada, em que uma pessoa é entrevistada durante um determinado período de tempo, respondendo a um conjunto de questões derivadas do protocolo de pesquisa.

Godoi (2010) chama de entrevista semiestruturada o instrumento que permite ao pesquisador compreender os significados que os entrevistados atribuem às questões e situações relativas ao tema de interesse. Para a pesquisadora, as entrevistas semiestruturadas são adequadas quando o pesquisador deseja desenvolver uma compreensão do mundo do entrevistado e as elaborações que este usa para fundamentar suas opiniões e crenças. Godoi (2010) também afirma que a entrevista semiestruturada é adequada quando o assunto pesquisado é complexo, pouco explorado ou confidencial e delicado. Entende-se que este quadro reflita a realidade do fenômeno da burocracia do nível de rua. Assim, uma das formas de levantamento de dados para o presente estudo foi a entrevista semiestruturada que foi aplicada aos profissionais que trabalham nos CRASs implementando o PAIF, pois esses profissionais são atores centrais do processo de implementação do programa e forneceram dados e informações fundamentais para se compreender o que afeta seu comportamento de decisão e ação na execução do programa.

Para o levantamento dos dados da pesquisa, foi elaborado um instrumento (roteiro) com base na teoria e no modelo conceitual (ver Apêndice 1.) Esse roteiro ou guia de pesquisa incluiu os tópicos relacionados aos fatores potenciais que influenciam

o comportamento do implementador no processo de implementação, de acordo a teoria. As questões se referiram à discricionariedade dos implementadores; às leis e normas da política; ao processo de accountability na implementação da política; ao modelo de gestão da política e da organização que oferta a política; ao autointeresse dos implementadores; e à relação dos implementadores com os beneficiários da política. O roteiro continha 20 perguntas, sendo que algumas delas foram subdivididas para facilitar a compreensão do entrevistado. A última questão foi livre para o entrevistado acrescentar ou rever algumas de suas respostas ao longo da entrevista. O tempo de duração de cada entrevista foi entre 50 minutos e uma hora, mas algumas entrevistas duraram mais do que uma hora.

As entrevistas foram agendadas de acordo com a realidade de organização e gestão da política em cada município, como foi relatado na seção que tratou da seleção dos casos.

No início do trabalho de campo para aplicação das entrevistas, intencionava-se fazer um pré-teste do roteiro, mas logo nas primeiras entrevistas observou-se que o roteiro não necessitava de ajustes em termos de conteúdo ou forma de elaboração das questões, assim todas as entrevistas realizadas foram utilizadas na análise dos resultados.