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6.1 DELIMITAÇÃO E DELINEAMENTO DA PESQUISA

6.1.3 Procedimentos de Coleta e Análise dos Dados

A presente pesquisa contempla a utilização de dados primários e secundários. Os dados primários foram coletados por meio de observações e entrevistas, enquanto que os dados secundários foram coletados a partir de documentos, sites de conteúdo esportivo, mídia radiofônica, seminários, biografias de treinadores, dentre outros. A coleta dos dados primários foi realizada a partir de observações de treinos e partidas da Suburbana nos anos de 2016 e 2017, bem como a partir de entrevistas semiestruturadas realizadas entre os meses de dezembro 2016 e outubro de 2017.

O contato com os treinadores foi realizado primeiramente pelas redes sociais em que era revelada a intenção de realizar um estudo sobre a atuação dos treinadores de futebol amador em Curitiba. Posteriormente, foi realizado um contato telefônico com cada treinador para explicar de forma mais detalhada acerca da pesquisa, informando, inclusive, que se tratava de um projeto de dissertação de mestrado em Administração na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Muitos treinadores se mostraram curiosos, haja vista que grande parte das entrevistas que concediam estava direcionada para as áreas da Educação Física e do Jornalismo. E em alguns casos, quando informávamos que se tratava de um estudo de pós-graduação em Administração, os treinadores questionavam se haveria algum contato com os gestores dos clubes. Novamente verificamos a surpresa por parte dos treinadores ao saber que a Administração poderia se interessar pela atuação do treinador de futebol amador.

No contato telefônico era informado que, naquele momento, a entrevista contemplava uma fase exploratória sobre a Suburbana e sobre a carreira do treinador, que resguardaria as identidades dos entrevistados, e que os resultados contribuiriam para a definição do foco principal da dissertação, possibilitando em alguns casos a realização de uma segunda entrevista no futuro. Foram realizados dez contatos por rede social e telefone, sendo que em apenas duas ocasiões não houve possibilidade de realização das entrevistas, sendo uma por indisponibilidade na agenda por causa de viagens de trabalho do treinador e outra por falta de interesse na participação na pesquisa.

Aos treinadores foi aberta a possibilidade de escolha do local e horário das entrevistas, contemplando inclusive os finais de semana, sendo que de tal modo, em todas as oportunidades o local foi escolhido pelo treinador e o horário alinhado de acordo com a sua disponibilidade. Dessa forma, as entrevistas ocorreram nos períodos da manhã, tarde e noite e abrangeram

diferentes espaços como clubes, escolas de futebol, shopping centers, escritórios e até mesmo a residência dos treinadores.

Antes de iniciarmos cada entrevista, os treinadores eram novamente informados acerca do motivo de sua realização, frisando tratar-se de uma fase exploratória para a realização de uma dissertação de mestrado em Administração. Também era ressaltado que a identidade do treinador não seria divulgada e que haveria a possibilidade de realização de uma nova entrevista em momento posterior. Com a permissão dos treinadores, as entrevistas foram gravadas em um gravador e em um aparelho telefônico. Nesse momento, tornou-se perceptível que mesmo na esfera do futebol amador, os treinadores da Suburbana se mostraram, em sua maioria, acostumados com a realização de entrevistas e com o uso de gravadores.

O roteiro das entrevistas foi estruturado no intuito de permitir abrangência nas falas dos treinadores e contemplou questões relacionadas à trajetória no futebol; aos motivos para atuação no futebol amador; as principais atividades realizadas e principais dificuldades enfrentadas; à percepção das diferenças entre o futebol profissional e o futebol amador, além do significado da atuação como treinador de futebol na vida de cada um.

Embora tenha sido utilizado o mesmo roteiro em todas as oportunidades, foi possível, em decorrência do uso da entrevista semiestruturada, aprofundar determinadas temáticas de acordo com cada oportunidade, o que enriqueceu bastante a fase exploratória. As entrevistas desta etapa tiveram em média vinte e cinco minutos de duração e totalizaram cinquenta e sete páginas de transcrição. O material coletado na fase exploratória foi determinante para a escolha da temática dos sentidos do trabalho, sendo utilizado como suporte para o segundo momento de entrevistas, em que houve aproximação com o método da história oral.

Neste segundo momento, houve novo contato pela rede social e por telefone com os treinadores selecionados, informando-os sobre a continuidade do estudo, agora com foco nos sentidos atribuídos a atividade de treinador de futebol na Suburbana. A organização e execução das entrevistas seguiram os mesmos procedimentos da fase exploratória, porém, levando em consideração aspectos mais direcionados a trajetória dos treinadores dentro da Suburbana e as suas reflexões sobre o desenvolvimento desta atividade. Nesta segunda etapa, as entrevistas tiveram em média quarenta e nove minutos de duração e totalizaram cinquenta e cinco páginas de transcrição.

No que diz respeito a história oral, conforme apontam Ichikawa e Santos (2003), trata- se e uma história do tempo presente, uma vez que retrata uma percepção do passado enquanto algo que tem sua continuidade no hoje, de qual o processo histórico não se encontra finalizado,

sendo a manifestação do passado no presente imediato das pessoas o motivo de sua existência. Meihy (2011) argumenta que a história oral é um conjunto de procedimentos que tem início com a estruturação de um projeto e que se desenrola com a definição das pessoas a serem entrevistadas, com o planejamento das gravações (respeitando as técnicas do gênero escolhido e adequado da história oral); seguido da transcrição, conferência da gravação e validação, autorização para o uso, arquivamento e sempre que possível a publicação dos resultados.

De acordo com o autor, existem três gêneros de história oral: a história oral de vida, a história oral temática e a tradição oral. Na história oral de vida o sujeito é primordial, possuindo maior liberdade para dissertar, o mais livre possível, sobre a sua experiência pessoal, devendo neste caso ser fornecido espaço para que sua história possa ser encadeada de acordo com a sua vontade e condições. Na história oral temática, existe uma maior objetividade, haja vista que um assunto específico é preestabelecido e norteia a condução do projeto, buscando o esclarecimento ou opinião do colaborador acerca dele. Nesse sentido, os detalhes da vida pessoal do narrador interessam apenas na medida em que possam revelar aspectos úteis à temática central. A tradição oral, por sua vez, está focada na relação com os mitos, nas referências e visão de mundo e sobre o passado remoto, que são manifestados no folclore e nas transmissões entre gerações (MEIHY, 2004).

Posto isto, a compreensão dos sentidos do trabalho dos treinadores se desenvolveu mediante utilização da história oral temática, sem, no entanto, deixar de refletir sobre as relações entre o passado, presente e futuro na construção do sentido para cada treinador. Assim como verificado em Borchardt (2015) e Borchardt e Bianco (2016), considerando que a atividade pesquisada não corresponde à profissão de cada sujeito, analisamos também questões da trajetória fora do contexto futebolístico, englobando aspectos profissionais dos indivíduos como suporte na formação da representação do trabalho nos clubes de futebol amador de Curitiba.

Cabe salientarmos ainda que conforme apontam Jones, Armour e Potrac (2003) os métodos de história de vida ou de pesquisas narrativas são ricos em proporcionar insights, permitindo a exploração da realidade subjetiva de um indivíduo e dessa forma sua utilização pode ser capaz de capturar a vida de trabalho muitas vezes caótica, complexa e ambígua dos treinadores. No contexto brasileiro, destacam-se os estudos de Talamoni 2013 e Talamoni, Oliveira e Hunger (2013) que utilizaram o método da história de vida para investigar as trajetórias de treinadores de destaque no cenário do futebol brasileiro e que sugerem novas pesquisas voltadas à análise da “história de vida” de treinadores de futebol, assim como dos

demais profissionais envolvidos com o ambiente esportivo. Embora a presente pesquisa não atue sobre o alto desempenho, verificamos mediante os estudos realizados nesta seara que, a despeito das possíveis diferenças metodológicas entre a pesquisa histórica e a pesquisa narrativa, a análise da trajetória de vida dos treinadores auxilia na compreensão da construção dos sentidos atribuídos ao exercício da atividade de treinador de futebol.

Em relação a análise dos dados, primeiramente realizamos a escuta de todo o conjunto de informações coletadas com o intuito de estimular possíveis insights, mas sem a preocupação em realizar alguma categorização ou classificação prévia dos dados. Posteriormente, seguindo as orientações de Meihy (2004), realizamos a transcrição absoluta (ou seja, a passagem completa dos sons como eles foram captados) das entrevistas por meio da escrita das gravações. De forma concomitante, realizamos leituras e releituras do conteúdo objetivando iniciar a visualização de pontos de convergência e divergência.

Por conseguinte, realizamos a transcriação das narrativas de forma a dar coesão e maior dinâmica aos discursos. “Evocando pressupostos da tradução, a transcriação se compromete a ser um texto recriado em sua plenitude” em que há interferência direta do autor do texto, em um processo de estruturação constante, não sendo apenas as palavras que interessam, mas sim as ideias, os conceitos e as emoções que elas possuem (MEIHY, 2004, p. 184). Desse modo, o que deve vir a público é um texto trabalhado no qual a interferência do autor seja clara e direcionada para a melhoria da narrativa. Todavia, ainda em consonância com as orientações do autor, algumas palavras e expressões repetidas como “tá”, “pra”, “né”, “então” foram mantidas em medida suficiente para dar ao leitor a capacidade de sentir o tipo de narrativa ou mesmo o sotaque do entrevistado.

Em seguida, de posse das entrevistas transcriadas, novas leituras foram realizadas com o objetivo de identificar a partir dos pontos de convergência, os sentidos atribuídos ao trabalho dos treinadores. Na medida em que os oito sentidos foram sendo identificados e construídos, realizamos também conexões com o restante das informações coletadas no intuito de analisá- los para além da aparência, evidenciando também os pontos de divergências e contradições. Dessa forma, não tivemos como objetivo realizar um julgamento das narrativas dos treinadores, porém em nossa interpretação não poderíamos deixar de apontar as possíveis tensões entre o observado e o relatado. Por conseguinte, no intuito de contribuir com o avanço teórico da área, debateu-se as possibilidades (ou impossibilidades) de categorização da função de treinador de futebol amador no contexto da Suburbana curitibana, além de realizar uma reflexão sobre o local em que esta atividade ocupa na vida dos protagonistas.

Por fim, cabe salientarmos que para dar maior fluidez a apresentação dos sentidos, em alguns casos foram utilizados apenas os excertos dos discursos dos treinadores. Dessa forma, salientamos que esta decisão está relacionada ao estilo da escrita, porém não desconsidera o contexto das narrativas como um todo. Assim, sempre que julgamos necessário, criamos uma nota de rodapé com o trecho completo da entrevista transcriada correspondente ao excerto utilizado. Além disso, fizemos uso do itálico para diferenciar os trechos de citação direta dos entrevistados com os demais elementos textuais.

7 A SUBURBANA CURITIBANA

O Campeonato Amador da Capital, mais conhecido como a Suburbana, é o principal e mais tradicional campeonato de futebol amador da cidade de Curitiba, tendo a sua origem no ano de 1941, completando ininterruptos 77 anos em 2017. O Campeonato iniciou mediante a fundação da Liga Suburbana de Curitiba (LSC) e passou a ser organizado pela Federação Paranaense de Futebol (FPF) a partir de 1947, ano em que a LSC se filiou a FPF (OLIVEIRA, 2013).

De acordo com o autor, tendo em vista a sua longevidade, a Suburbana possui uma espécie de mística no universo do futebol amador de Curitiba, porém sem a mesma visibilidade do futebol de espetáculo, sendo considerada, portanto, como um “labo B” do espaço futebolístico da capital paranaense, uma dimensão do futebol imersa na cotidianidade da população de muitos bairros da cidade, mas que é notícia apenas na contracapa dos jornais. Esta relação de capa-contracapa40 oferece uma pertinente metáfora para se refletir acerca do lugar que a competição ocupa dentro do futebol de Curitiba e Região Metropolitana, uma vez que para muitos curitibanos ela não é digna de atenção enquanto que para outros tantos é central em seu cotidiano.

Entretanto, no decorrer de nosso estudo encontramos diversos projetos, principalmente em meios eletrônicos41, que se dedicam quase que exclusivamente ao futebol amador de Curitiba, fornecendo um rico material de pesquisa sobre os clubes e campeonatos realizados, com especial atenção à Suburbana. Prova disso é a estruturação de sites, reportagens, entrevistas e materiais gráficos sobre a competição, como o guia da Suburbana do site “Do Rico ao Pobre” e o álbum de figurinhas da Suburbana 2017 do site “Gol de Pauta”.

40 Na capa estariam as reportagens do futebol profissional, enquanto que na contracapa estariam do futebol amador, da Suburbana.

Figura 2: Guia Suburbana 2016/2017 - DRAP (Do rico ao pobre).

Fonte: DRAP (2016; 2017).

Figura 3: Álbum de figurinhas – Suburbana 2017. Fonte: https://www.goldepauta.com.br/

Outro fator que contribui para a “popularidade” da Suburbana e que eleva a sua importância é a participação de equipes que representam clubes e regiões muito tradicionais da

capital paranaense. Em 2016, por exemplo, das doze equipes que disputaram o campeonato, sete possuíam mais de cinquenta anos de existência, como por exemplo, a Sociedade Operária Beneficente Esportiva Iguaçu (S.O.B.E Iguaçu), que foi fundado em 1919 e ocupa a posição de clube mais antigo em exercício no futebol amador curitibano. Ainda nesse sentido, verifica-se que diversos outros clubes são das décadas de 1930 e 195042 e representam a expansão urbana da cidade de Curitiba, concebidos como espaços para sociabilidade em bairros recém-criados no contexto do desenvolvimento urbano da capital (OLIVEIRA, 2013; SOUZA, 2014).

Conforme aponta Capraro (2002) não se pode negligenciar que a introdução do futebol no Brasil também foi influenciada pelas etnias europeias imigrantes e seus descendentes. As consequências dessa introdução podem ser verificadas, mesmo que de forma indireta, na estruturação de muitos clubes participantes da Suburbana. De acordo com Souza (2014) desde o início do século XX a cidade de Curitiba já se constituía como um verdadeiro mosaico cultural em que italianos, poloneses, ucranianos, alemães, russos, franceses, austríacos e holandeses, deslocados de sua terra natal, encontraram na formação de associações, como as agremiações futebolísticas, uma estratégia para se integrar à nova realidade.

Nesse sentido, entre os tantos exemplos de clubes criados no decurso dos fluxos migratórios estão o S.O.B.E Iguaçu e o Trieste Futebol Clube, ligados à imigração italiana (CAMPOS, 2009; SOUZA, 2014). Especificamente sobre os dois, Campos (2009) ressalta que apesar de atualmente ambos não impedirem a participação de pessoas de outros bairros e descendências, ainda mantém suas construções simbólicas alicerçadas em uma referência a Itália e na representação do bairro de Santa Felicidade43.

Além da relação com as etnias europeias, outros clubes possuem forte influência do movimento de migração relacionada ao êxodo rural a partir da década de 1940. Trata-se de um fluxo migratório de trabalhadores provenientes do interior do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul que influenciaram na origem de clubes como o Combate Barreirinha, Vila Hauer e Urano (OLIVEIRA, 2013). Nesse sentido, de acordo com o autor, muito da posição ocupada pela Suburbana enquanto evento tradicional e de destaque no contexto do esporte amador curitibano está baseado no fato de que a disputa ocorre entre equipes que representam clubes que são referências no cotidiano de muitos moradores da capital

42 O Iguaçu é o clube mais antigo, fundado em 1919. Após, temos o Novo Mundo (1930), Trieste (1937), Operário Pilarzinho (1951), Vila Fanny (1952), Capão Raso (1952 ) e Uberlândia (1959).

43 Como é possível observar no brasão do Trieste (que faz menção a bandeira da Itália) e na inscrição de um dos muros do estádio do Iguaçu: “Iguaçu, o mais querido de Santa Felicidade” (CAMPOS, 2009).

e da região metropolitana. O peso desse “clubismo”44 que permeia a competição, também é evidenciado nas falas de jogadores, torcedores e jornalistas para quem os clubes que disputam a Suburbana “não devem nada ao futebol profissional”.