De forma espontânea e não planejada esta pesquisa teve seu marco em uma ação extensionista como expus na introdução. Enquanto integrante da equipe responsável pela construção coletiva de Oficinas de Gestão por e para os Pontos de Cultura de Pernambuco11, nas quais atuei como uma das facilitadoras, tive a oportunidade de me aproximar da realidade de organizações substantivas tais como os coletivos da cultura popular. Minha entrada no campo empírico, a partir de março de 2007, deu-se, portanto, sem o estabelecimento prévio de questões, nem a sistematização a priori de referencial teórico e de instrumentação metodológica. Nas discussões coletivas e conversas informais emergiu o problema da resistência ao modelo empresa pelos sujeitos da cultura popular e necessidade de sua apropriação para a organização de seus coletivos, o que despertou meu interesse de estudo.
Uma oficina, por sua natureza, é um espaço de construção de conhecimento. Inspiradas na pedagogia freiriana, o objetivo das oficinas de gestão promovidas pelo Pontão UFPE era dialogar sobre conhecimentos e formas de organizar e de gerir as organizações. Enquanto facilitadoras, apresentamos as práticas empresariais previamente escolhidas pelos representantes dos Pontos de Cultura para serem discutidas, debatidas, confrontadas, sem a intenção de transferi-las e muito menos impô-las.
Nessa fase exploratória da pesquisa, que perdurou de março a julho de 2007, utilizei basicamente três procedimentos metodológicos: pesquisa bibliográfica, pesquisa documental e observação. Fiz pesquisa bibliográfica em livros, periódicos e sites para confeccionar uma apostila e selecionar o conteúdo a ser discutido nas oficinas de gestão para os Pontos de Cultura. Constatei, nesse momento, a escassez de literatura sobre gestão de coletivos da cultura popular e identifiquei as principais práticas do management disseminadas pela produção bibliográfica. Realizei também pesquisa documental na plataforma digital denominada Conversê desenvolvida pelo MinC para proporcionar a troca de experiências entre os Pontos de Cultura de todo o Brasil e na base de dados MAPSYS, também criada pelo
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Todas as oficinas foram registradas em áudio e vídeo. Juntamente com as outras integrantes da equipe, relatamos a experiência dos representantes dos Pontos de Cultura de Pernambuco nos relatórios de atividades do Pontão.
MinC, onde constam os projetos submetidos por organizações conveniadas como Pontos de Cultura. A análise documental serviu para conhecer um pouco do trabalho dos coletivos de cultura popular e identificar suas principais dificuldades na área de gestão.
No tocante à observação, cabe esclarecer que trata-se de uma das mais antigas e básicas formas de pesquisa caracterizada pela imersão do pesquisador no campo e testemunho ativo da interação entre atores no contexto natural de ocorrência do fenômeno estudado, podendo variar consideravelmente entre os pesquisadores, em relação ao estágio da pesquisa, ao cenário em que está ocorrendo e ao relacionamento entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa (ADLER; ADLER, 1994, p. 377). Existe uma variedade de posicionamentos que o investigador pode assumir, desde ser um membro do grupo e um participante completo – um
insider – até um observador completo, desconhecido por quem está sendo observado podendo
variar no trajeto da pesquisa (MERRIAM, 1998, p. 100). Utilizei dois tipos de observação: a) observação participante - ramo mais amplamente reconhecido da observação (ADLER; ADLER, 1994, p. 378) – ocorre quando o grupo sabe que está sendo observado e o pesquisador participa de alguma forma das atividades no grupo, estabelecendo parceria colaborativa com os sujeitos da pesquisa (MERRIAM, 1998, p. 101); b) observação não participante, quando as pessoas não sabem que estão sendo observadas e o pesquisador observa passivamente sem se envolver em nenhuma atividade no grupo.
Muitos autores apresentam uma lista de coisas a ser observada que inclui o cenário físico, os participantes, as atividades e interações, conversações, fatores sutis (atividades informais e não planejadas, comunicação não verbal, significados simbólicos e conotativos, coisas planejadas ou esperadas que não aconteceram) e o próprio comportamento do pesquisador (MERRIAM, 1998, p. 97-98). Porém, não existem prescrições universais sobre a mecânica e os procedimentos de tomar notas, de forma que o trabalho de campo torna-se muito mais uma questão de estilo e hábito pessoal (PATTON, 2002, p. 302).
Nas oficinas, realizei observação de tipo participante. Como a questão de pesquisa ainda não tinha sido construída, não utilizei fichas estruturadas de protocolo e esquemas de interpretação observacional (FLICK, 2004, p. 153). Minha perspectiva observacional foi limitada tendo em vista que eu estava apresentando conteúdo a ser debatido e mediando as discussões e não podia anotar os aspectos da situação observada ao mesmo tempo. O observador participante não tem outra opção senão anotar as ocorrências que testemunha de modo essencialmente, exemplificativo, recaptulativo e reconstrutivo (BERGMAN, 1985, p. 308 apud FLICK, 2004, p. 153) e a descrição do que foi observado deve ser feita o mais
imediato possível para que detalhes ou elementos particulares não sejam esquecidos depois (PATTON, 2002, p. 302).
Assim, após cada oficina eu anotava em um bloco de notas o que mais me chamava atenção sobre peculiaridades da gestão dos coletivos de cultura popular, procurando descrever o mais próximo possível o que as pessoas disseram e em que contexto foi dito, além de registrar minhas reflexões e comentários (MERRIAM, 1998, p. 106; PATTON, 2002, p. 303). O valor de observações menos estruturadas, como essas, está na oportunidade de ver o que existe sem as viseiras das hipóteses e outras preconcepções (PATTON, 2002, p. 278).
Também realizei observação não participante em eventos que reuniram Pontos de Cultura (abaixo relacionados) nos quais participei como ouvinte e fiz anotações sobre o contexto sociopolítico em que os coletivos estão inseridos e buscando identificar os meios difusores de práticas do management:
- I Encontro dos Pontos de Cultura de Pernambuco realizado pelo Minc nos dias 01 e 02 de junho de 2007,
- I Encontro Sub-regional Nordeste dos Pontos de Cultura realizado pelo Minc nos dias 29 e 30 de junho de 2007,
- Seminário Internacional em Economia da Cultura realizado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) de 16 a 20 de julho de 2007.
Após minha inserção no campo, retirei-me dele durante o ano de 2008 para concluir os créditos do doutorado e me dedicar à elaboração do projeto de tese que foi apresentado e discutido na disciplina Seminário de Tese. A partir da experiência adquirida na inserção no campo, aprofundei a pesquisa bibliográfica, desta vez focando especificamente a construção do quadro de referência teórico-empirico para a tese. Fiz um levantamento na literatura especializada, englobando os principais periódicos da administração em nível internacional12 e nacional13, além dos anais da Critical Management Studies Conference e dos principais
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Administration & Society; International Journal of Cross Cultural Management; International Review of Administrative Sciences; Journal of Knowledge Management; Organization; Organization & Environment; Organization Studies; Rationality and Society; Management Learning; Theory, Culture & Society; Ephemera; Voluntas; Business & Society; Business Communication Quarterly; Conflict Management and Peace Science; Educational Management Administration & Leadership; Family Business Review; Global Business Review; Group & Organization Management; International Small Business Journal; Journal of Business; Journal of Futures Studies, Strategic Thinking and Policy; Journal of Leadership & Organizational Studies; Journal of Management; Journal of Management Inquiry; Journal of Management Development; Journal of Managerial Psychology; Management & Organizational History; Management Communication Quarterly; Small Group Research.
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Revista de Administração de Empresas - RAE; Revista de Administração de Empresa Eletrônica - RAE Eletrônica; Cadernos Ebape.br ; Revista Organizações & Sociedade; Revista de Administração Contemporânea - RAC; Revista de Administração Contemporânea Eletrônica - RAC Eletrônica; Brazilian Administration Review - BAR; Revista de Administração da Universidade de São Paulo – RAUSP.
eventos nacionais na área de administração e cultura14, bem como no banco de teses e dissertações da CAPES. As buscas permitiram constatar que estudos específicos sobre apropriação do management em organizações da cultura popular são incipientes ou inexistentes15. Por isso, recorri às ciências sociais e humanas em geral para elaborar o quadro conceitual que sustenta o argumento aqui defendido.
O levantamento foi sistematizado da seguinte maneira: primeiramente foram feitas buscas por palavras chaves relacionadas ao tema (cultura popular, resistência, tradução e apropriação); em seguida, visando ao refinamento da pesquisa, foram lidos os títulos e resumos dos poucos trabalhos encontrados para que fosse verificada a pertinência entre a temática abordada nesses trabalhos com a temática abordada no presente estudo; feita essa filtragem, foram lidos e fichados apenas os trabalhos diretamente relacionados com os propósitos deste estudo, os demais foram descartados.
Em 2009 retornei ao campo empírico. Coletei dados por meio de observação participante como aluna do curso de “Formação em gestão cultural para Pontos de Cultura” promovido pelo Pontão Comuna S.A.16 de Belo Horizonte que ocorreu em dois módulos: um presencial em Recife no período de 25 a 27 de março de 2009 e outro à distância no período de 30 de março a 02 de junho de 2009. No módulo presencial, fiz anotações em meu bloco de notas e no módulo à distância salvei as discussões com professores e colegas ocorridas em ambiente virtual em um editor de texto. O objetivo de minha participação nesses cursos foi identificar quais práticas do management estavam sendo transpostas para os coletivos.
Ainda através da observação participante, participei da Teia PE, evento promovido pelo MinC e pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) no período de 25 a 28 de fevereiro de 2010 em Gravatá-PE. Nesse encontro, junto com colegas do grupo de pesquisa Observatório da Realidade Organizacional, entrevistamos 21 Pontos de Cultura para fazer análise da influência do Programa Cultura Viva nas organizações conveniadas e elaborar relatório final da atividade de extensão a qual me referi na introdução.
14
Encontro Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração – EnANPAD; Encontro Nacional de Estudos Organizacionais – ENEO; Colóquio Internacional sobre Poder Local; Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura – ENECULT.
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No levantamento da literatura sobre administração em nível internacional, as buscas retornaram alguns textos com o termo “cultura popular”, porém seus autores empregam-no para referir-se à cultura de massa, ao entendimento que a massa tem sobre o managementI, ilustrado por exemplo pelos personagens Dilbert e pelos Simpsons (RHODES; WEATWOOD, 2008, p. 8). Diferentemente, emprego o termo neste estudo referindo-me a manifestações culturais transmitidas oralmente de geração à geração nem abordam a questão de classe social. 16
A Comunidade Santo Antônio - COMUNA S.A. - é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, sediada em Belo Horizonte e atua, desde 1991, em projetos culturais e educacionais. Em 2008, a COMUNA SA tornou-se Pontão de Cultura por meio de convênio com o MinC para realização do Programa de Formação em Gestão Cultura dos Pontos de Cultura.
Aproveitei a oportunidade para aprofundar meu conhecimento sobre coletivos da cultura popular, foi quando ficou mais evidente para mim que a resistência à empresarização mostra- se mais forte em organizações de matriz africana. A partir de então, passei a estudar manifestações da cultura afro-brasileira por meio de pesquisa bibliográfica, sobretudo, os terreiros de candomblé e grupos de afoxé.
Continuei fazendo cursos sobre gestão e produção cultural que foram surgindo ao longo da pesquisa. De modo análogo ao que fiz anteriormente, registrei, por meio da observação participante, anotações no bloco de notas a partir de minha experiência como aluna nos cursos abaixo listados:
- Curso à distância de nivelamento para oficinas presenciais do Programa de Capacitação em Projetos Culturais ministrado pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (Ebape/FGV) ocorrido de 01 a 13 de maio de 2010;
- Oficina de Projetos Culturais (presencial) promovida no âmbito do programa supracitado em Garanhuns-PE de 26 a 28 de maio de 2010;
- Oficina de Elaboração de Projetos Culturais promovida pela Faculdade de Administração da Universidade de Pernambuco (FCAP/UPE) ministrada por técnicos da Fundarpe no dia 11 de novembro de 2010.
- Curso no âmbito do “Projeto cultural de formação: produtores de arte e cultura e gestores públicos municipais da área de cultura” realizado pela Fundarpe em 06 de dezembro de 2010.
Participei também de dois encontros promovidos pelo Sebrae na esfera do “Programa Negócio a Negócio - edição especial para artistas e produtores culturais”. O primeiro encontro aconteceu em 10 de setembro de 2010 para fazer um diagnóstico das principais dificuldades administrativas sentidas pelas organizações culturais. O segundo encontro ocorreu em 14 de dezembro deste ano visando socializar os resultados da pesquisa e discutir propostas de cursos a ser ofertados para esse público.
Embora os observadores devam prestar atenção nas formas não verbais de comunicação e relatar seus próprios sentimentos e reflexões (PATTON, 2002, p. 290), vale salientar que o uso que fiz da observação participante e não participante até esta fase da pesquisa me serviu muito mais como instrumento de coleta de dados em termos de conteúdo para construir a problemática e identificar direção da pesquisa do que para analisar gestos e reações das pessoas com as quais interagi no campo, e muito menos para me auto-analisar no contexto da investigação. Não que isso não seja importante, apenas não foi o foco nessa etapa mais preliminar e de consolidação da pesquisa.
No decorrer do trabalho de campo, idéias sobre direções para análise surgiram, padrões tomaram forma, temas saltaram à mente e hipóteses emergiram indutivamente por meio de abstrações, categorias e conceitos guiando o trabalho de campo subseqüente. O registro e acompanhamento de insights analíticos que ocorreram durante a coleta de dados constituíram o início da análise qualitativa (PATTON, 2002, p. 436; MERRIAM, 1998, p. 7).
A análise do material colhido até então foi feita à luz da hermenêutica. Derivada do grego hermeneuein que significa traduzir, interpretar, tornar inteligível, a hermenêutica surgiu no âmbito da interpretação de textos sagrados, desenvolveu-se com diferentes objetivos em campos diversos tais como história, direito e literatura, sofrendo variações a partir das contribuições teóricas de diversos pensadores tais como Schleiermacher (1768-1834), Dilthey (1833-1911), Heidegger (1889-1976), Gadamer (1900-2002), Habermas (1929-) e Ricoeur (1913-2005) (PRASAD, 2002).
Contemporâneamente, a hermenêutica não é vista como um método com regras e técnicas de interpretação textual estritamente definidas, mas como uma epistemologia e filosofia da ampla compreensão. O escopo e significado do termo «texto» foram expandidos para incluir práticas organizacionais, instituições, estruturas econômicas e sociais, cultura, artefatos culturais, etc. Esses elementos são considerados textos não no sentido físico, mas em um sentido metafórico, pois podem ser "lidos", compreendidos e interpretados de maneira semelhante como ocorre com a leitura, compreensão e interpretação de textos escritos (PRASAD, 2002, p. 23).
Explicar e compreender são vistos como dois passos do processo complexo da interpretação (MISOCZKY; IMASATO, 2005, p. 81). De modo geral, a hermenêutica enfatiza a importância do contexto e das inter-relações dinâmicas entre todo-parte (PATTON, 2002, p. 496). Metodologicamente, a abordagem hermenêutica requer dos pesquisadores organizacionais prestar grande atenção ao contexto e à história do fenômeno estudado, bem como ser capaz de auto-reflexão e autocrítica (PRASAD, 2002, p. 29).
O pesquisador está imerso e faz parte do cenário de estudo e seu entendimento subjetivo é considerado uma fonte confiável de conhecimento. Idealmente, realizar o processo hermenêutico com seriedade exige do pesquisador uma habilidade, na situação de pesquisa, de identificar em si mesmo, momentaneamente, julgamentos pessoais e influências culturais, o que requer um elevado grau de auto-conhecimento. O pesquisador deve tratar o mundo exterior a ele que está investigando como se fosse um estranho, pois é através da consciência de si (como pesquisador) que toma consciência dos outros (MCAULEY, 1985, p. 294).
A compreensão, atividade tão cara à hermenêutica, não é uma tarefa controlada por procedimentos ou regras, mas, uma condição do ser humano. “A compreensão é interpretação” e é no ato de interpretar que o significado é negociado (SCHWANDT, 2006, p. 198). O significado é, portanto, embebido na experiência das pessoas e mediado pela própria percepção do investigador (MERRIAM, 1998, p. 6).
Logo, chegar a uma compreensão não é uma questão de deixar de lado, de escapar, de controlar ou de rastrear o ponto de vista, os prejulgamentos, as visões tendenciosas ou os preconceitos próprios do indivíduo. Pelo contrário, a compreensão requer o engajamento das tendenciosidades do indivíduo (SCHWANDT, 2006, p. 199).
Utilizar a abordagem hermenêutica implica estar ciente de que se está construindo uma realidade por intermédio da interpretação de fatos e dados obtidos a partir de outros indivíduos. Isso significa que se o estudo for feito por outros pesquisadores que tenham bagagens diferentes de conhecimentos, empreguem diferentes métodos ou tenham objetivos diferentes, análises e narrativas diferentes podem ser construídas.
O sentido do texto não é um absoluto que se auto-revela a quem, com rigor metódico, a ele se dirige. É claro que o intérprete interroga desde sua circunstância e consciência histórica; e o texto, por sua vez, só é compreendido em um sentido quando atinge o horizonte da pergunta que, como tal, contém, necessariamente, outras respostas (MISOCZKY; IMASATO, 2005, p. 81).
Desde a década de 1980, pesquisadores organizacionais têm adotado legitimamente a hermenêutica como uma abordagem de pesquisa não apenas para interpretar documentos, mas também para investigar práticas organizacionais e o fenômeno organizacional por inteiro, tanto em nível micro como macro (PRASAD, 2002, p. 29).
Utilizei a a hermenêutica como caminho para a compreensão e para a narrativa (MISOCZKY; IMASATO, 2005, p. 81). Minha análise foi além da sintaxe ou semântica (conteúdo), buscando também compreender a pragmática dos textos (contexto).
Nesse processo, identifiquei o marketing, a gestão de projeto e o planejamento estratégico como as principais práticas do management mais usualmente transpostas para o universo dos coletivos de cultura popular. Passei a considerá-las como categorias analíticas a serem estudadas em profundidade e para isso selecionei um dentre os coletivos que demonstraram sinais de resistência à organização nos moldes da empresa durante minha vivência no campo empírico. Assim sendo, fiz contato com o presidente da Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó, Fabiano Silva, em 16 de dezembro de 2010. Fui pessoalmente, sem agendamento prévio, conversar com ele, explicar minha pesquisa e solicitar a permissão para realizá-la. Fui muito bem recebida, já nos conhecíamos de vista nos
eventos relacionados aos Pontos de Cultura em que participamos. Obtive permissão e total abertura para acompanhar suas atividades, configurando assim um estudo de caso de orientação qualitativa (STAKE, 2005; MERRIAM, 2009).
Estudos de caso qualitativos são caracterizados pela busca por significados e compreensão, relacionando-os a contextos e experiências; pela utilização de estratégia indutiva; pelo fato de o pesquisador ser instrumento primário da coleta e análise de dados e do resultado final ser ricamente descritivo (STAKE, 2005, p. 449; MERRIAM, 2009, p. 39).
Para esclarecer as confusões conceituais ao redor das definições de estudo de caso, cabe frisar que na literatura especializada o termo é empregado tanto para referir-se ao processo de conduzir a pesquisa, à unidade de análise como ao seu produto (PATTON, 2002, p. 447; MERRIAM, 2009, p. 40). O estudo de caso é tanto um processo de investigação sobre um caso como o produto dessa investigação que geralmente é uma narrativa ricamente descritiva (MERRIAM, 1998, p. 8; PATTON, 2002, p. 447; STAKE, 2004, p. 444). Porém, a delimitação do objeto de estudo, ou seja, da unidade de análise é a característica mais determinante do estudo de caso (MERRIAM, 2009, p. 41). Neste trabalho, segui o raciocínio de Stake (2005, p. 443) para quem o estudo de caso consiste na escolha do que é para ser estudado e não em uma escolha metodológica, pois seja por qual for o método, escolhemos estudar o caso.
O desenho de estudo de caso é empregado para obter uma compreensão em profundidade de uma situação e do seu significado para os envolvidos. O foco do interesse é mais no processo do que nos resultados, mais no contexto do que em uma variável específica, mais na descoberta do que na confirmação (MERRIAM, 1998, p. 19).
A opção por estudo de caso pode ser justificada também pela pergunta de pesquisa formulada ser do tipo “como”, pela análise de fenômenos ainda não completamente pesquisados além das características específicas elencadas por Mariz et al. (2004) cuja análise demonstra ajuste à natureza e aos propósitos desta investigação, como exposto no quadro 2.
Característica do estudo de caso Justificativa nesta pesquisa
Peculiaridade e/ou complexidade do objeto Fenômeno atípico, raro, produzido como inexistente.
Relato rico e holístico Parte da narrativa de sujeitos da cultura popular obtida
por meio de variadas fontes. Estudo aprofundado sobre uma unidade ou sistema
demarcado e sobre sua relação com o contexto
Construção de práticas organizativas alternativas ao modelo empresa fora do enclave do mercado.
Freqüente deficiência teórica sobre o tema Escassez de estudos que tratem de outros modos de organizar.
Quadro 2 - Justificativa para adoção de estudo de caso Fonte: adaptado de Mariz et al. (2004, p. 6).
Na tipologia proposta por Stake (2004, p. 444), classifico o estudo de caso realizado como intrínseco, caracterizado por identificar antes dos estudos formais começarem um caso particular de interesse. Selecionei o caso, intencionalmente, baseada no potencial para aprender com o caso e a partir dele, critério considerado por Stake (2005, p. 450) como