• Nenhum resultado encontrado

2. DA TERAPÊUTICA À PRÁTICA DA EQUIPE NO USO ABUSIVO DE DROGAS

3.3 Procedimentos de coleta e análise dos dados

3.3.1 Coleta de dados

A coleta de dados foi precedida pela aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco (ANEXO A), e concessão da autorização, pela Prefeitura da Cidade do Recife (ANEXO B), para realização da pesquisa no Capsad escolhido. Com a permissão concedida, entramos em contato com o Serviço.

O contato inicial com o local de pesquisa ocorreu de forma amistosa. Apresentei-me ao Capsad e conheci a coordenação clínica, falei um pouco sobre a pesquisa e ficou acertado a apresentação do projeto de pesquisa para a equipe, na reunião técnica. Procurei deixar claro que o meu interesse não era atribuir juízo de valor, mas fundamentalmente refletir sobre os desafios com que os profissionais se deparam, como lidam com as situações e como consideram o trabalho em equipe na perspectiva da atenção psicossocial.

Na reunião, após a coordenadora realizar os informes, fui apresentada aos profissionais e esclareci os procedimentos (entrevistas individuais e observação participante) e o tema da pesquisa. Explanei de forma sucinta sobre o projeto enfocando o interesse em pesquisar a relação entre serviços e práticas no Capsad, numa visão analítica de compreensão da dinâmica da equipe. Após essa apresentação, comecei a frequentar o Serviço e foi iniciada a coleta de dados.

Nesse momento foi utilizada a observação participante21, forma de coleta de dados sistemática que corresponde a um período de interação social entre o pesquisador e os informantes, com o objetivo de registrar informações de forma direta e sistemática e perceber

21

a dinâmica do campo e objeto de estudos no cotidiano. Além desta observação participante realizamos consulta nos documentos disponibilizados no Capsad, como o livro de ocorrências e prontuários; e também tivemos participação periódica nas reuniões técnicas da equipe.

As observações nas reuniões técnicas foram transcritas num diário de campo também chamado notas de campo, caracterizado como um registro exaustivo e detalhado do campo, após um período de observação. Nessa pesquisa foram contemplados os principais assuntos das reuniões, tais como: forma de funcionamento da equipe e posturas dos profissionais frente às questões surgidas durante os encontros, bem como a discussão dos casos trazidos para a equipe.

O tempo de permanência na instituição foi em torno de quatro meses, durante o qual foi possível participar de 12 reuniões, atingindo o nível de saturação quando os conteúdos começam a se repetir, sem acrescentar informações novas para os interesses da pesquisa. No primeiro mês foi observado o funcionamento do serviço em geral, rotina e procedimentos da equipe.

Nos meses subsequentes os profissionais de nível superior foram convidados a agendar as entrevistas, do tipo semi-estruturadas. O roteiro da entrevista (Apêndice A) foi esquematizado em dez perguntas sobre: ingresso no Serviço, prática profissional, atuação da equipe técnica, gestão e política no Serviço.

A maioria das entrevistas foram realizadas no Capsad e gravadas em MP3, para posterior transcrição e análise. Elas foram realizadas mediante o conhecimento e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice B), pelos participantes, assegurando o sigilo e a preservação de sua identidade. Ao todo, foram realizadas 12 entrevistas individuais, com duração média de 30 minutos cada uma.

Da equipe de nível superior, integrada por 14 profissionais, 12 participaram. Os participantes foram: dois psicólogos, três assistentes sociais, dois médicos clínicos, dois médicos psiquiatras, um enfermeiro, um gerente clínico (terapeuta ocupacional) e um gerente operacional (psicólogo).

O projeto de realizar um grupo focal, como planejado na metodologia inicial22 não foi concretizado. O propósito do grupo focal era trazer os temas tratados nas entrevistas e buscar novas informações. No entanto, essa ideia não foi “bem” recepcionada, sendo expressa na dificuldade de horário dos técnicos e no sentimento de um momento indesejável pelos profissionais. Sendo assim, o grupo focal foi transformado num grupo de reflexão sobre o próprio processo de pesquisa, no qual foi questionado, aos participantes, como ocorreu essa experiência. Este grupo de reflexão foi concretizado num momento anterior à última reunião técnica considerada no calendário de pesquisa.

No grupo de reflexão conversei com a equipe, retomei o propósito e objetivos da pesquisa, e depois passei a palavra ao grupo para que as pessoas pudessem se pronunciar com relação à minha presença, durante quatro meses, no Serviço, e o processo de pesquisa. O feedback foi superficial, os participantes expressaram que foi tranquilo, não se sentiram invadidos e nem todos falaram. Apesar disso, no período de imersão no campo pude perceber que a minha presença representou uma ameaça para o grupo, que em algumas ocasiões demonstrou constrangimento. Esse momento de grupo foi pensado como finalizador da etapa de coleta de dados e afastamento do campo de estudos, para posterior análise dos dados. Dissertei um pouco sobre as minhas expectativas sobre a pesquisa, de contribuir na reflexão sobre o cotidiano profissional no trabalho em equipe dos técnicos no CAPSad.

Durante esse período, apesar de procurar uma “neutralidade” no processo de pesquisa, em muitas situações percebi uma resistência da equipe e respeitei esses sinais, muitas vezes expresso no silêncio dos técnicos. Dessa forma, adotei uma postura de compreensão diante do contexto vivenciado pela equipe, durante o processo de pesquisa que, em si, é um pouco invasivo.

3.3.2 Tratamento e análise dos dados

O tratamento dos dados foi realizado de forma sistemática, a partir da transcrição e leitura ampla das entrevistas; no qual considerando o referencial teórico escolhido, foram

22 Foi pensado, na metodologia do projeto de pesquisa qualificado, em janeiro de 2008, a realização de dois

organizados os conteúdos relevantes encontrados nas entrevistas. Posteriormente, esse material foi reorganizado a partir de temas gerais como anteriormente exposto, conforme Pagès et al. (1987), e subtemas que comportassem os assuntos referidos pelos profissionais. A categorização foi feita a partir da segmentação das entrevistas. Cada fala destacada foi identificada, no final, pelo número da entrevista e página em que se encontrava. O instrumento utilizado para a segmentação das entrevistas foi o Programa Word de edição de textos da Microsoft, a partir de recursos de formatação e classificação de textos proposto por Matos (1999, apud Galindo, 2003).

Essa etapa consistiu na categorização recorrente das entrevistas, realizada num movimento de junção de todo o material e reagrupamento, até a definição dos temas significativos para a análise.

A análise de conteúdo teve como base os preceitos de Bardin (1991) com o objetivo de compreender criticamente o sentido das comunicações, seu conteúdo manifesto ou latente e as significações explícitas ou ocultas, e os preceitos de Pàges et al. (1987), de análise do discurso. A primeira técnica permite a redução do volume amplo de informações em características ou categorias e a produção de informação considerando-se a influência do contexto na comunicação (CHIZZOTTI, 1998). Já a segunda permite a compreensão das unidades de discurso e articulação pertinentes aos temas já delimitados.

A categorização final da pesquisa foi realizada a partir de uma categorização inicial que abordava os temas:

- O modelo de atenção e a organização do trabalho que agrupava os conteúdos referentes à objetividade do trabalho em equipe; ele foi subdividido em dois eixos temáticos ou sub-rubricas׃ terapêutica e gestão;

- A prática profissional multidisciplinar/interdisciplinar - Tratava das realizações cotidianas do trabalho e incluía sub-rubricas com conteúdos sobre a história da equipe e os referenciais de trabalho, quais sejam o poder e os mecanismos de identificação profissional;

- As relações entre os profissionais – Enfocava os sentimentos e desejos desenvolvidos pelo grupo em relação à sua própria constituição como equipe.

Esses temas foram reformulados, no intuito de agrupar e relacionar os conteúdos, reorganizados em dois eixos principais:

- A constituição da equipe (quem é a equipe) – Trata das características da equipe, sua história e os referenciais de trabalho, além de enfocar os sentimentos e desejos desenvolvidos pelo grupo em relação à sua própria constituição como equipe.

- A organização do trabalho (o que a equipe faz) - Trata das realizações cotidianas do trabalho e inclui sub-rubricas com conteúdos sobre o trabalho psicossocial em equipe.

No processo de análise tentou-se articular os temas de forma a encadear uma sequência de apreensão dos assuntos relevantes expressos nas entrevistas, como referem Pàges et al. (1987) a partir do discurso:

1. Identificar elementos do campo objetivo (política e práticas);

2. Identificar elementos do campo psicológico dos indivíduos (sentimentos e emoções); 3. Pesquisar as relações entre um e outro subconjunto.

Dessa forma, os assuntos se entrecruzam nessa elaboração, sendo separados para facilitar a compreensão.

4. EM FOCO: UM CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL EM ÁLCOOL E